Por Gregório de Matos (1696)
1
Serviu Luís a Isabel
Por prêmio de um favor só
mais tempo do que Jacó
serviu à bela Raquel:
e porque Isabel infiel
o enganou de dia em dia,
em pena de aleivosia
em Maria o empreguei,
e então lhe certifiquei
Amar Luís a Maria.
2
Deixei-a tão persuadida,
quanto ela é presuntuosa,
que o presumir de formosa
persuade o ser querida:
porém como é entendida,
e em toda a arte de amar
sabe mui bem conjugar,
disse, tomando-me a mão,
que em boa conjugação
Amaria não é amar.
3
Que amaria é imperfeito,
e perfeito o ter amado,
e a um presente cuidado
não serve o plus-quão-perfeito:
vi eu a Moça de jeito,
que me pus pela quietar
nesta forma a conjugar
"Amar Luís, e amaria
não está em filosofia",
Logo como pode estar?
4
Este aparente argumento,
e sutil proposição
não só tirou a questão,
mas deu-lhe contentamento:
firme enfim ao fundamento
da minha sofisteria
diz, que a boa astronomia
tem uns pontos tão sutis,
que pode estar em Luís
Num tempo amar, e amaria.
AMOR, QUE ES FUEGO, Y AMADO
MOTE
Antandra, el Amor, si nó
ocultas tus rayos, sé,
que te ha de roubar, lo que
Prometeo al sol robó.
1
Amor, que es fuego, y amado
com arco, aljaba, y saetas
com mil amorosas tretas
mil armas ha conquistado:
pero tu, Antandra, has ganado
más victórias, que el ganó,
de suerte que dudo yo
(viendo unos, y otros despojos)
si puede más que tus ojos,
Antandra, el Amor, si no.
2
Porque en severa conquista
tienen flechas, arco, y fuego,
y luz, con que el amor ciego
dexan a perder de vista:
y ansi no ay, quien resista
la luz, que en ellos se vê,
y aun el mismo Amor por lé
(como no puede mirando)
que te adora, Antandra, quando
Ocultas tus rayos, Sé.
3
Mas de sus adoraciones
no debes mucho fiar-te
que dizen, que hade robar-te,
pues le robas coraçones:
no ay, que fiar en ladrones,
que enbistem a falsa fé;
mas yo le perguntaré,
Antandra, quando tu queiras,
pues afirman tan deveras,
Que te hade robar? Lo que?
4
Y si a tus ojos dixere,
bien se dexa ver, que es ciego,
y se dixeres, que el fuego,
señal, que el tuyo prefiere:
luego bien claro se infiere,
que el mismo se condenó,
y pues asi te embidió
puedes dar-lhe de barato,
lo que por un falso trato
Prometeo al sol robó
SE HOUVERA CONFORMIDADE
MOTE
Não quero, o que vós quereis,
só quero, que vós queirais
aquilo, que não quereis,
só quero, não quero mais.
1
Se houvera conformidade
em um, e outro querer,
ambos poderiam ser
atos da mesma vontade:
porém na diversidade
de uma, e de outra vereis,
quando firme pergunteis,
onde minha alma está posta,
como tendes por resposta,
Não quero, o que vós quereis.
2
E se acaso se oferece
outro objeto a vosso amor,
e publicais por favor,
que em vós só o meu floresce:
esta ação nada merece,
mas antes me ofende mais,
e do prêmio, que buscais,
deponde a louca esperança
e não ter de mim lembrança
Só quero, que vós queirais.
3
Se nesta deformidade,
que em vossas vontades há,
algum meio indústria dá
para haver conformidade,
é, que na vossa vontade
mil impossíveis obreis,
porque amando não ameis,
sendo fino, o não sejais,
e não querendo queirais
Aquilo, que não quereis.
4
Se isto muito parecer
em uma vontade humana
isso mesmo desengana
os quilates do seu ser:
pouco amor, pouco querer
é força, que concedais,
pelo que não pertendais
as lisonjas do meu gosto,
porque, o que tenho proposto,
Só quero, não quero mais.
VIDINHA: POR QUE CHORAIS?
MOTE
Se lágrimas aliviam,
como padece, quem chora?
1
Vidinha: por que chorais?
porque padeço, meu bem.
Mui grande dúvida tem
a resposta, que me dais:
se lágrimas são sinais
dos que dantes padeciam,
alívio já sentiriam
das lágrimas ao verter;
logo implica o padecer
Se lágrimas aliviam.
2
Dúvida não pode haver,
que enquanto os olhos me choram,
suposto a pena melhoram,
se está rindo o padecer:
alívio deve de ter,
quem já seus males melhora,
mas se nele a pena mora
até o choro acabar,
fácil é de se mostrar
Como padece, quem chora.
DE UNS OLHOS SE VIU RENDIDO
MOTE
Para retratar uns olhos
Cupido se fez pintor,
desfez o céu para tinta
moeu para luz o Sol.
1
De uns olhos se viu rendido
Amor, que os arpões quebrou,
porque afrontados julgou
arpões doutro arpão vencido:
cego, e turbado Cupido
guiado de seus antolhos
trilha espinhos, pisa abrolhos,
e por curar seu cuidado
um pincel pede emprestado
Para retratar uns olhos.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Alguns passos discretos e tristes. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.