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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Potira

Por Machado de Assis (1875)

— “ Nasceste para ser senhora e dona:

Anagê não te veda a liberdade;

Quebra tu mesma os nós do cativeiro.

Faze-te esposa. Vem coroar meus dias;

Vem, tudo esqueço. A fronte do guerreiro,

Adornada por ti, será mais nobre;

Mais forte o braço em que pousar teu rosto.

Sou menos belo que esse esposo ausente?

Rudes feições compensa amor sobejo.

Vem, ser-me-ás companheira nos combates,

E, se inimiga frecha entrar meu seio,

Morrerei a teus pés. Tens medo aos padres?

Outro destino escolhe. Cauteloso,

Tece o japu nos elevados ramos

Das elevadas árvores o ninho,

Onde o inimigo lhe não roube a prole.

Ninho há na serra ao nosso amor propício;

Viveremos ali. Troveje em baixo

A inúbia convidando à guerra os povos;

Leva de arcos transforme estas aldeias

Em campos de combate — ou já dispersas

As fugitivas tribos vão buscando

Longes sertões para chorar seus males,

Viveremos ali. Talvez um dia

Quando eu passar à misteriosa estância

Das delícias eternas, me pergunte

Meu velho pai: — ‘Teu arco de guerreiro

Em que deserta praia o abandonaste?’*

Salvar-me-á teu amor do eterno pejo.”

XV

Doce era a voz e triste. Rasos d’água

Os olhos. Foi desmaio de tristeza

Que o gesto dissipou da esquiva moça.

Volve ao Tamoio vingativa idéia.

— “Minha” (diz ele) “ou morres!” Estremece

Potira, como quando a brisa passa

Ao de leve na folha da palmeira,

E logo fria ao bárbaro responde:

— “Jaz esquecida em nossas velhas tabas

O respeito da esposa? Acaso é digna

Do sangue do Tamoio esta ameaça?

Que desvalia aos olhos teus me coube,

Se a outro me ligaram natureza,

Religião, destino? A liberdade

Nas tuas mãos depus; com ela a vida.

É tudo, quase tudo. Honra de esposa,

Oh! essa deves respeitá-la! Vai-te!

Ceva teu ódio nas sangrentas carnes

Do prostrado cativo. Aqui chorando,

Na soidão destes bosques mal fechados,

Às maviosas brisas meus suspiros

Entregarei; levá-los-ão nas asas

Lá onde geme solitário o esposo.

Vai-te!” E as mimosas mãos colhendo ao rosto,

Alçou a Deus o pensamento amante,

Como a centelha viva que a fogueira

Extinta aos ares sobe. Imóvel, muda,

Longo tempo ficou. Diante dela,

Como ela imóvel, o tamoio estava.

Amor, ódio, ciúme, orgulho, pena,

Opostos sentimentos se combatem

No atribulado peito. Generoso

Era, mas não domado amor lhe dava

Inspiração de crimes. Não mais pronto

Cai sobre a triste corça fugitiva

Jaguar de longa fome esporeado,

Do que ele as mãos lançou ao colo e à fronte

Da mísera Potira. Ai! não, não diga

A minha voz o lamentoso instante

Em que ela, ao seu algoz volvendo ansiosa

Turvos olhos: “Perdôo-te!” murmura,

Os lábios cerra e imaculada expira!

XVI

Estro maior teu nome obscuro cante,

Moça cristã das solidões antigas,

E eterno o cinja de virentes flores,

Que as mereces. De não sabido bardo

Estes gemidos são8. Lânguidas brisas

No taquaral à noite sussurrando,

Ou enrugando o mole dorso às vagas,

Não tem a voz com que domina os ecos

Despenhada cachoeira. São, contudo,

Mas que débeis e tristes, no concerto

Da orquestra universal cabidas notas.

Alveja a nebulosa entre as estrelas,

E abre ao pé do rosal a flor da murta.

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