A cristã-nova MACHADO DE ASSIS (1875) Machado de Assis (1839–1908) aborda, em “A Cristã-Nova”, o drama da intolerância religiosa e da perseguição inquisitorial, centrado na figura da mulher judia convertida. Integrante do livro Americanas, o poema alia temática histórica a um tom lírico-trágico, revelando sensibilidade ética e crítica social já presentes na poesia inicial do autor. ...essa mesma foi levada cativa para uma terra estranha.    NAHUM, cap. III, v. 10   PARTE IIOlhos fitos no céu, sentado à porta, O velho pai estava. Um luar frouxo Vinha beijar-lhe a veneranda barba Alva e longa, que o peito lhe cobria,Como a névoa na encosta da montanha Ao destoucar da aurora. Alta ia a noite, E silenciosa: a praia era deserta, Ouvia-se o bater pausado e longo Da sonolenta vaga — único e triste Som que a mudez quebrava à natureza.IIAssim talvez nas solidões sombrias Da velha Palestina Um profeta no espírito volveraAs desgraças da pátria. Quão remota Aquela de seus pais sagrada terra, Quão diferente desta em que há vivido Os seus dias melhores! Vago e doce, Este luar não alumia os serrosEstéreis, nem as últimas ruínas,Nem as ermas planícies, nem aquele Morno silêncio da região que fora E que a história de todo amortalhara. Ó torrentes antigas! águas santasDe Cédron! Já talvez o sol que passa,E vê nascer e vê morrer as flores, Todas no leito vos secou,16 enquanto Estas murmuram plácidas e cheias, E vão contando às deleitosas praias Esperanças futuras. Longo e longo O devolver dos séculos Será, primeiro que a memória do homem Teça a mortalha fria Da região que inda tinge o albor da aurora.IIITalvez, talvez no espírito fechadoDo ancião vagueavam lentamenteEstas idéias tristes. Junto à praia Era a austera mansão, donde se via Desenrolarem-se as serenas vagas Do nosso golfo azul. Não a enfeitavam As galas da opulência, nem os olhosEntristecia co’o medonho aspectoDa miséria; não pródiga nem surdaA fortuna lhe fora, mas aquelaMediana sóbria, que os desejosContenta do filósofo, lhe haviaDourado os tetos. Guanabara aindaNão era a flor abertaDa nossa idade, era botão apenas,Que rompia do hastil, nascido à beiraDe suas ondas mansas. Simple e rude,Ia brotando a juvenil cidade,Nestas incultas terras, que a lembrançaRecordava talvez do antigo povo,E o guau alegre, e as ríspidas pelejas,Toda essa vida que morreu.IVSentadaAos pés do velho estava a amada filha,Bela como a açucena dos Cantares,Como a rosa dos campos. A cabeçaNos joelhos do pai reclina a moça,E deixa resvalar o pensamentoRio abaixo das longas esperançasE namorados sonhos. Negros olhosPor entre os mal fechadosCílios estende à serra que recortaAo longe o céu. Morena é a face lindaE levemente pálida. Mais bela,Nem mais suave era a formosa RuthAnte o rico Boaz, do que essa virgem,Flor que Israel brotou do antigo tronco,Corada ao sol da juvenil América.VMudos viam correr aquelas horasDa noite, os dois: ele voltando o rostoAo passado, ela os olhos ao futuro.Cansam-lhe enfim ao pensamento as asasDe ir voando, através da espessa treva,Frouxas as colhe, e desce ao campo exíguoDa realidade. A delicada virgemPrimeiro volve a si; os lindos dedosCorre-lhe ao longo da nevada barba,E — “Pai amigo, que pensar vos levaTão longe a alma?” Estemecendo o velho:— “Curiosa! — lhe disse —, o pensamentoE como as aves passageiras: voaA buscar melhor clima. — Oposto rumoIas tu, alma em flor, aberta apenas,Tão longe ainda do calor da sesta,Tão