Por Gregório de Matos (1696)
Este conjunto de poemas é atribuído a Gregório de Matos (1636-1696), figura central do Barroco brasileiro. Produzidos na Bahia colonial, os textos relatam os embaraços amorosos do eu lírico com a mulata Antônia. A obra transita entre o desejo carnal, a frustração diante da recusa da amada e a sátira, retratando o cotidiano soteropolitano e o comportamento licencioso da elite da época.
Mulata livre e travessa
Manuel Pereira Rabelo, licenciado
Dai-me licença, Antonica
para eu ir à vossa casa
para beijar-vos as mãos
e para: não digo nada.
MULATA LIVRE E TRAVESSA POR CUJA ESPERTEZA LHE CHAMAVAM
MARIBONDA. MORAVA NA RUA DA POYEIRA NAQUELLE TEMPO QUASI DESERTA
E SE ACHAVA DE PRESENTE EM CASA DE HUMA AMIGA NO CAMPO DA PALMA,
ONDE O POETA HIA DIVERTIR-SE: E ALI EMBARAÇOU COM ELLA. COMO DIZ A
METHAFORA.
1
Fui hoje ao campo da Palma,
onde com súbito estrondo
me investiu um maribondo,
que me picou dentro n'alma:
era já passada a calma,
e eu me sentia encalmado,
sentido, e injuriado,
porque sendo obrigação
meter-lhe eu o meu ferrão,
eu fui, o que vim picado.
2
Fiz por fechá-lo na mão,
mas o Maribondo azedo
me picava em qualquer dedo,
e escapava por então:
desesperada função
foi esta, pods me foi pondo
tão abolhado em redondo
por cara, peitos, vazios,
que estou em febres, e frios
morrendo do Maribondo.
3
Dizem, que a vingança está
em lhe saber eu da casa,
porque deixando-lhe em brasa,
o fogo mitigará:
temo que não arderá
por mais que toda uma mata
lhe aplique com mão ingrata,
porque eu, o que lhe hei de pôr
há de ser fogo de amor,
que inda que abrasa não mata.
4
Nesta aflição tão penosa
donde me virá socorro?
morrerei, que o por que morro,
faz uma morte formosa:
esta dor tão temerosa
me livrará de maneira,
que ou ela queira, ou não queira,
em chegando à sua rua,
se acaso se mostrar crua,
tudo irá numa poeira.
NEGOU-SE TOTALMENTE ANTONICA DE MEDO, QUE À TODAS FAZIA A SOLTURA
DO POETA, E ELLE A PERTENDE REDUZIR COM ESTA REGALLADA POEZIA.
Agora que sobre a cama
Antonica me inquieta,
muito rnais estando ausente,
que se na cama estivera:
Agora que o meu cuidado
dentro dalma me desvela,
e o verdugo da memória
em saudades me atormenta:
Agora que o brando leito,
qual duro potro me espera,
porque o cordel da lembrança
execute as leis da ausência:
Agora que a muda noite
no silêncio, que professa,
como quem soube os meus gostos,
mos representa na idéia:
Entre o passado e presente
não distingue a paciência,
se é mais ativa a fortuna,
nos logros ou se nas perdas:
Quero queixar-me, Antonica,
de vós, da vossa beleza,
rigores, desatenções,
esquivanças, e inclemências.
Quero queixar-me de mim
sobre padecer a ofensa,
pois que não soube agradar-vos
para forrar estas queixas.
Acaso vos vi uma tarde
debaixo de uma urupema
por meu mal, porque entre nuvens
o sol mais ativo queima.
Indo ao campo buscar fresco
topei, sendo pela fresca,
muito calor, que me abrasa
de raios da vossa esfera.
Vi-vos, e rendi-me logo,
e em duas ações diversas
de ver-vos, e de render-me
eu não sei, qual foi primeira.
Permitiu minha ventura
(desgraça quero eu, que seja)
que não cegasse com ver-vos,
para padecer mais penas.
Que sempre em ódio de um triste
faz mudança a natureza,
pois cheguei a ver um sol,
não tendo de águia as potências.
Movido da mão de Amor,
que as liberdades sujeita,
Fênix dei a meus cuidados
berço em amante fogueira.
Tornei outra vez a ver-vos,
e a segunda diligência,
claro está, que era nascida
dos acasos da primeira.
De novo não me rendi,
que era encontrada fineza
ter ainda, que render-vos,
quem a sua alma vos dera.
Mas por dobrar rendimentos,
e igualar correspondências,
as almas multipliquei
por sentidos, e potências:
Tantas almas era justo,
que a tantas prendas rendera,
por não ficar sem triunfo
a menor das vossas prendas.
Favorecestes-me então,
e a memória o representa,
por me tirar com pesar,
o que com gosto me dera.
Logo vos arrependestes
de uma culpa tão pequena,
como é pagar com favores
amantes correspondências.
Estes são os meus pesares,
estas, digo, as minhas queixas,
que por serem de um mofino
temo que soem a ofensas.
E pois molesta por força
estar escutando queixas,
de quem finezas enfadam,
já Amor nos queixumes cessa.
De vós mesma me dai novas;
dai-mas de vossas durezas,
pois quanto mais me acrisolarn,
tanto mais o amor as preza.
TARDAVA ANTONICA COM A RESOLUÇÃO, E O POETA EXORTA SUA
NEUTRALIDADE.
Mando buscar a resposta
Antonica à vossa casa,
e queira Deus não se torne
a resposta em respostada.
Com temor a solicito,
bem que a desejo com ânsia,
que uma cousa é meu amor,
e outra a minha pouca graça.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Antônia. In: Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.