Potira MACHADO DE ASSIS (1875) Machado de Assis (1839–1908) constrói um poema narrativo de tema indígena, centrado no conflito entre cultura nativa e colonização. A obra valoriza a dignidade trágica da personagem feminina e revela o interesse do autor pelo indianismo crítico, afastado da idealização romântica. Se, poi ch’a morte il corpo le percosse, Desse almen vita alla memoria d’ella.  ARIOSTO, Orl. Fur., c. XXIX, est. XXXI   ...Os Tamoios, entre outras presas que fizeram, levaram esta índia, a qual pretendeu o capitão da empresa violar: resistiu valorosamente dizendo em língua brasílica: “Eu sou cristã e casada; não hei de fazer traição a Deus e a meu marido; bem podes matar-me e fazer de mim o que quiserdes.” Deu-se por afrontado o bárbaro, e em vingança lhe acabou a vida com grande crueldade.Vasc. Chr. da Companhia de Jesus, liv 3º IMoça cristã das solidões antigas,Em que áurea folha reviveu teu nome?Nem o eco das matas seculares,Nem a voz das sonoras cachoeiras,O transmitiu aos séculos futuros.Assim da tarde estiva às auras frouxasTênue fumo do colmo no ar se perde;Nem de outra sorte em moribundos lábiosA humana voz expira. O horror e o sangueDa miseranda cena em que, de envoltaCo’os longos, magoadíssimos suspiros,Cristã Lucrécia, abriu tua alma o vôoPara subir às regiões celestes,Mal deixada memória aos homens lembra.Isso apenas; não mais; teu nome obscuro,Nem tua campa o brasileiro os sabe.IIJá da férvida luta os ais e os gritosExtintos eram. Nos baixéis ligeirosOs tamoios incólumes embarcam;Ferem co’os remos as serenas ondasAté surgirem na remota aldeia.Atrás ficava, lutuosa e triste,A nascente cidade brasileira,Do inopinado assalto espavorida,Ao céu mandando em coro inúteis vozes.Vinha já perto rareando a noite,Alva aurora, que à vida acorda as selvas,Quando a aldeia surgiu aos olhos torvosDa expedição noturna. À praia saltamOs vencedores em tropel; transportamÀs cabanas despojos e vencidos,E, da vigília fatigados, buscamNa curva leve rede amigo sono,Exceto o chefe. Oh! esse não dormiraLongas noites, se a troco da vitóriaPrecisas fossem. Traz consigo o prêmio,O desejado prêmio. DesmaiadaConduz nos braços trêmulos a moçaQue renegou Tupã, e as velhas crençasLavou nas águas do batismo santo.Na rede ornada de amarelas penasBrandamente a depõe. Leve tecidoDa cativa gentil as formas cobre;Veste-as de mais a sombra do crepúsculo,Sombra que a tíbia luz da alva nascenteDe todo não rompeu. Inquieto sangueNas veias ferve do índio. Os olhos luzemDe concentrada raiva triunfante.Amor talvez lhes lança um leve toqueDe ternura, ou já sôfrego desejo;Amor, como ele, aspérrimo e selvagem,Que outro não sente o herói.IIIHerói lhe chamamQuantos o hão visto no fervor da guerraMedo e morte espalhar entre os contráriosE avantajar-se nos certeiros golpesAos mais fortes da tribo. O arco e a flechaDesde a infância os meneia ousado e afoito;Cedo aprendeu nas solitárias brenhasA pleitear às feras o caminho.A força opõe à força, a astúcia à astúcia.Qual se da onça e da serpente houveraColhido as armas. Traz ao colo os dentesDos contrários vencidos. Nem dos anosO número supera o das vitórias;Tem no espaçoso rosto a flor da vida,A juventude, e goza entre os mais belosDe real primazia. A cinta e a fronteAzuis, vermelhas plumas alardeiam,Ingênuas galas do gentio inculto.IVDa cativa gentil cerrados olhosNão se entreabrem à luz. Morta parece.Uma só contração lhe não perturbaA paz serena do mimoso rosto.Junto dela, cruzados sobre o peitoOs braços, Anagê contempla e espera;Sôfrego espera, enquanto idéias negrasEstão a revoar-lhe em torno e a encher-lheA mente de projetos tenebrosos.Tal no cimo do velho CorcovadoPróxima tempestade engloba as nuvens.Súbito ao seio túrgido e macioAnsiosas mãos estende; inda palpitaO coração, com desusada força,Como se a vida toda ali buscasseRefúgio certo e último. ImpetuosoO vestido cristão lhe despedaça,E à luz já viva da manhã recenteContempla as nuas formas. Era acasoA síncope chegada ao termo próprio,Ou, no pejo ofendida, às mãos entranhasA desmaiada moça despertara.Potira acorda, os olhos lança em torno,Fita, vê, compreende, e inquieta buscaFugir do vencedor às mãos e ao crime...Mísera! opõe-se-lhe o irritado gestoDo aspérrimo guerreiro; um ai lhe sobeAngustioso e triste aos lábios trêmulos,Sobe, murmura e sufocado expira.Na rede envolve o corpo, e, desviandoDo terrível tamoio os lindos olhos,Entrecortada prece aos céus envia,E as faces banha de serenas lágrimas.VLongo tempo correra. Amplo silêncioReinou entre ambos. Do tamoio