remota da noite... Uma esperançaTe sorria talvez? Talvez, quem sabe,Uns namorados olhos que me roubem,Que te levem... Não córes*, filha minha!Esquecimento, não; lembrança ao menosFicar-te-á do paterno afeto; e um dia,Quando eu na terra descansar meus ossos,Haverás doce bálsamo no seioDa afeição juvenil... Sim; não te acuso;Ama: é a lei da natureza, eterna!Ama: um homem será da nossa raça...”VIEstas palavras tais ouvindo a moça,Turbada os olhos descaiu na terra,E algum tempo ficou calada e triste,Como no azul do céu o astro da noite,Se uma nuvem lhe empana a meio a face.Súbito a voz e o rosto alevantando,Com dissimulação — pecado embora,Mas inocente: — “Olhai, a noite é linda!O vento encrespa molemente as ondas,E o céu é todo azul e todo estrelas!Formosa, oh! quão formosa a terra minha!Dizei: além desses compridos serros,Além daquele mar, à orla de outros,Outras como esta vivem?”VIIFresca e puraEra-lhe a voz, voz d’alma que sabiaEntrar no coração paterno. A fronteInclina o velho sobre o rosto amadoDe Ângela. — Na cabeça ósculo santoImprime à filha; e suspirando, os olhosMelancolicamente ao ar levanta,Desce-os e assim murmura:“Vaso é digno de ti, lírio dos vales,Terra solene e bela. A naturezaAqui pomposa, compassiva e grande,No regaço recebe a alma que choraE o coração que túmido suspira.Contudo, a sombra pesarosa e erranteDo povo que acabou pranteia aindaAo longo das areias,Onde o mar bate, ou no cerrado bosqueInda povoado das relíquias suas,Que o nome de Tupã confessar podemNo próprio templo augusto. Última e forteConsolação é esta do vencidoQue viu tudo perder-se no passado,E único salva do naufrágio imensoO seu Deus. Pátria não. Uma há na terraQue eu nunca vi... Hoje é ruína tudo,E viuvez e morte. Um tempo, entanto,Bela e forte ela foi; mas longe, longeOs dias vão de fortaleza e glóriaEscoados de todo como as águasQue não volvem jamais. Óleo que a unge,Finas telas que a vestem, ataviosDe ouro e prata que o colo e os braços lhe ornam,E a flor de trigo e mel de que se nutre,Sonhos, são sonhos do profeta. É mortaJerusalém! Oh! quem lhe dera os diasDa passada grandeza, quando a plantaDa senhora das gentes sobre o peitoPousava dos vencidos, quando o nomeDo que há salvo Israel, Moisés...”“— Não! Cristo,Filho de Deus! Só ele há salvo os homens!”Isto dizendo, a delicada virgemAs mãos postas ergueu. Uma palavraNão disse mais; no coração, entanto,Murmurava uma prece silenciosa,Ardente e viva, como a fé que a animaOu como a luz da alâmpadaA que não faltou óleo.VIIITaciturnoEsteve longo tempo o ancião. AquelaAlma infeliz nem toda era de CristoNem toda de Moisés; ouvia atentoA palavra da Lei, como nos diasDo eleito povo; mas a doce notaDo Evangelho não raro lhe batiaNo alvoroçado peitoSoleníssima e pura... DescambavaNo entanto a lua. A noite era mais linda,E mais augusta a solidão. Na alcovaEntre a pálida moça. Da paredeUm Cristo pende; ela os joelhos dobraOs dedos cruza e reza — não serena,Nem alegre também, como costuma,Mas a tremer-lhe nos formosos olhosUma lágrima.IXA lâmpada acendidaSobre a mesa do velho, as largas folhasAlumia de um livro. O máximo eraDos livros todos. A escolhida laudaEra a do canto dos cativos que iamPela ribas do Eufrates, relembrandoAs desgraças da pátria. A sós, com eles,Suspira o velho aquele salmo antigo:Junto os rios da terra amaldiçoadaDe Babilônia, um dia nos sentamos,Com saudades de Sião amada.As harpas nos salgueiros penduramos,E