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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Bárbora ou Babu

Por Gregório de Matos (1693)

Estes poemas de Gregório de Matos (1636-1696), figura central do Barroco brasileiro, refletem a boemia e a vivência na Bahia do século XVII. Dirigidas a Bárbara (ou Babu), uma mulata meretriz, as composições exploram o desejo carnal e a frustração do eu lírico diante das negativas da amada. Com tom satírico e erótico, o poeta transforma seus embaraços cotidianos em fina ironia, utilizando a linguagem para expressar paixão e crítica aos costumes sociais.

Foy Dama muy caprichosa e bella: rematada de notável
genio com engraçada viveza. Teve mais duas Irmãas
Eugenia e Maria. O Poeta jocosamente galantea
os seus desdens.

Manuel Pereira Rabelo, licenciado

Nunca meu pai me fizera
branco de cagucho, e cara,
mas não deixes de querer-me,
porque sou branco de casta,
que se me tens cativado,
sou teu negro, e teu canalha

PEDE O POETA NESTA OBRA CONTA DO SEU PROCEDER À SUAS IRMÃAS
EUGENIA E MACOTTA.

Eugênia, convosco falo,
e com Macota também,
dai-me novas de Babu,
se acaso dela sabeis.

Que me dizem, que esta noise
a bruxa se foi meter
e ninguém a viu em casa
até que amanheceu.

Dizei-me, se está arranhada,
porque se está, sinal é,
que andou por barro de folha
Carmo aquém, e Carmo além.

Eu não sinto estas mudanças,
e só me queixo, de que
correndo a cidade toda
não chegasse a esse vergel.

Porque pudera eu sair,
e acompanhá-la também
por todo esse lararipe
e embruxar toda a mulher.

A minha fora a primeira,
e morrendo de uma vez
casar-me-ia com Babu,
para ter cunhadas três.

Qualquer delas me fizera
mil regalos, mil mercês,
e engordando como um Conde
levará vida de rei.

Mas ela me tem tal ódio,
que fugirá té de ser
madrasta do Gonçalinho,
que é lindo enteado à fé.

Vós Eugênia, e vós Macota,
vigiai-me essa Mulher,
que é bruxa, e tem-se embruxado
desde a cabeça até os pés.

Porque ou há de resolver-se
a querer, que a queira eu,
ou lhe hei de tirar o sangue,
e o fadário há de perder.

Não quero, que seja a bruxa,
ou hei de sê-lo também
para acompanhar de noite,
e de dia a recolher.

Aliás hei de acusá-la
a seu Pai, quando vier,
porque se em prisões me mata,
em prisões morra também.

PONDERA QUE OS DESDENS SEGUEM SEMPRE COMO SOMBRAS O SOL DA
FORMOSURA.

Cada dia vos cresce a formosura,
Babu, e tanto cresce, que me embaça,
Se cresce contra mim, alta desgraça,
Se cresce para mim, alta ventura.

Se cresce por chegar-me à mor loucura,
Para seres mais dura, e mais escassa,
Tal rosto se não mude, antes se faça
Mais firme do que a minha desventura.

De que pode servir, seres mais bela,
Ver-vos mais soberana, e desdenhosa?
Dai ao demo a beleza, que atropela,

Bendita seja a feia, e a ranhosa,
Que roga, que suspira, e se desvela
Por dar-se toda a troco de uma prosa.

HUMA TARDE ENTROU O POETA EM CASA DESTA DAMA, QUE ESTAVA NO
INTERIOR ENOJOADA PELA MORTE DE SUA MÃE, E COMO ERA HOMEM
DIVERTIDO, TANGEU NUMA VIOLLA, QUE ACASO VIO, PONDO A VIOLLA
OS SENTIMENTOS DE BARBORA: E ELLA ENFURECIDA LHE DISSE ALGUMAS
INJURIAS.

Babu: dai graças a Deus,
que um dia vos vi bonita,
não tendes mais que andar sempre
raivosa para ser linda.

Apareceste na sala
tão fera, e tão raivosinha,
que à fé, que vos tive medo,
sendo homem, e vós menina.

Vi a escarlata co'a neve
tão casada, e tão unida
na face do vosso rosto,
que sangrado o presumia.

Devia de ser vergonha,
que o vosso rosto então tinha
de ver-se ante quem o adora,
sendo vós de ingrata indigna.

Os olhos vibrando raios,
porque sempre raios vibra
o céu incendido em fogo,
ou encapotado em ira.

Agastastes-vos deveras,
vendo, que ali se tangia
em uma casa enojada
tão enlutada, e sentida.

Deus me não salve a minha alma,
se eu então vos conhecia,
porque vós não sois magreira,
e por ética vos tinha.

Levantei-me da cadeira
sem saber, o que fazia,
que me tinha perturbado
tão supitânea visita.

Destes-me quatro razões,
que eram quatro mil faíscas
do fogo da vossa raiva
em o meu erro incendidas

Inda assim vos respondi
dois verbos em cortesia,
que a beleza foi respeito,
e a fraqueza é comedida.

Fostes-vos lá para fora
vagarosamente altiva,
paráveis de quando em quando,
e olháveis de travessia.

Eu logo me pus na rua,
e perguntando a Matias
quem era aquela Senhora,
disse, que era minha Tia.

Fiquei entendendo então,
que vós só por seres vista
tomastes do meu cantar
aquele pé de cantiga.

Já não hei de cantar mais,
nem que o mande a minha amiga,
chorareis vossa dureza,
chorarei minha mofina.

COLHE-SE DO ESTILO DESTAS OBRAS QUE O AMOR DESTA DAMA NÃO
INQUIETAVA AO POETA.

Babu: como há de ser isto?
eu já me sinto acabar,
e estou tão intercadente,
que não chegue até amanhã.

Morro de vossa beleza,
se ela me há de matar,
como creio, que me mata,
formosa morte será.

(continua...)

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