Niani MACHADO DE ASSIS (1875) Machado de Assis (1839–1908) compõe, em Niâni (ou Niani), um poema de inspiração indígena que explora o amor, o conflito e a idealização do mundo nativo. Integrante do livro Americanas, a obra dialoga com o indianismo do século XIX, reelaborado com contenção lírica e atenção psicológica, marcas do estilo machadiano. ......que piagne Vedova, sola. DANTE, Purgat. VI. (HISTÓRIA GUAICURU)  Desde então cobriu-se Nanine de uma mortal melancolia, sendo seus olhos sempre chorosos. Assim se passaram três meses, quando um dia, estando deitada na sua rústica cama, lhe deram a notícia que seu desleal marido se tinha casado com uma rapariga de menor esfera. Senta-se então Nanine na cama, como  arrebatada, chama para junto de si um pequeno índio que era seu cativo, e diz-lhe  na presença de vários antecris: “És meu cativo; dou-te a liberdade, com a  condição de que te chamarás toda* a vida Panenioxe.” Então seus olhos deixaram  correr dilúvios de lágrimas pelas suas tristes faces, que ela de envergonhada quis ocultar, mas o amor ofendido não o permitia. Parece que esta violenta contenda de duas poderosas paixões lhe motivou uma febre ardente, com a qual ao outro dia perdeu a vida. F. RODRIGUES PRADO, Hist. dos Índios Cavaleiros.  IContam-se histórias antigasPelas terras de além-mar,De moças e de princesas,Que amor fazia matar.Mas amor que entranha n’almaE a vida soe acabar,Amor é de todo o clima,Bem como a luz, como o ar.Morrem dele nas florestasAonde habita o jaguar,Nas margens dos grandes riosQue levam troncos ao mar.Agora direi um casoDe muito penalizar,Tão triste como os que contamPelas terras de além-mar.IICabana que esteira cobreDe junco trançado a mão,Que agitação vai por ela!Que ledas horas lhe vão!Panenioxe é guerreiroDa velha, dura nação,Caiavaba há já sentidoA sua lança e facão.Vem de longe, chega à portaDo afamado capitão;Deixa a lança e o cavalo,Entra com seu coração.A noiva que ele lhe guardaMoça é de nobre feição,Airosa como ágil corçaQue corre pelo sertão.Amores eram nascidosNaquela tenra estação,Em que a flor que há de ser florInda se fecha em botão.Muitos agora lhe querem,E muitos que fortes são;Niani ao melhor delesNão dera o seu coração.Casá-los agora, é tempo;Casá-los, nobre ancião!Limpo sangue tem o noivo,Que é filho de capitão.III“— Traze a minha lança, escravo,Que tanto peito abateu;Traze aqui o meu cavaloQue largos campos correu.”“— Lança tens e tens cavaloQue meu velho pai te deu;Mas aonde te vais agoraOnde vais*, esposo meu?”“— Vou-me à caça, junto à covaOnde a onça se meteu...”“ — Montada no meu cavaloVou contido, esposo meu.”“— Vou-me às ribas do Escopil,Que a minha lança varreu...”“— Irei pelejar na guerra,A teu lado, esposo meu.”“— Fica-te aí na cabanaOnde o meu amor nasceu.”“— Melhor não haver nascidoSe já de todo morreu.”E uma lágrima — a primeiraDe muitas que ela verteu —Pela face cobreadaLenta, lenta lhe correu.Enxugá-la, não a enxugaO esposo que já perdeu,Que ele no chão fita os olhos,Como que a voz lhe morreu.Traz o escravo o seu cavaloQue o velho sogro lhe deu;Traz-lhe mais a sua lançaQue tanto peito abateu.Então, recobrando a alma,Que o remorso esmoreceu,Com esta dura palavraÀ esposa lhe respondeu:“— A bocaiúva três vezesNo tronco amadureceu,Desde o dia em que o guerreiroSua esposa recebeu.”Três vezes! Amor sobejoNossa vida toda encheu.Fastio me entrou no seio,Fastio que me perdeu.”E pulando no cavalo,Sumiu-se... despareceu...Pobre moça sem marido,Chora o amor que lhe morreu!IVLeva o Paraguai as águas,Leva-as no mesmo correr,E as aves descem ao campoComo usavam de descer.Tenras flores, que outro tempoCostumavam de nascer,Nascem; vivem de igual vida;Morrem do mesmo morrer.Niani, pobre viúva,Viúva sem bem o ser,Tanta lágrima choradaJá te não pode valer.Olhos que amor desmaiaraDe um desmaiar que é viver,O choro empana-os agora,Como que vão fenecer.Corpo que fora robustoNo seu cavalo a correr,De contínua dor quebradoMal se pode já suster.Colar de prata não usa,Como usava de trazer;Pulseiras de finas contasTodas as veio a romper.Que ela, se nada há mudadoDaquele eterno viver,Com que a natureza sabeRenascer, permanecer.Toda é outra; a alma lhe morre,Mas de um contínuo morrer,E não há mágoa mais tristeDe quantas podem doer.Os que outrora a desejavam,Antes dela mal haver,Vendo que chora e padece,Rindo, se põem a dizer:“— Remador vai na canoa,Canoa vai a descer...Piranha espiou do fundoPiranha, que o vai comer.Ninguém se fie da brasaQue os olhos vêem arder,Sereno que cai de noiteHá de fazê-la morrer.Panenioxe, Panenioxe,Não lhe sabias querer.Quem te pagara esse golpeQue lhe vieste fazer!”VUm dia — era sobre tarde,Ia-se o sol a afundar;Calumbi cerrava as folhasPara melhor as guardar.Vem cavaleiro de longeE à porta vai apear.Traz o rosto carregado,Como a noite sem luar.Chega-se à pobre da moçaE assim começa a falar:“— Guaicuru doe-lhe no peitotristeza de envergonhar.Esposo que te há fugidoHoje se vai casar;Noiva não é de alto sangue,Porém de sangue vulgar.”Ergue-se a moça de um pulo,Arrebatada, e no olharRebenta-lhe uma faíscaComo de luz a expirar.Menino escravo que tinhaAcerta de ali passar;Niani atentando neleChama-o para o seu lugar.“— Cativo és tu: serás livre,Mas vais o nome trocar;Nome avesso te puseram...Panenioxe hás de ficar.”Pela face cobreadaDesce, desce com vagarUma lágrima: era a últimaQue lhe restava chorar.Longo tempo ali ficara,Sem se mover nem falar;Os que a vêem naquela mágoaNem ousam de a consolar.Depois um longo suspiro,E ia a moça a expirar...O sol de todo morriaE enegrecia-se o ar.Pintam-na de vivas cores,E lhe lançam um colar;15Em fina esteira de juncoLogo a vão amortalhar.O triste pai suspirandoNos braços a vai tomar,Deita-a sobre o seu cavaloE a leva para enterrar.Na terra em que dorme agoraJusto lhe era descansar,Que pagou fora da vidaCom muito e muito penar.Que assim se morre de amoresAonde habita o jaguar,Como as princesas morriamPelas terras de além-mar.