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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Potira

Por Machado de Assis (1875)

Machado de Assis (1839–1908) constrói um poema narrativo de tema indígena, centrado no conflito entre cultura nativa e colonização. A obra valoriza a dignidade trágica da personagem feminina e revela o interesse do autor pelo indianismo crítico, afastado da idealização romântica.

Se, poi ch’a morte il corpo le percosse,
Desse almen vita alla memoria d’ella.  

ARIOSTO, Orl. Fur., c. XXIX, est. XXXI  


...Os Tamoios, entre outras presas que fizeram, levaram esta índia, a qual pretendeu o capitão da empresa violar: resistiu valorosamente dizendo em língua brasílica: “Eu sou cristã e casada; não hei de fazer traição a Deus e a meu marido; bem podes matar-me e fazer de mim o que quiserdes.” Deu-se por afrontado o bárbaro, e em vingança lhe acabou a vida com grande crueldade.

Vasc. Chr. da Companhia de Jesus, liv 3º

I

Moça cristã das solidões antigas,

Em que áurea folha reviveu teu nome?

Nem o eco das matas seculares,

Nem a voz das sonoras cachoeiras,

O transmitiu aos séculos futuros.

Assim da tarde estiva às auras frouxas

Tênue fumo do colmo no ar se perde;

Nem de outra sorte em moribundos lábios

A humana voz expira. O horror e o sangue

Da miseranda cena em que, de envolta

Co’os longos, magoadíssimos suspiros,

Cristã Lucrécia, abriu tua alma o vôo

Para subir às regiões celestes,

Mal deixada memória aos homens lembra.

Isso apenas; não mais; teu nome obscuro,

Nem tua campa o brasileiro os sabe.

II

Já da férvida luta os ais e os gritos

Extintos eram. Nos baixéis ligeiros

Os tamoios incólumes embarcam;

Ferem co’os remos as serenas ondas

Até surgirem na remota aldeia.

Atrás ficava, lutuosa e triste,

A nascente cidade brasileira,

Do inopinado assalto espavorida,

Ao céu mandando em coro inúteis vozes.

Vinha já perto rareando a noite,

Alva aurora, que à vida acorda as selvas,

Quando a aldeia surgiu aos olhos torvos

Da expedição noturna. À praia saltam

Os vencedores em tropel; transportam

Às cabanas despojos e vencidos,

E, da vigília fatigados, buscam

Na curva leve rede amigo sono,

Exceto o chefe. Oh! esse não dormira

Longas noites, se a troco da vitória

Precisas fossem. Traz consigo o prêmio,

O desejado prêmio. Desmaiada

Conduz nos braços trêmulos a moça

Que renegou Tupã, e as velhas crenças

Lavou nas águas do batismo santo.

Na rede ornada de amarelas penas

Brandamente a depõe. Leve tecido

Da cativa gentil as formas cobre;

Veste-as de mais a sombra do crepúsculo,

Sombra que a tíbia luz da alva nascente

De todo não rompeu. Inquieto sangue

Nas veias ferve do índio. Os olhos luzem

De concentrada raiva triunfante.

Amor talvez lhes lança um leve toque

De ternura, ou já sôfrego desejo;

Amor, como ele, aspérrimo e selvagem,

Que outro não sente o herói.

III

Herói lhe chamam

Quantos o hão visto no fervor da guerra

Medo e morte espalhar entre os contrários

E avantajar-se nos certeiros golpes

Aos mais fortes da tribo. O arco e a flecha

Desde a infância os meneia ousado e afoito;

Cedo aprendeu nas solitárias brenhas

A pleitear às feras o caminho.

A força opõe à força, a astúcia à astúcia.

Qual se da onça e da serpente houvera

Colhido as armas. Traz ao colo os dentes

Dos contrários vencidos. Nem dos anos

O número supera o das vitórias;

Tem no espaçoso rosto a flor da vida,

A juventude, e goza entre os mais belos

De real primazia. A cinta e a fronte

Azuis, vermelhas plumas alardeiam,

Ingênuas galas do gentio inculto.

IV

Da cativa gentil cerrados olhos

Não se entreabrem à luz. Morta parece.

Uma só contração lhe não perturba

A paz serena do mimoso rosto.

Junto dela, cruzados sobre o peito

Os braços, Anagê contempla e espera;

Sôfrego espera, enquanto idéias negras

Estão a revoar-lhe em torno e a encher-lhe

A mente de projetos tenebrosos.

Tal no cimo do velho Corcovado

Próxima tempestade engloba as nuvens.

Súbito ao seio túrgido e macio

Ansiosas mãos estende; inda palpita

O coração, com desusada força,

Como se a vida toda ali buscasse

Refúgio certo e último. Impetuoso

O vestido cristão lhe despedaça,

E à luz já viva da manhã recente

Contempla as nuas formas. Era acaso

A síncope chegada ao termo próprio,

Ou, no pejo ofendida, às mãos entranhas

A desmaiada moça despertara.

Potira acorda, os olhos lança em torno,

Fita, vê, compreende, e inquieta busca

Fugir do vencedor às mãos e ao crime...

Mísera! opõe-se-lhe o irritado gesto

Do aspérrimo guerreiro; um ai lhe sobe

Angustioso e triste aos lábios trêmulos,

Sobe, murmura e sufocado expira.

Na rede envolve o corpo, e, desviando

Do terrível tamoio os lindos olhos,

Entrecortada prece aos céus envia,

E as faces banha de serenas lágrimas.

V

Longo tempo correra. Amplo silêncio

Reinou entre ambos. Do tamoio a fronte

Pouco a pouco despira o torvo aspecto.

Ao trabalhado espírito, revolto

De mil sinistros pensamentos, volve

Benigna calma. Tal de um rio engrossa

O volume extensíssimo das águas

(continua...)

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