Por Gregório de Matos (1696)
2
Para uns olhos tão brilhantes
buscava o melhor pincel,
negou-lhe Apeles cruel,
piedoso lhe deu Timantes:
como Mestres tão prestantes
puseram de morte cor,
olhos, que vencem a Amor:
nesta pena, que o soçobra,
para colorir a obra
Cupido se fez pintor.
3
Sempre eu vi que aos amadores
nada falta em bom primor:
porém hoje ao mesmo Amor
para pintar faltam cores:
ele perdeu as melhores
em ter a presença extinta
dos olhos belos, que pinta,
cuja cor é celestial,
e por lhe dar natural
Desfez o céu para tinta.
4
Para cópia tão divina,
como Amor a imaginou,
todo o aparelho tirou
dessa esfera cristalina:
excedia a ultramarina
cor desse azul arrebol,
e do divino farol
sendo precisa a luz pura,
por dar claros à pintura
Moeu para luz o Sol.
PARECE QUE JA SE ENFASTIAVA O POETA DO SEU
RETIRO COMO SE VÊ NA OBRA.
MOTE
Contentamento, onde estás,
que te não acha ninguém,
se intenta buscar-te alguém,
não sabe, por onde vás.
1
Amigo contentamento,
peço-te por esta vez,
que não me busques, que intento
buscar-te em teu aposento,
para lançar-me a teus pés:
que não qués, e a ousadia,
ou a desserviço o hás,
para que te acha algum dia,
me digas em cortesia,
Contentamento, onde estás.
2
Por mil partes diferentes
andei, e te certifico
não ver-te por entre as gentes,
antes todos descontentes
alto, baixo, pobre, rico:
fui-me aos palácios e ouvi,
que se acaso ali te vêem,
sem deixar sinais de ti,
tão cedo te vais dali,
Que te não acha ninguém.
3
Dei logo em imaginar,
que estás entre os namorados,
busquei-te, e vendo-os queixar,
mal (disse) se podem dar
contentamento, e cuidados:
com que vendo o teu desvio
julguei, que passar além
era trabalho baldio,
e que intenta um desvario,
se intenta buscar-te alguém.
4
Fiquei tão desenganado,
que direi por toda a parte,
que quem por dita, ou por fado
se não vir de ti buscado,
não se canse com buscar-te:
Porque é tal tua conquista,
que inda o triste, a quem te dás,
por muito, que ele te assista,
em perdendo-te de vista,
Não sabe, por onde vás.
DESPEDE-SE O POETA DO SEU AMOROSO DIVERTIMENTO COM PRETEXTOS
FRIVOLOS, E TOTALMENTE CONTRARIOS A RAZÃO DO AMOR.
MOTE
Deixar quero o vosso bem,
para tomar vosso mal,
porque o vosso bem é tal,
que do mal melhor me vem.
1
Se dor me infunde no peito,
Clóri, quererdes-me assaz,
dai ao demo amor, que traz
mais dano, do que proveito:
não vi amor de tal jeito
no mundo daquém, e além,
e pois simulado vem
todo o mal, que me fazeis,
neste bem, que me quereis,
Deixar quero o vosso bem.
2
Se mal vosso bem me influi,
bens vosso mal dará vários,
porque de agentes contrários
contrário efeito se argúi:
a conseqüência conclui
por força filosofal;
e pois vosso mal é tal,
que em vós doutro bem não sei,
que bens não repudiarei,
Para tomar vosso mal?
3
Pois o bem pelo mal troco
pelas causas, que já disse,
terei a grã parvoíce,
que vós me tenhais por louco,
que eu o que exprimento, e toco
neste bem prejudicial
me faz homem desigual,
avesso, néscio, e sandeu:
porém tal homem sou eu,
Porque o vosso bem é tal.
4
Se tal fora o vosso amor,
como são outros amores,
fecundo para os favores,
estéril para o rigor:
tivera a grande favor,
Clóri, quererdes, a quem
vos adorara um desdém,
que outro tempo aborrecia,
porque então não entendia,
Que do mal melhor me vem.
MATOS, Gregório de. Alguns passos discretos e tristes. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.