ao relembrarmos os extintos diasAs lágrimas dos olhos desatamos.Os que nos davam cruas agoniasDe cativeiro, ali nos perguntavamPelas nossas antigas harmonias.E dizíamos nós aos que falavam:Como em terra de exílio amargo e duroCantar os hinos que ao Senhor louvavam?...Jerusalém, se inda num sol futuro,Eu desviar de ti meu pensamentoE teu nome entregar a olvido escuro,A minha destra a frio esquecimentoVotada seja; apegue-se à gargantaEsta língua infiel, se um só momentoMe não lembrar de ti, se a grande e santaJerusalém não for minha alegriaMelhor no meio de miséria tanta.Oh! lembra-lhes, Senhor, aquele diaDa abatida Sião, lembra-lhos aos durosFilhos de Edom, e à voz que ali dizia:*Arruinai-a, arruinai-a; os murosArrasemo-los todos; só lhe basteUm montão de destroços mal-seguros.Filha de Babilônia, que pecaste,Abençoado o que se houver contigoCom a mesma opressão que nos mostraste!Abençoado o bárbaro inimigoQue os tenros filhos teus às mãos tomando,Os for, por teu justíssimo castigo,Contra um duro penedo esmigalhando! PARTE IIIEra naquela doce e amável horaEm que vem branqueando a alva celeste,Quando parece que remoça a vidaE toda se espreguiça a natureza.Alva neblina que espalhara a noiteFrouxamente nos ares se dissolve,Como de uns olhos tristesFoge co’o tempo a já ligeira sombraDe consoladas mágoas. Vida é tudo,E pompa e graça natural da terra,Mas que não seja no ermo,Onde seus olhos rútilos espraiaLivres a aurora, sem tocar vestígiosDe obras caducas do homem, onde as águasDo rio bebe a fugitiva corça,Vivo aroma nos ares se difunde,E aves, e aves de infinitas coresVoando vão e revoando tornam,Inda senhoras da amplidão que é sua,Donde as há de fugir o homem um diaQuando a agreste soidão entrar o passoCriador que derruba. Já de todoNado era o sol; e à viva luz que inundaEstes meus pátrios morros e estas praias,Sorrindo a terra moçaNoiva parece que o virgíneo seioEntrega ao beijo nupcial do amado.E há de os fúnebres véus lançar a morteNa verdura do campo? A naturezaA nota vibrará da extrema angústiaNeste festivo cântico de graçasAo sol que nasce, ao Criador que o envia,Como renovação de juventude?IICoava o sol pela miúda e finaGelosia da alcova em que se aprestaA recente cristã. Singelas roupasTraja da ingênua cor que a naturezaPintou nas plumas que primeiro brotaO seu pátrio guará. Vínculo frouxoMal lhe segura a luzidia trança,Como ao desdém lançadaSobre a espádua gentil. Jóia nenhuma,Mais que seus olhos meigos, e essa doceModéstia natural, encanto, enlevo,Casta flor que aborrece os mimos do horto,E ama livre nascer no campo, à larga,Rústica, mas formosa. Não lhe ensombramAs tristezas da véspera o semblante,Nem da secreta lágrima na faceFicou vestígio. — Descuidosa e alegre,Ri-se, murmura uma cantiga, ou pensa,E repete baixinho um nome... Oh! se eleEspreitá-la pudesse ali risonha,A sós consigo, entre o seu Cristo e as floresColhidas ao tombar da extinta noite,E vicejantes inda!IIIDe repente,Aos ouvidos da moça enamoradaChega um surdo rumor de soltas vozes,Que ora crescendo vai, ora se apaga,Estranho, desusado. Eram... São eles,Os franceses, que vêm de longes praiasA cobiçar a pérola mimosa,Niterói, na alva-azul concha nascidaDe suas águas recatadas. RegeO atrevido Duclerc a flor dos nobres,Cuja tez branca requeimara o fogoQue o vivo sol dos trópicos dardeja,E as lufadas dos ventos do oceano.Cobiçam-te eles, minha terra amada,Como quando nas faixas sempre-verdesEras