Por Gregório de Matos (1696)
A HUMA DAMA, QUE SE RECATAVA DE PAGAR FINEZAS.
1
Filena: eu que mal vos fiz,
que sempre a matar-me andais,
uma vez, quando me olhais,
outra quando me fugis:
vi-vos, e logo vos quis
tão inseparavelmente,
que nem a vista ao presente
ao menos sabe dizer-me,
entre ver-vos, e render-me
qual foi primeiro acidente.
2
Vós sois tão esquiva, e tal,
que outras cousas não sabendo,
da vossa esquivança entendo,
que o meu amor me fez mal:
não cabe em meu natural
fugir, de quem me maltrata,
e se me sai tão barata
a vingança de querer-vos,
quero amar-vos, e sofrer-vos,
porque fiqueis mais ingrata.
3
Não sinto esta pena atroz,
que me fazeis padecer,
antes folgo de morrer,
vendo, que morro por vós:
e se com passo veloz
vejo a morte já chegar,
não sinto ver-me acabar,
sinto a glória, que vos cresce,
que uma ingrata não merece
a glória de me matar.
4
Vivam vossas esquivanças,
e vossa crueldade viva,
que a sem-razão de uma esquiva
acredita as esperanças:
tudo tem certas mudanças,
também se muda o rigor,
e se Amor me dá valor
para sofrer-vos, e amar-vos,
claro está, que hão de mudar-vos
firmezas do meu amor.
A HUMAS SAUDADES.
1
Pelo mar do meu tormento,
em que padecer me vejo,
já que amante me desejo
navegue meu pensamento:
meus suspiros formem vento,
com que me faças ir ter,
onde me desejo ver,
e diga minha alma assi,
Parti, coração parti,
navegai sem vos deter.
2
Ide donde meu amor
apesar desta distância
nem há perdido a constância,
nem há admitido rigor:
antes mais superior
assim se quer exceder,
porém se desfalecer
em tantas adversidades
Ide-vos minhas saudades
a meu amor socorrer.
NASCE A ROSA, E NASCE A FLOR.
MOTE
Para que nasceste, rosa,
se tão depressa acabaste,
nasces na manhã triunfante,
morres despojo de tarde.
1
Nasce a rosa, e nasce a flor
de tanta cor matizada,
quando se vê desmaiada
triste sem vida, e sem cor:
tudo quanto no candor
se ostentava majestosa,
então menos venturosa
perde toda a louçania,
e para brilhar um dia
Para que nasceste Rosa?
2
Se por nascer tão subida
perde a rosa a perfeição,
enquanto a rosa em botão
mais se lhe dilata a vida:
nessa pompa já perdida,
com que, rosa, te enfeitaste,
vendo o pouco que duraste,
da vida foste um nonada,
nem foste rosa, nem nada,
Se tão depressa acabaste.
3
Se na manhã encarnada
te julgas perfeita rosa,
olha o lustre de formosa
como o perdes desmaiada:
quem te viu na madrugada
entre as mais flores reinante,
que na tarde não se espante,
quando murcha assim te vê!
dize, rosa, para que
Nasces de manhã triunfante.
4
Se como rosa nasceste
com tão galhardo valor,
como rosa, e como flor
a pompa, e garbo perdeste:
se tanto te engrandeceste,
como te mostras cobarde,
pois quando fazendo alarde
de te ver tão majestosa,
por ver-te na manhã rosa,
Morres despojo de tarde.
ENFADA-SE O POETA DO ESCASSO PROCEDER DE SUA SORTE.
Oh que cansado trago o sofrimento,
E que injusta pensão de humana vida,
Que dando-me o tormento sem medida,
Me encurta o desafogo de um contento!
Nasceu para oficina do tormento
Minha alma a seus desgostos tão unida,
Que por manter-se em posse de afligida,
Me concede os pesares de alimento.
Em mim não são as lágrimas bastantes
contra incêndios, que ardentes, me maltratam,
Nem estes contra aqueles são possantes.
Contrários contra mim em paz se tratam,
E estão em ódio meu tão conspirantes,
Que só por me matarem, não me matam.
ZELOSO, E TRISTE CONSULTA O POETA A SOLEDADE DOS MONTES PARA SEU
DESAFÔGO.
Montes, eu venho a buscar-vos
para contar-vos meu mal,
inda que o vosso silêncio
interrompa com meus ais.
Já sabeis, que adora à Menga,
a quem para sujeitar
frágil corrente é meu pranto
desatado em seu cristal.
Já vos referi mil vezes,
como Menga com Pascoal,
em cima de me dar zelos,
zelos me obriga a aceitar.
Se o remédio é não tomá-los,
dá-me Menga em se queixar,
de que sou Pastor grosseiro,
pois não tomo, o que me dá.
QUEYXA-SE DE QUE NUNCA FALTEM PENAS PARA A VIDA, FALTANDO A VIDA
PARA AS MESMAS PENAS.
Em o horror desta muda soledade,
Onde voando os ares a porfia
Apenas solta a luz a aurora fria,
Quando a prende da noite a escuridade.
Ah cruel apreensão de uma saudade,
De uma falsa esperança fantasia,
Que faz que de um momento passe o dia,
E que de um dia passe à eternidade!
(continua...)
MATOS, Gregório de. Alguns passos discretos e tristes. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.