Por Gregório de Matos (1696)
Porque não conhecia, o que lograva,
Deixei como ignorante o bem, que tinha,
Vim sem considerar, aonde vinha,
Deixei sem atender, o que deixava.
Suspiro agora em vão, o que gozava,
Quando não me aproveita a pena minha,
Que quem errou, sem ver, o que convinha,
Ou entendia pouco, ou pouco amava.
Padeça agora e morra suspirando
O mal, que passo, o bem, que possuía,
Pague no mal presente o bem passado.
Que quem podia, e não quis, viver gozando,
Confesse, que esta pena merecia,
E morra, quando menos confessado.
COMPARA SUAS PENAS COM AS ESTRELLAS MUYTO SATISFEYTO COM A
NOBREZA DO SIMILE. A PRIMEYRA QUARTA NÃO HE SUA.
Una, dos, trez estrellas, veinte, ciento,
Un millon, mil millares de millares;
Valga-me Dios! que tengan mis pezares
Su retrato en el alto firmamento!
Que siendo las estrellas tan sin cuenta,
Como son las arenas de los mares,
Las iguale en sus numeros impares
Mi pezar, mi desdicha, y mi tormento!
May yo de que me espanto, o que me abismo!
Tenga esse allivio enfim mi desconsuelo,
Que se vá pareciendo al cielo mismo.
Pues podiendo mis males por mas duelo
Semejar-se a las penas del abismo,
Tienen su semejança allá en el cielo.
NO FLUXO E REFLUXO DA MARE ENCONTRA O POETA INSENTIVO PARA
RECORDAR SEUS MALES.
Seis horas enche e outras tantas vaza
A maré pelas margens do Oceano,
E não larga a tarefa um ponto no ano,
Depois que o mar rodeia, o sol abrasa.
Desde a esfera primeira opaca, ou rasa
A Lua com impulso soberano
Engole o mar por um secreto cano,
E quando o mar vomita, o mundo arrasa.
Muda-se o tempo, e suas temperanças.
Até o céu se muda, a terra, os mares,
E tudo está sujeito a mil mudanças.
Só eu, que todo o fim de meus pesares
Eram de algum minguante as esperanças,
Nunca o minguante vi de meus azares.
PONDERA NA CORRENTE ARREBATADA DE HUM CAUDALOSO RIO QUAM
DISTINTO VEM A SER O CURSO DA HUMANA VIDA.
MOTE
Vai-te, mas tornas a vir,
eu vou, e não torno mais,
nascemos mui desiguais,
hemo-nos de dividir:
em ti tudo é repetir,
vazas, e tornas a encher:
em mim tudo é fenecer,
tudo em mim é acabar,
tudo em mim é sepultar,
finalmente hei de morrer.
1
Vai-te refazer ao mar
do cabedal, que hás perdido
pela terra divertido,
e és ditoso em o cobrar:
eu não posso restaurar,
nem tampouco conseguir,
o que de mim fiz fugir,
tudo se tem acabado:
tu, em que vais apressado,
Vai-te, mas tornas a vir.
2
O cansaço, e amargura,
que te custa o teu correr,
tornas logo a converter
em leite, mel e doçura:
eu correndo à sepultura
cada vez me dano mais:
somos muito desiguais
em converter dissabores,
tu te voltas com favores.
Eu vou, e não torno mais.
3
Suposto que sem medida
roubando vás dessa sorte,
nem por isso passas morte,
que dure, ou seja sentida:
eu, enquanto dura a vida,
se cometo absurdos tais,
sem que me valham meus ais,
pago mui pelo miúdo,
o que a morte faz a tudo,
Nascemos mui desiguais.
4
Afogas mil passageiros,
mas tu a ti não te prendes,
antes mais forçoso emprendes
submegir montes, e oiteiros:
eu, se não são verdadeiros
meus passos para a Deus ir,
me encaminho a destruir:
tudo em mim é puro estrago,
diversamente naufrago,
Hemo-nos de dividir.
5
Inda que assim te despenhes,
não vejo não naufragar-te,
antes mais vejo espalhar-te
por campos, vales, e brenhas:
de mim pobre não há senhas,
em chegando a me fundir
não me hei de reproduzir,
antes para meu encanto
fico num contino pranto,
Em ti tudo é repetir.
6
Qualquer tronco, que por si
se vê murcho, ou molestado,
este mui regozijado
se arranca, e vai trás de ti:
eu, se culpas cometi,
tudo é chorar, e gemer,
ninguém me dá seu poder,
ando corrido, e feneço,
e tu, enquanto eu padeço,
Vazas, e tornas a encher.
7
És vandoleiro, e pirata
de ramos, flores, e frutos
teus procederes são brutos,
e a ti ninguém te maltrata:
eu, se falta em mim se trata,
e nela chego a morrer,
tudo em mim é padecer,
peno toda a eternidade,
tu tens outra liberdade,
Em mim tudo é fenecer.
8
Tens mui tiranos efeitos
no furor, com que devoras,
e todos todas as horas
te têm notáveis respeitos:
eu, aguardam-me sujeitos
para me mais estragar,
gusanos para me dar
o pago, que hei merecido,
tu vives obedecido,
Tudo em mim é acabar.
9
Vê, quanto tens destruído,
quanto tens desbaratado,
o que tens morto de gado,
de toda a sorte nascido:
mostra-te disso doído?
não: que não tens que penar,
em mim sim tudo é chorar,
tudo em mim é sentir danos,
tudo em mim são desenganos.
Tudo em mim é sepultar.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Alguns passos discretos e tristes. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.