envolta; e rude, inda que belo,O aspecto havias que poliu mais tardeA clara mão do tempo. Inda repetemOs ecos do recôncavo os suspirosDos que vieram a buscar a morte,E a receberam dos varões possantesCompanheiros de Estácio. A todos eles,Prole de Luso ou geração da Gália,Cativara-os a naiade escondida,E o sol os viu travados nessa longaE sangrenta porfia, cujo prêmioEra teu verde, cândido regaço.Triunfara o trabuco lusitanoNaquele extinto século. Vencido,O pavilhão francês volvera à pátria,Pela água arrastando o longo crepeDe suas tristes, mortas esperanças,Que vento novo o desfraldou nos ares?IVÂngela ouvira as vozes da cidade,As vozes do furor. Já receosa,Trêmula, foge à alcova e se encaminhaÀ câmara paterna. Ia transpondoA franqueada porta... e pára. O peitoRompe-lho quase o coração — tamanhoÉ o palpitar, um palpitar de gosto,De surpresa e de susto. Aqueles olhos,Aquela graça máscula do gesto,Graça e olhos são dele, o amado noivo,Que entre os mais homens elegeu sua almaPara o vínculo eterno... Sim, que a mortePode arrancar ao seio humano o alentoÚltimo e derradeiro; os que deverasUnidos foram, volverão unidosA mergulhar na eternidade. EstavaJunto do velho pai o gentil moço,Ele todo agitado, o ancião sombrio,Calados ambos. A atitude de ambos,O misterioso, gélido silêncio,Mais que tudo, a presença nunca usadaDaquele homem ali, que mal a espreitaDe longe e a furto, nos instantes brevesEm que lhe é dado vê-la, tudo à moçaO ânimo abala e o coração enfia.VMas o tropel de fora avulta e cresceE os três acorda. A virgem, lentamente,Rosto inclinado ao chão, transpõe o espaçoQue dos dois a separa. O tenro coloCurva ante o pai, e na enrugada destraO ósculo imprime, herdada usança nossaDe filial respeito. As mãos lhe tomaEnternecido o velho; olhos com olhosAlguns instantes rápidos ficaram,Até que ele, voltando o rosto ao moço:“— Perdoai — disse — se paterno afetoMe atou a língua. Vacilar é justoQuando à pobre ruína a flor lhe pedemQue única lhe nasceu — única adornaA aridez melancólica do extremo,Pálido sol... Não protesteis! Roubá-la,Arrancá-la aos meus últimos instantes,Não o fareis de certo. Pouco importaDês que a metade lhe levais da vida,Dês que seu coração, convosco parteAfeições minhas. — Ao demais, o sangueQue lhe corre nas veias condenado,Nuno, será dos vossos...” Longo e frioOlhar estas palavras acompanha,Como a arrancar-lhe o pensamento interno.A donzela estremece. Nuno o alentoRecobra e fala: — “Puro sangue é ele,Se lhe corre nas veias. Tão mimosa,Cândida criatura, alma tão casta,Inda nascida entre os incréus da Arábia,Deus a votara à conversão e à vidaDos eleitos do céu. Águas sagradasQue a lavaram no berço, já nas veiasO sangue velho e impuro lhe trocaramPelo sangue de Cristo...”VIINeste instanteCresce o tumulto exterior. A virgemMedrosa toda se conchega ao coloDo velho pai. “Ouvis? Falai! é tempo!”Nuno prossegue. — “Este comum perigoChama os varões à ríspida batalha;Com eles vou. Se um galardão, entanto,Merecer de meus feitos, não à pátriaIrei pedi-lo; só de vós espero,Não o melhor, mas o único na terra,Que a minha vida...” Rematar não pôdeEsta palavra. Ao escutar-lhe a novaDa iminente pelejaE a decisão de combater por ela,Luteiras sente as forças esvair-lheA donzela, e bem como ao rijo ventoInclina o colo o arbustoNos braços desmaiou do pai. VolvidaA si, na palidez do rosto o velhoAtenta um pouco, e suspirando: “As armasEmpunhai; combatei; Ângela