Por Machado de Assis (1875)
Esta última revelação do doutor pôs termo à minha paciência. Não sei o que lhe disse, mas lembra-me que ele ouviu-me com o sorriso benévolo que tinha às vezes, e respondeu-me com esta simples palavra:
— Criança!
Saí pouco depois do jantar, resolvido a lá não voltar nunca.
CAPÍTULO V
A promessa não foi cumprida.
Mais de uma vez o Doutor Belém mandou à casa chamar-me; não fui. Veio duas ou três vezes instar comigo que lá fosse jantar com ele.
— Ou, pelo menos, conversar, concluiu.
Pretextei alguma cousa e não fui.
Um dia porém, recebi um bilhete da mulher. Dizia-me que era eu a única pessoa estranha que lá ia; pedia-me que não a abandonasse.
Fui.
Eram então passados quinze dias depois do célebre jantar em que o doutor me referiu a história do esqueleto. A situação entre os dois era a mesma; aparente afabilidade da parte dela, mas na realidade medo. O doutor mostrava-se afável e terno, como sempre o vira com ela.
Justamente nesse dia, anunciou-me ele que pretendia ir a uma jornada dali a algumas léguas.
— Mas vou só, disse ele, e desejo que o senhor me faça companhia a minha mulher vindo aqui algumas vezes.
Recusei.
— Por quê?
— Doutor, por que razão, sem urgente necessidade, daremos pasto às más línguas? Que se dirá...
— Tem razão, atalhou ele; ao menos, faça-me uma cousa.
— O quê?
— Faça com que em casa de sua irmã possa Marcelina ir passar as poucas semanas de minha ausência.
— Isso com muito gosto.
Minha irmã concordou em receber a mulher do Dr. Belém, que daí a pouco saía da capital para o interior. Sua despedida foi terna e amigável para com ambos nós, a mulher e eu; fomos os dois, e mais minha irmã e meu cunhado acompanhá-lo até certa distancia, e voltamos para casa.
Pude então conversar com D. Marcelina, que me comunicou os seus receios a respeito da razão do marido. Dissuadi-a disso; já disse qual era a minha opinião a respeito do Dr. Belém.
Ela referiu-me então que a narração da morte da mulher já ele lha havia feito, prometendo-lhe igual sorte no caso de faltar aos seus deveres.
— Nem as aparências te salvarão, acrescentou ele.
Disse-me mais que era seu costume beijar repetidas vezes o esqueleto da primeira mulher e dirigir-lhe muitas palavras de ternura e amor. Uma noite, estando a sonhar com ela, levantou-se da cama e foi abraçar o esqueleto pedindo-lhe perdão. Em nossa casa todos eram de opinião que D. Marcelina não voltasse mais para a companhia do Dr. Belém. Eu era de opinião oposta.
— Ele é bom, dizia eu, apesar de tudo; tem extravagâncias, mas é um bom coração. No fim de um mês recebemos uma carta do doutor, em que dizia à mulher fosse ter ao lugar onde ele se achava, e que eu fizesse o favor de a acompanhar. Recusei ir só com ela.
Minha irmã e meu cunhado ofereceram-se porém para acompanhá-la. Fomos todos.
Havia entretanto uma recomendação na carta do doutor, recomendação essencial; ordenava ele à mulher que levasse consigo o esqueleto.
— Que esquisitice nova é essa? disse meu cunhado.
— Há de ver, suspirou melancolicamente D. Marcelina, que o único motivo desta minha viagem, são as saudades que ele tem do esqueleto.
Eu nada disse, mas pensei que assim fosse.
Saímos todos em demanda do lugar onde nos esperava o doutor.
Íamos já perto, quando ele nos apareceu e veio alegremente cumprimentar-nos. Notei que não tinha a ternura de costume com a mulher, antes me pareceu frio. Mas isso foi obra de pouco tempo; daí a uma hora voltara a ser o que sempre fora.
Passamos dois dias na pequena vila em que o doutor estava, dizia ele, para examinar umas plantas, porque também era botânico. Ao fim de dois dias dispúnhamos a voltar para a capital; ele porém pediu que nos demorássemos ainda vinte e quatro horas e voltaríamos todos juntos.
Acedemos.
No dia seguinte de manhã convidou a mulher a ir ver umas lindas parasitas no mato que ficava perto. A mulher estremeceu, mas não ousou recusar.
—Vem também? disse ele.
— Vou, respondi.
A mulher cobrou alma nova e deitou-me um olhar de agradecimento. O doutor sorriu à socapa. Não compreendi logo o motivo do riso; mas daí a pouco tempo tinha a explicação.
Fomos ver as parasitas, ele adiante com a mulher, eu atrás de ambos, e todos três silenciosos.
Não tardou que um riacho aparecesse aos nossos olhos; mas eu mal pude ver o riacho; o que eu vi, o que me fez recuar um passo, foi um esqueleto.
Dei um grito.
— Um esqueleto! exclamou D. Marcelina.
— Descansem, disse o doutor, é o de minha primeira mulher.
— Mas...
— Trouxe-o esta madrugada para aqui.
Nenhum de nós compreendia nada.
O doutor sentou-se numa pedra.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Um esqueleto. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, out.-nov. 1875.