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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Alguns passos discretos e tristes

Por Gregório de Matos (1696)

Esta coletânea de Gregório de Matos, produzida no século XVII em Salvador, reflete o desassossego do "poeta da boca do inferno" durante seu exílio. Em meio a reflexões sobre a soledade, a inconstância da fortuna e a corrupção da Corte, o autor utiliza uma linguagem erudita e barroca para exprimir suas angústias existenciais e afetivas. A obra é uma crônica das tensões do viver baiano, abordando temas como a vaidade, o desengano amoroso e a efemeridade da vida frente à morte inevitável.

Eu fiquei com minhas mágoas

Oh nunca foram tantos
nem tão fortes meus males
como as ondas

NESTE RETIRO DEVEMOS SUPPOR O POETA CONSULTADO DE VARIOS AMIGOS
COM ALGUNS ASSUMPTOS PARA RESOLVER, E ASSIM PROSSEGUIREMOS COM
AS OBRAS SEGUINTES.

Fábio; que pouco entendes de finezas.
Quem faz só, o que pode, a pouco obriga;
Quem contra os impossíveis se afadiga,
A esses se dê amor em mil ternezas.

Amor comete sempre altas empresas;
Pouco amor muita sede não mitiga;
Quem impossíveis vence, este me instiga
Vencer por ele muitas estranhezas.

As durezas da cera o Sol abranda,
E da terra as branduras endurece,
Atrás do que resiste, o Raio se anda.

Quem vence a Resistência, se enobrece,
Quem pode, o que não pode, impera, e manda;
Quem faz mais do que pode, esse merece.

CONTINUA O POETA EM LOUVAR A SOLEDADE VITUPERANDO A CORTE.

Ditoso aquele, e bem aventurado,
Que longe, e apartado das demandas
Não vê nos tribunais as apelandas,
Que à vida dão fastio, e dão enfado.

Ditoso, quem povoa o despovoado,
E dormindo o seu sono entre as Holandas
Acorda ao doce som, e às vozes brandas
Do tenro passarinho enamorado.

Se estando eu lá na Corte tão seguro
Do néscio impertinente, que porfia,
A deixei por um mal, que era futuro;

Como estaria vendo na Bahia,
Que das Cortes do mundo é vil monturo,
O roubo, a injustiça, a tirania.

PERGUNTA-SE NESTE PROBLEMA, QUAL HE MAYOR, SE O BEM PERDIDO NA
POSSE, OU O QUE SE PERDE ANTES DE SE LOGRAR? DEFENDE O BEM JA
POSSUIDO.

Quem perde o bem, que teve possuído,
A morte não dilate ao banimento,
Que esta dor, esta mágoa, este tormento
Não pode ter tormento parecido.

Quem perde o bem logrado, tem perdido
O discurso, a razão, o entendimento:
Porque caber não pode em pensamento
A esperança de ser restituído.

Quanto fosse a esperança alento à vida,
Té nas faltas do bem seria engano
O presumir melhoras desta Sorte.

Porque onde falta o bem, é homicida
A memória, que atalha o próprio dano,
O Refúgio, que priva a mesma morte.

DEFENDE-SE O BEM QUE SE PERDEO NA ESPERANÇA PELOS MESMOS
CONSOANTES.

O bem que não chegou ser possuído,
Perdido causa tanto sentimento,
Que faltando-lhe a causa do tormento,
Faz ser maior tormento o padecido.

Sentir o bem logrado, e já perdido
Mágoa será do próprio entendimento,
Porém o bem, que perde um pensamento,
Não o deixa outro bem restituído.

Se o logro satisfaz a mesma vida,
E depois de logrado fica engano
A falta, que o bem faz em qualquer Sorte:

Infalível será ser homicida
O bem, que sem ser mal motiva o dano,
O mal, que sem ser bem apressa a morte.

TENTADO A VIVER NA SOLEDADE SE LHE REPRESENTÃO AS GLORIAS DE QUEM
NÃO VIO, NEM TRATOU A CORTE.

Ditoso tu, que na palhoça agreste
Viveste moço, e velho respiraste,
Berço foi, em que moço te criaste,
Essa será, que para morto ergueste.

Aí, do que ignoravas, aprendeste,
Aí, do que aprendeste, me ensinaste,
Que os desprezos do mundo, que alcançaste,
Armas são, com que a vida defendeste.

Ditoso tu, que longe dos enganos,
A que a Corte tributa rendimentos,
Tua vida dilatas, e deleitas!

Nos palácios reais se encurtam anos;
Porém tu sincopando os aposentos,
Mais te deleitas, quando mais te estreitas.

MORALIZA O POETA OUTRA VEZ A SUA DECLINAÇÃO PELO SEU LUZIMENTO NO
AMORTECIDO DESMAYO DE HUMA POMPOSA FLOR.

1
De que serviu tão florida,
caduca flor, vossa Sorte,
se havia da própria morte
ser ensaio a vossa vida?
quanto melhor advertida
andáveis em não nascer,
que se a vida houvera ser
instrumento de acabar,
em deixares de brilhar,
deixaríeis de morrer.

2
Enquanto presa vos vistes
no botão, onde morastes,
bem que a vida não lograstes,
de esperança vos vestistes:
mas depois que, flor, abristes,
tão depressa fenecestes,
que quase a presumir destes
(se se pode presumir)
que para a morte sentir,
somente viver quisestes.

3
Fazendo da pompa alarde
abre a Rosa mais louçã,
e o que é gala na manhã,
em luto se torna à tarde:
pois se a dita mais cobarde,
se a mais frágil duração
renascestes, porque não
terei de crer fundamento,
que foi vosso luzimento
da vossa sombra ocasião.

4
E pois acabais florida,
bem se vê, flor desditosa,
que a não seres tão formosa,
não fôreis tão abatida:
desgraçada por luzida,
ofendida por louçã
mostrais bem na pompa vã
as mãos do tempo cobarde,
que fenecestes à tarde,
por luzires na manhã.

(continua...)

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