é vossa.Não de mim a havereis: ela a si mesmaToda nas vossas mãos se entrega. MortaOu feliz é a escolha; não vacilo:Seja feliz, e folgarei com ela...”VIIISobre a fronte dos dois, as mãos impondoAo seio os conchegou, bem como a tendaDo patriarca santo agasalhavaO moço Isaac e a delicada virgemQue entre os rios nasceu18. DeliciosoE solene era o quadro; mas soleneE delicioso embora, ia esvair-seQual celeste visão, que acende a espaçosO ânimo do infeliz. A guerra, a duraNecessidade de imolar os homens,Por salvar homens, a terrível guerraCorta o amoroso vínculo que os prendeE à moça o riso lhe converte em lágrimas.Mísera és tu, pálida flor; mas sofreQue o calor deste sol te acurve o cálice,Morta, não; nem já murcha — mas apenasComo cansada de queimor do estio.Sofre; a tarde virá serena e brandaA reviver-te o alento; a fresca noiteChoverá sobre ti piedoso orvalhoE mais risonha surgirás à aurora.IXFoge à estância da paz o ardido moço;Esperança, fortuna, amor e pátriaA guerrear o levam. Já nas veiasO vivo sangue irrequieto pulsa,Como ansioso de correr por ambas,A bela terra e a suspirada noiva.Triste quadro a seus olhos se apresenta;Nos femininos rostos vê pintadosIncerteza e terror; lamentos, gritosSoam de entorno. Voam pelas ruasHomens de guerra; homens de paz se aprestamPara a crua peleja; e, ou nobre estância,Ou choupana rasteira, armado é tudoContra a forte invasão. Nem lá se deixaQuieto, a sós com Deus, na estreita cela,O solitário monge que às batalhasFugiu da vida. O patrimônio santoCumpre salvá-lo. Cruz e espada empunha,Deixa a serena região da preceE voa ao torvelinho do combate.XEntre os fortes alunos que dirigeO ardido Bento19, a perfilar-se correNuno. Estes são os que o primeiro golpeDescarregam no atônito inimigo.Do militar ofício ignoram tudo,De armas não sabem; mas o brio e a honraE a lembrança da terra em que primeiroViram a luz, e onde o perdê-la é doce,Essa a escola lhes foi. Pasma o inimigoDo nobre esforço e galhardia rara,Com que inda nos umbrais da vida que ornaTanta esperança, tanto sonho de ouro,Resolutos a morte encaram, prestesA retalhar nas dobrasDa vestidura fúnebre da pátriaO piedoso lençol que os leve à campa,Ou com ela cingir o eterno louro.XIÓ mocidade, ó baluarte vivoDa cara pátria! Já perdida é ela,Quando em teu peito entusiasmo santoE puro amor se extingue, e àquele nobre,Generoso despejo e ardor antigoSucede o frio calcular, e o torpeEgoísmo, e quanto há aí no humano peito,Que a natureza não criou nem ama,Que é fruto nosso e podre... Muitos caemMortos ali. Que importa? Vão seguindoAvante os bravos, que a invasão caminhaImplacável e dura, como a morte,A pelejar e a destruir. TingidasRuas de estranho sangueE sangue nosso, lacerados membros,Corpos de que há fugido a alma cansada,E o denso fumo e os fúnebres lamentos,Quem nessa confusão, miséria e glóriaConhecerá da juvenil cidadeO aspecto, a vida? Aqui da infância os diasNuno vivera, à vicejante sombraDo seu pátrio arvoredo, ao som das vagasQue inda batendo vão na amada areia;Risos, jogos da verde meninice,Esta praia lhe lembra, aquela pedra,A mangueira do campo, a tosca cercaDe espinheiro e de flores enlaçadas,A ave que voa, a brisa que suspira,Que suspira como ele há suspirado,Quando rompendo o coração do peitoIa-lhe empós dessa visão divina,Realidade agora... E há de perdê-lasPátria e noiva? Esta idéia lhe esvoaçaTorva e surda no cérebro do moço,E ao contraído espírito redobraÍmpeto