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#Contos#Literatura Brasileira

Um homem superior

Por Machado de Assis (1873)

Machado de Assis foi o maior nome do Realismo brasileiro. Publicado originalmente no Jornal das Famílias em 1873, no Rio de Janeiro, “Um homem superior” retrata a ascensão social de Clemente Soares, personagem movido pela ambição, pelo interesse e pela ingratidão. Com fina ironia, o conto expõe a hipocrisia das relações sociais e antecipa temas centrais da maturidade machadiana.

I

Após uma noite de insônia, saiu Clemente Soares da casa em que morava, à Rua da Misericórdia, e entrou a caminhar à toa pelas ruas da cidade.

Eram quatro horas da manhã.

Os homens do gás começavam a apagar os lampiões, e as ruas, ainda não bem alumiadas pela aurora, que apontava apenas, apresentavam um aspecto lúgubre. Clemente caminhava lento e pensativo. De quando em quando abalroava nele uma quitandeira que se dirigia para as praças do mercado com o cesto ou o tabuleiro à cabeça, acompanhada de um preto que levava outro cesto e a barraca. Clemente parecia despertar dos seus devaneios, mas recaía logo neles até nova interrupção.

À proporção que o céu clareava, abriam-se as portas dos botequins, para fazer concorrência aos vendedores de café ambulantes que desde a meia-noite percorriam a cidade em todos os sentidos. Ao mesmo tempo começavam a passar os trabalhadores dos arsenais atroando as ruas com os seus grossos tamancos. Não poucos entravam nos botequins e aqueciam o estômago.

Os entregadores dos jornais concluíam a sua tarefa com aquela precisão de memória que sempre invejei a esses funcionários da imprensa. As tavernas abriam as suas portas e ornavam os portais com as amostras do uso. Daí a pouco era completamente dia; já a cidade começava a levantar-se toda; numerosas pessoas transitavam a rua; as lojas de todo gênero abriam as suas portas... Era dia.

Clemente Soares não deu fé de toda esta gradual mudança; continuou a andar à toa, até que, cansado, foi ter à Praia de Santa Luzia, e aí ficou a olhar para o mar. Em qualquer outra circunstância é muito provável que Clemente Soares admirasse o quadro que se lhe apresentava ante os olhos. Mas naquela ocasião o pobre rapaz olhava para dentro. Tudo à roda dele lhe era indiferente; um grande pensamento o preocupava. Que pensamento?

Não era novo; era um pensamento quase tão velho como o mundo, um pensamento que só há de acabar quando acabarem os séculos.

Não era bonito; era um pensamento feio, repelente, terrível, capaz de trazer à mais bela alma a mais completa demência, e fazer de um gênio um idiota.

Não era obscuro; era um pensamento claro, evidente, incontestável, diáfano, um pensamento simples, que dispensava toda e qualquer demonstração. Clemente Soares não tinha dinheiro.

Só o muito amor que tenho aos leitores me dispensa de fazer aqui a longa dissertação que este assunto está pedindo. Demais, para alguns deles seria inútil a dissertação. A maior parte dos homens há de ter compreendido, ao menos uma vez na vida, o que é não ter dinheiro. A moça que vê o namorado distraído, o amigo que vê o amigo passar por ele sem lhe tirar o chapéu, antes de fazer qualquer juízo temerário, deve perguntar consigo: estará ele sem dinheiro?

Clemente Soares, pois, estava nessa precária situação. Não tinha dinheiro, nem esperanças de o ter, posto fosse um rapaz engenhoso e cheio de recursos. Não era contudo tão grande a falta que não pudesse almoçar. Introduzindo na algibeira do colete o indicador e o polegar, como quem tira uma pitada, arrancou de lá dois cartões da barca Ferry; e era quanto bastava para um almoço no Carceller.

Desceu pela Rua da Misericórdia, entrou em casa para pesquisar as gavetas a ver se encontrava um charuto esquecido; teve a fortuna de encontrar dois cigarros, e foi almoçar. Duas horas depois estava em casa almoçado e fumado. Tirou de uma velha estante um volume de Balzac e dispôs-se a esperar o jantar.

E de onde viria o jantar?

O jantar não preocupava muito a Clemente Soares. Costumava obter esse elemento da vida na casa comercial de um amigo, aonde não ia almoçar, a fim de não parecer que não tinha com quê. Não se diria o mesmo do jantar, porque o dito amigo lhe dissera uma vez que lhe faria grande obséquio em ir lá jantar todos os dias. Do almoço não disse o mesmo; por isso Clemente Soares não se atrevia a lá ir.

Clemente era orgulhoso.

E não são incompatíveis a necessidade e o orgulho! O desditoso mortal a quem a natureza e a fortuna deram estes dois flagelos, pode dizer que é a mais triste de todas as criaturas.

II

A casa de Clemente Soares não tinha o aspecto miserável que a algibeira do rapaz fazia crer. Via-se que era casa onde já houvera alguma coisa, embora pouca. Era casa de rapaz solteiro, adornada com certo gosto, no tempo em que o dono gozava de sofrível ordenado.

Alguma coisa lhe faltava, mas não era do necessário; senão do supérfluo. Clemente vendera, apenas, alguns livros, dois ou três vasos, uma estatueta, uma charuteira e poucas coisas mais, que não faziam grande falta. E quem o visse ali, estendido no sofá, metido em um chambre, lendo um volume encadernado em Paris, diria que o bom rapaz era um estudante rico, que havia falhado a aula e enchia com alguma distração as horas, até receber uma carta da namorada.

(continua...)

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