Por Gregório de Matos (1696)
10
Enfim certamente és rio,
foste mar, mar hás de ser,
mas eu só devo de crer,
que fui, e serei pó frio:
assim creio, assim confio,
nele me hei de converter,
os bichos me hão de comer
hei de todo acabar,
hei de estreita conta dar,
Finalmente hei de morrer.
SE NÃO POSSO IR RASTEJANDO
MOTE
Como se pode alcançar
de dous, que se querem bem,
qual terá maior pesar,
se o que vai para tornar,
se o que espera, por quem vem.
1
Se não posso ir rastejando
a pena, que pode ter,
quem há temor de perder
a prenda, que está logrando:
e se me confundo, quando
me disponho a penetrar
aquela pena, e pesar,
que deixa um bem já perdido,
do mal de ausente o sentido,
Como se pode alcançar?
2
Parece uma pena chica,
que chica é por tal arte,
que inda que a dor se reparte,
toda em um se multiplica:
pena, que mais se duplica,
quanto mais partida vem,
na extensão o aumento tem,
que a pena, que a ausência ordena,
sobre ser de dous, é pena
De dous, que se querem bem.
3
Se é pena de dous, que se amam,
quem não vê, que em tal querer
dobrado incêndio há de haver,
se há dous fogos, que se inflamam:
quando dous a um tempo clamam,
por força se há de aumentar
a um clamar outro clamar;
assim no mal de não ver-se
cresce a pena, sem saber-se
Qual terá maior pesar.
4
Quem vai, porque a pena rima,
deixa a alma, que se inflama,
para que anime, adonde ama
muito mais, que adonde anima:
quem fica, e se desanima,
quer logo as almas trocar,
por confundir, e ocultar,
qual mais sabe padecer,
quem fica para não ver,
Se o que vai para tornar.
5
Nesta confusão de amor
duvida a perplexidade,
nunca se sabe a verdade
sobre a ventagem da dor:
mas o discreto Leitor,
que quer lhe resolva em bem,
o que o mote em si contém,
veja, que tem mais cuidado,
quem não vem, sendo esperado,
Se o que espera, por quem vem.
NUMA ILUSTRE ACADEMIA
MOTE
Perguntou-se a um discreto,
qual era a morte tirana:
respondeu, que estar ausente
daquilo, que mais se ama.
1
Numa ilustre academia,
que com ciências infusas
fizeram as nove Musas,
onde Apolo presidia:
leu o Secretário Admeto,
um problema mui seleto
propôs, para argumentar-se,
e havendo de perguntar-se,
Perguntou-se a um discreto.
2
Ele, que estava distante,
e não ouvia a proposta,
não deu por então resposta
de Surdo, e não de ignorante:
mas vendo no seu semblante
a academia Sob'rana,
que tinha a desculpa lhana,
lhe advertiram com agrado,
que lhe haviam perguntado:
Qual era a morte tirana.
3
Ele entonces como um raio
prontamente, e sem detença
tomando vênia, e licença
fez consigo um breve ensaio:
o mais horrível desmaio
que um peito amoroso sente,
é a falta do bem presente:
ficou-lhe a resposta lhana;
e a qual é a morte tirana,
Respondeu, que estar ausente.
4
Deixou a resposta absorto
a aquele douto congresso,
porque é já provérbio expresso,
que ausente é o mesmo que morto:
eu me persuado, e exorto,
que quem se abrasa, e inflama
de amor na contínua chama,
inda que sinta abrasar-se,
e menos mal, que ausentar-se
Daquilo, que mais se ama.
CORAÇÃO, QUE EM PERTENDER
MOTE
Se de um bem nascem mil males,
de um mal quisera saber
quantos bens podem nascer?
1
Coração, que em pertender
perdes tempo em esperanças,
e quando algum bem alcanças,
é por ter mais que perder:
por cousas, que não têm ser,
e de que nunca te vales,
como direi, que te abales?
como direi, que convém,
andar em busca de um bem,
Se de um bem nascem mil males?
2
Quando um firme bem procuras,
te desavéns com teus bens,
porque perdendo os que tens,
noutros males te asseguras:
aos bens nunca te aventuras
sem certos males colher,
e eu para te defender,
e a vida te conservar,
um bem não tomara achar,
De um mal quisera saber.
3
Do bem os males nasceram
do mal nunca nasceu bem,
salvo o mal de quem não tem
bens, de que os males se geram:
e inda que do mal puderam
os bens produzidos ser,
se os hás de vir a perder,
antes toma um mal por gosto
Quantos bens podem nascer.
SERVIU LUÍS A ISABEL
MOTE
Amar Luís a Maria,
amaria não é amar
logo como pode estar
num tempo amar, e amaria.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Alguns passos discretos e tristes. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.