e forças. RompePor entre a multidão dos seus, e investeContra o duro inimigo; e as balas voam,E com elas a morte, que não sabeDos escolhidos seus a terra e o sangue,E indistintos os toma; ele, no meioDaquele horrível turbilhão, pareceQue a faísca do gênio o leva e anima,Que a fortuna o votara à glória.XIISoamEnfim os gritos de triunfo; e o peitoDo povo que lutou respira à larga,Como ao que, após árdua subida, chegaAo cimo da montanha, e ao longe os olhosEstende pelo azul dos céus, e a vidaBebe nesse ar mais puro. Farto sangueA vitória custara; mas, se em meioDe tanta glória há lágrimas, soluços,Gemidos de viuvez, quem os escuta,Quem as vê essas lágrimas choradasNa multidão da praça que trovejaE folga e ri? O sacro bronze que usaOs fiéis convidar à prece, e a morteDo homem pranteia lúgubre e solene,Ora festivo cantaO comum regozijo; e pela abertaPorta dos templos entra a frouxo o povoA agradecer com lágrimas e vozesO triunfo — piedoso instinto da alma,Que a Deus levanta o pensamento e as graças.XIIITu, mancebo feliz, tu bravo e amado,Voa nas asas rútilas e levesDa fortuna e do amor. Como ao indiano,Que, ao regressar das porfiadas lutas,Por estas mesmas regiões entrava,A encontrá-lo saía a meiga esposa,— A recente cristã, entre assustadaE jubilosa coroará teus feitosCo’a melhor das capelas que hão pousadoEm fronte de varão — um doce e longoOlhar que inteiro encerra a alma que choraDe gosto e vida! Voa o moço à estânciaDo ancião; e ao pôr na suspirada portaOlhos que traz famintos de encontrá-la,Frio terror lhe empece os membros. FrouxoIa o sol transmontando; lenta a vagaMelancolicamente ali gemia,E todo o ar parecia arfar de morte.Qual se pálida a vira, já cerradosOs desmaiados olhos,Frios os doces lábiosCansados de pedir aos céus por ele,Nuno estacara; e pelo rosto em fioO suor lhe caiu da extrema angústia;Longo tempo vacila;Vence-se enfim, e entra a mansão da esposa.XIVQuatro vultos na câmara paternaEram. O pai sentado,Calado e triste. Reclinada a fronteNo espaldar da cadeira, a filha os olhosE o rosto esconde, mas tremor contínuoDe um abafado soluçar o esbeltoCorpo lhe agita. Nuno aos dois se chega;Ia a falar, quando a formosa virgem,Os lacrimosos olhos levantando,Um grito solta do íntimo do peitoE se lhe prostra aos pés: “Oh! vivo, és vivo!Inda bem... Mas o céu, que por nós vela,Aqui te envia... Salva-o tu, se podes,Salva meu pobre pai!” EstremecendoNela e no velho fita Nuno os olhos,E agitado pergunta: “Qual ousadoBraço lhe ameaça a vida?” CavernosaUma voz lhe responde: “O santo ofício!”Volve o mancebo o rostoE o merencório aspectoDe dois familiares todo o sangueNas veias lhe gelou.XVSolene o velhoCom a voz, não frouxa, mas pausada, fala:“— Vês? Todo o brio, todo o amor no peitoTe emudeceu. Só lastimar-me podes,Salvar-me, nunca. O cárcere me aguarda,E a fogueira talvez; cumpri-la, é tempo,A vontade de Deus. Tu, pai e esposoDa desvalida filha que aí deixo,Nuno, serás. A relembrar com elaMeu pobre nome, aplacareis a imensaCólera do Senhor...” Sorrindo irônico,Estas palavras últimas lhe caemDos lábios tristes. Ergue-se: “Partamos!Adeus! Negou-me Aquele que no campoDeixa a árvore anciã perder as folhasNo mesmo ponto em que as nutriu viçosas,Negou-me ver por estas longas serrasIr-se-me o último sol. Brando regaçoA filial piedade me dariaEm que eu dormisse o derradeiro sono,E em braços de meu sangue transportadoFora em horas de paz e de silêncioLevado ao leito extremo e eterno. ViveAo menos tu...”XVIUm familiar lhe cortaO adeus último: “Vamos: é já tempo!”Resignado o infeliz, ao seio apertaA filha, e todo o coração num beijoLhe transmitiu, e a caminhar começa.