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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

A cristã-nova

Por Machado de Assis (1875)

Nela e no velho fita Nuno os olhos,

E agitado pergunta: “Qual ousado

Braço lhe ameaça a vida?” Cavernosa

Uma voz lhe responde: “O santo ofício!”

Volve o mancebo o rosto

E o merencório aspecto

De dois familiares todo o sangue

Nas veias lhe gelou.

XV

Solene o velho

Com a voz, não frouxa, mas pausada, fala:

“— Vês? Todo o brio, todo o amor no peito

Te emudeceu. Só lastimar-me podes,

Salvar-me, nunca. O cárcere me aguarda,

E a fogueira talvez; cumpri-la, é tempo,

A vontade de Deus. Tu, pai e esposo

Da desvalida filha que aí deixo,

Nuno, serás. A relembrar com ela

Meu pobre nome, aplacareis a imensa

Cólera do Senhor...” Sorrindo irônico,

Estas palavras últimas lhe caem

Dos lábios tristes. Ergue-se: “Partamos!

Adeus! Negou-me Aquele que no campo

Deixa a árvore anciã perder as folhas

No mesmo ponto em que as nutriu viçosas,

Negou-me ver por estas longas serras

Ir-se-me o último sol. Brando regaço

A filial piedade me daria

Em que eu dormisse o derradeiro sono,

E em braços de meu sangue transportado

Fora em horas de paz e de silêncio

Levado ao leito extremo e eterno. Vive

Ao menos tu...”

XVI

Um familiar lhe corta

O adeus último: “Vamos: é já tempo!”

Resignado o infeliz, ao seio aperta

A filha, e todo o coração num beijo

Lhe transmitiu, e a caminhar começa.

Ângela os lindos braços sobre os ombros

Trava do austero pai; flores disséreis

De parasita, que enroscou seus ramos

Pelo cansado tronco, estéril, seco

De árvore antiga: “Nunca! Hão de primeiro

A alma arrancar-me! Ou se heis pecado, e a morte

Pena há de ser da cometida culpa,

Convosco descerei à campa fria,

Juntos a mergulhar na eternidade.

Israel tem vertido

Uma mar de sangue. Embora! à tona dele

Verdeja a nossa fé20, a fé que anima

O eleito povo, flor suave e bela

Que o medo não desfolha, nem já seca

Ao vento mau da cólera dos homens!”

XVII

Trêmula a voz do peito lhe saía.

Das mãos lhe trava um dos algozes. Ela

Entrega-se risonha,

Como se o cálix da amargura extrema

Pelos meles da vida lhe trocassem

Celeste e eterna. O coração do moço

Latejava de espanto e susto. Os olhos

Pousa na filha o desvairado velho.

Que ouviu? — Atenta nela; o lindo rosto

O céu não busca jubiloso e livre,

Antes, como travado de agra pena,

Pende-lhe agora ao chão. Dizia acaso

Entre si mesma uma oração, e o nome

De Jesus repetia, mas tão baixo,

Que o coração do pai mal pôde ouvir-lho.

Mas ouviu-lho; e tão forte amor, tamanho

Sacrifício da vida a alma lhe rasga

E deslumbra. Escoou-se um breve tempo

De silêncio; ele e ela, os triste noivos,

Como se a eterna noite os recebera,

Gelados eram; levantar não ousam

Um para o outro os arrasados olhos

De mal contidas e teimosas lágrimas.

XVIII

Nuno enfim, lentamente e a custo arranca

Do coração estas palavras: “Fora

Misericórdia ao menos confessá-lo

Quando ao fogo do bárbaro inimigo

Me era fácil deixar o derradeiro

Sopro da vida. Prêmio é este acaso

De tamanho lidar? Que mal te hei feito,

Porque me dês tão bárbara e medonha

Morte, como esta, em que o cadáver guarda

Inteiro o pensamento, inteiro o aspecto

Da vida que fugiu?” Ângela os olhos

Magoados ergue; arfa-lhe o peito aflito,

Como o dorso da vaga que intumesce

A asa da tempestade. “Adeus!” suspira

E a fronte abriga no paterno seio.

XIX

O rebelde ancião, domado entanto,

Afracar-se-lhe sente dentro d’alma

O sentimento velho que bebera

Com o leite dos seus; e sem que o lábio

Transmita a ouvidos de homem

O duvidar do coração, murmura

Dentro de si: “Tão poderosa é essa

Ingênua fé, que inda negando o nome

Do seu Deus, confiada aceita a morte,

E guarda puro o sentimento interno

Com que o véu rasgará da eternidade?

Ó Nazareno, ó filho do mistério,

Se é tua lei a única da vida

Escreve-ma no peito; e dá que eu veja

Morrer comigo a filha de meus olhos

E unidos irmos, pela porta imensa

Do teu perdão, à eternidade tua!”

XX

Mergulhara de todo o sol no ocaso,

E a noite, clara, deliciosa e bela,

A cidade cobriu — não sossegada,

Como costuma — porém leda e viva,

Cheia de luz, de cantos e rumores,

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