Por Machado de Assis (1875)
— Doutor, disse eu, creio que o senhor abusa da amizade que lhe tenho para zombar comigo.
— Sim?
— Aproveita-se da opinião de excêntrico para me fazer crer que é o diabo... Ouvindo esta última palavra, o doutor persignou-se todo, e foi a melhor afirmativa que me poderia fazer de que não ambicionava confundir-se com o personagem aludido. Sorriu-se depois benevolamente, tomou uma pitada e disse:
— Ilude-se meu amigo, quando me atribui semelhante idéia, do mesmo modo que se engana quando supõe que Mefistófeles é isso que diz.
— Essa agora!...
— Noutra ocasião lhe direi as minhas razões. Por agora vamos jantar.
— Obrigado. Devo ir jantar com meu cunhado. Mas, se me permite ficarei ainda algum tempo aqui lendo o seu Fausto.
O doutor não pôs objeção; eu era íntimo da casa. Saiu dali para a sala do jantar. Li ainda durante vinte minutos, findos os quais fechei o livro e fui despedir-me do Dr. Belém e sua senhora.
Caminhei por um corredor fora que ia ter à sala do jantar. Ouvia mover os pratos, mas nenhuma palavra soltavam os dois casados.
"O arrufo continua", pensei eu.
Fui andando... Mas qual não foi a minha surpresa ao chegar à porta? O doutor estava de costas, não me podia ver. A mulher tinha os olhos no prato. Entre ele e ela, sentado numa cadeira vi o esqueleto. Estaquei aterrado e trêmulo. Que queria dizer aquilo? Perdia-me em conjeturas; cheguei a dar um passo para falar ao doutor, mas não me atrevi; voltei pelo mesmo caminho, peguei no chapéu, e deitei a correr pela rua fora. Em casa de meu cunhado todos notaram os sinais de temor que eu ainda levava no rosto. Perguntaram-me se havia visto alguma alma do outro mundo. Respondi sorrindo que sim; mas nada contei do que acabava de presenciar.
Durante três dias não fui à casa do doutor. Era medo, não do esqueleto, mas do dono da casa, que se me afigurava ser um homem mau ou um homem doudo. Todavia, ardia por saber a razão da presença do esqueleto na mesa do jantar. D. Marcelina podia dizer-me tudo; mas como indagaria isso dela, se o doutor estava quase sempre em casa?
No terceiro dia apareceu-me em casa o Doutor Belém.
— Três dias! disse ele, há já três dias que eu não tenho a fortuna de o ver. Onde anda? Está mal conosco?
— Tenho andado doente, respondi eu, sem saber o que dizia.
— E não me mandou dizer nada, ingrato! Já não é meu amigo.
A doçura destas palavras dissipou os meus escrúpulos. Era singular como aquele homem, que por certos hábitos, maneiras e idéias, e até pela expressão física, assustava a muita gente e dava azo às fantasias da superstição popular, era singular, repito, como me falava às vezes com uma meiguice incomparável e um tom patriarcalmente benévolo.
Conversamos um pouco e fui obrigado a acompanhá-lo à casa. A mulher ainda me pareceu triste, mas um pouco menos que da putra vez. Ele tratava-a com muita ternura e consideração, e ela se não respondia alegre, ao menos falava com igual meiguice.
CAPÍTULO IV
No Meio da conversa vieram dizer que o jantar estava na mesa.
— Agora há de jantar conosco, disse ele.
— Não posso, balbuciei eu, devo ir...
— Não deve ir a nenhuma parte, atalhou o doutor; parece-me que quer fugir de mim. Marcelina, pede ao Dr. Alberto que jante conosco.
D. Marcelina repetiu o pedido do marido, mas com um ar de constrangimento visível. Ia recusar de novo, mas o doutor teve a precaução de me agarrar no braço e foi impossível recusar.
— Deixe-me ao menos dar o braço a sua senhora, disse eu.
— Pois não.
Dei o braço a D. Marcelina que estremeceu. O doutor passou adiante. Eu inclinei a boca ao ouvido da pobre senhora e disse baixinho:
— Que mistério há?
D. Marcelina estremeceu outra vez e com um sinal impôs-me silêncio. Chegamos à sala de jantar.
Apesar de já ter presenciado a cena do outro dia não pude resistir à impressão que me causou a vista do esqueleto que lá estava na cadeira em que o vira com os braços sobre a mesa.
Era horrível.
— Já lhe apresentei minha primeira mulher, disse o doutor para mim; são conhecidos antigos.
Sentamo-nos à mesa; o esqueleto ficou entre ele e D. Marcelina; eu fiquei ao lado desta. Até então não pude dizer palavra; era porém natural que exprimisse o meu espanto.
— Doutor, disse eu, respeito os seus hábitos; mas não me dará a explicação deste?
— Este qual? disse ele.
Com um gesto indiquei-lhe o esqueleto.
— Ah!... respondeu o doutor; um hábito natural; janto com minhas duas mulheres.
— Confesse ao menos que é um uso original.
— Queria que eu copiasse os outros?
— Não, mas a piedade com os mortos...
(continua...)
ASSIS, Machado de. Um esqueleto. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, out.-nov. 1875.