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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Niani

Por Machado de Assis (1875)

E à porta vai apear.

Traz o rosto carregado,

Como a noite sem luar.

Chega-se à pobre da moça

E assim começa a falar:

“— Guaicuru doe-lhe no peito

tristeza de envergonhar.

Esposo que te há fugido

Hoje se vai casar;

Noiva não é de alto sangue,

Porém de sangue vulgar.”

Ergue-se a moça de um pulo,

Arrebatada, e no olhar

Rebenta-lhe uma faísca

Como de luz a expirar.

Menino escravo que tinha

Acerta de ali passar;

Niani atentando nele

Chama-o para o seu lugar.

“— Cativo és tu: serás livre,

Mas vais o nome trocar;

Nome avesso te puseram...

Panenioxe hás de ficar.”

Pela face cobreada

Desce, desce com vagar

Uma lágrima: era a última

Que lhe restava chorar.

Longo tempo ali ficara,

Sem se mover nem falar;

Os que a vêem naquela mágoa

Nem ousam de a consolar.

Depois um longo suspiro,

E ia a moça a expirar...

O sol de todo morria

E enegrecia-se o ar.

Pintam-na de vivas cores,

E lhe lançam um colar;15

Em fina esteira de junco

Logo a vão amortalhar.

O triste pai suspirando

Nos braços a vai tomar,

Deita-a sobre o seu cavalo

E a leva para enterrar.

Na terra em que dorme agora

Justo lhe era descansar,

Que pagou fora da vida

Com muito e muito penar.

Que assim se morre de amores

Aonde habita o jaguar,

Como as princesas morriam

Pelas terras de além-mar.

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