Ângela os lindos braços sobre os ombrosTrava do austero pai; flores disséreisDe parasita, que enroscou seus ramosPelo cansado tronco, estéril, secoDe árvore antiga: “Nunca! Hão de primeiroA alma arrancar-me! Ou se heis pecado, e a mortePena há de ser da cometida culpa,Convosco descerei à campa fria,Juntos a mergulhar na eternidade.Israel tem vertidoUma mar de sangue. Embora! à tona deleVerdeja a nossa fé20, a fé que animaO eleito povo, flor suave e belaQue o medo não desfolha, nem já secaAo vento mau da cólera dos homens!”XVIITrêmula a voz do peito lhe saía.Das mãos lhe trava um dos algozes. ElaEntrega-se risonha,Como se o cálix da amargura extremaPelos meles da vida lhe trocassemCeleste e eterna. O coração do moçoLatejava de espanto e susto. Os olhosPousa na filha o desvairado velho.Que ouviu? — Atenta nela; o lindo rostoO céu não busca jubiloso e livre,Antes, como travado de agra pena,Pende-lhe agora ao chão. Dizia acasoEntre si mesma uma oração, e o nomeDe Jesus repetia, mas tão baixo,Que o coração do pai mal pôde ouvir-lho.Mas ouviu-lho; e tão forte amor, tamanhoSacrifício da vida a alma lhe rasgaE deslumbra. Escoou-se um breve tempoDe silêncio; ele e ela, os triste noivos,Como se a eterna noite os recebera,Gelados eram; levantar não ousamUm para o outro os arrasados olhosDe mal contidas e teimosas lágrimas.XVIIINuno enfim, lentamente e a custo arrancaDo coração estas palavras: “ForaMisericórdia ao menos confessá-loQuando ao fogo do bárbaro inimigoMe era fácil deixar o derradeiroSopro da vida. Prêmio é este acasoDe tamanho lidar? Que mal te hei feito,Porque me dês tão bárbara e medonhaMorte, como esta, em que o cadáver guardaInteiro o pensamento, inteiro o aspectoDa vida que fugiu?” Ângela os olhosMagoados ergue; arfa-lhe o peito aflito,Como o dorso da vaga que intumesceA asa da tempestade. “Adeus!” suspiraE a fronte abriga no paterno seio.XIXO rebelde ancião, domado entanto,Afracar-se-lhe sente dentro d’almaO sentimento velho que beberaCom o leite dos seus; e sem que o lábioTransmita a ouvidos de homemO duvidar do coração, murmuraDentro de si: “Tão poderosa é essaIngênua fé, que inda negando o nomeDo seu Deus, confiada aceita a morte,E guarda puro o sentimento internoCom que o véu rasgará da eternidade?Ó Nazareno, ó filho do mistério,Se é tua lei a única da vidaEscreve-ma no peito; e dá que eu vejaMorrer comigo a filha de meus olhosE unidos irmos, pela porta imensaDo teu perdão, à eternidade tua!”XXMergulhara de todo o sol no ocaso,E a noite, clara, deliciosa e bela,A cidade cobriu — não sossegada,Como costuma — porém leda e viva,Cheia de luz, de cantos e rumores,Vitoriosa enfim. Eles, calados,Foram por entre a multidão alegre,A penetrar o cárcere sombrio.Donde ao mar passarão, que os leve às praiasDa ancião Europa. Carregado o rosto,Ia o pai; ela, não. Serena e meiga,Entra afoita o caminho da amargura,A custo sofreando internas mágoasDa amarga vida, breve flor como ela,Que inda mais breve a mente lhe afigura.Anjo, descera da região celesteA pairar sobre o abismo; anjo, subiaDe novo à esfera luminosa e eterna,Pátria sua. Levar-lhe-á Deus em contaO muito amor e o padecer extremo,Quando romper a túnica da vidaE o silêncio imortal fechar seus lábios.