a frontePouco a pouco despira o torvo aspecto.Ao trabalhado espírito, revoltoDe mil sinistros pensamentos, volveBenigna calma. Tal de um rio engrossaO volume extensíssimo das águasQue vão enchendo de pavor os ecos,Vencendo no arruído o vento e o raio,E pouco a pouco atenuando as vozes,Adelgaçando as ondas, tornam mansasAo primitivo leito. Ei-lo se inclina,Para tomar nos braços a formosaPor cujo amor incendiara a aldeiaDaquelas gentes pálidas de Europa.Sente-lhe a moça as mãos, e erguendo o rosto,O rosto inda de lágrimas molhado,Do coração estas palavras solta:“— Lá entre os meus, suave e amiga morte,Ah! porque me não deste? Houvera ao menosQuem escutasse de meus lábios friosA prece derradeira; e a santa bênçãoLevaria minha alma aos pés do Eterno...Não, não te peço a vida; é tua, extingue-a;Um só alívio imploro. Não receiesEmbeber no meu sangue a ervada seta;Mata-me, sim; mas leva-me onde eu possaTer em sagrado leito o último sono!”Disse, e fitando no índio ávidos olhos,Esperou. Anagê sacode a fronte,Como se lhe pesara idéia triste;Crava os olhos no chão; lentas lhe saemEstas vozes do peito.“Oh! nunca os padresPisado houvessem estas plagas virgens!Nunca de um deus estranho as leis ignotasViessem perturbar as tribos, comoPerturba o vento as águas! Rosto a rostoOs guerreiros pelejam; matam, morrem.Ante o fulgor das armas inimigasNão descora o tamoio. Assaz lhe pulsaValor nativo e raro em peito livre.Armas, deu-lhas Tupã novas e eternasNestas matas vastíssimas. De sangueEstranhos rios hão de, ao mar correndo,Tristes novas levar à pátria deles,Primeiro que o tamoio a frente inclineAos inimigos peitos. Outra força,Outra e maior nos move a guerra crua;São eles, são os padres. Esses mostramCheia de riso a boca e o mel nas vozes,Sereno o rosto e as brancas mãos inermes;Ordens não trazem de cacique estranho,Tudo nos levam, tudo. Uma por umaAs filhas de Tupã correm trás eles,Com elas os guerreiros, e com todosA nossa antiga fé. Vem perto o diaEm que, na imensidão destes desertos,Há de ao frio luar das longas noitesO pajé suspirar sozinho e tristeSem povo nem Tupã!”VISilenciosasLágrimas lhe espremeu dos olhos negrosEsta lembrança de futuros males.“— Escuta!” diz Potira. O índio estendeimperioso as mãos e assim prossegue:“— Também com eles foste, e foi contigoDa minha vida a flor! Teu pai mandara,E com ele mandou Tupã que eu fosseTeu esposo; vedou-mo a voz dos padres,Que me perdeu, levando-te consigo.Não morri; vivi só para esta afronta;Vivi para esta insólita tristezaDe maldizer teu nome e as graças tuas,Chorar-te a vida e desejar-te a morte.Ai! nos rudes combates em que a triboRega de sangue o chão da virgem terraOu tinge a flor do mar, nunca a meu ladoTeu nobre vulto esteve. A aldeia toda,Mais que o teu coração, ficou deserta.Duas vezes, mimosas rebentaramDo lacrimoso cajueiro as flores,Desde o dia funesto em que deixasteA cabana paterna. O extremo lumeExpirou de teu pai nos olhos tristes;Piedosa chama consumiu seus restosE a aldeia toda o lastimou com prantos.Não de todo se foi da nossa vida;Parte ficou para sentir teus males.Antes que o último sol à melindrosaFlor do maracujá cerrasse as folhasUm sonho tive. Merencório vulto,Triste como uma fronte de vencido,Cor da lua os cabelos venerandos,O vulto de teu pai”: ‘Guerreiro’ (disse),‘corre à vizinha habitação dos brancos,Vai, arranca Potira à lei funestaDos pálidos pajés; Tupã to ordena;Nos braços traze a fugitiva corça;Vincula o teu destino ao dela; é tua*.’“— Impossível! Que vale um vago sonho?Sou esposa e cristã. Ímpio, respeitaO amor que Deus protege e santifica:Mata-me; a minha vida te pertence:Ou, se te pesa derramar o sangueDaquela a quem amaste, e por quem fosteLançar entre os cristãos a dor e o susto,Faze-me escrava; servirei contenteEnquanto a vida alumiar meus olhos.Toma, entrego-te o sangue e a liberdade;Ordena ou fere. Tua esposa, nunca!”Calou-se, e reclinada sobre a rede,Potira murmurava ignota prece,Olhos fitos no próximo arvoredo,VIIÓ Cristo, em que alma penetrou teu nomeQue lhe não desse o bálsamo da vida?Pelo vento dos séculos levado,Vidente e cego, o máximo dos seres,Que fora do homem nesta escassa terra,Se ao mistério da vida lhe não desses,Ó Cristo, a eterna chave da esperança?Filosofia estóica, árdua virtude,Criação de homem, tudo passa e expira.Tu só, filha de Deus, palavra amiga,Tu, suavíssima voz da eternidade,Tu perduras, tu vales, tu confortas.Nesta sonho iriado de outros sonhos,Vários como as feições da natureza,Neste confusa agitação da vida,Que alma transpõe a derradeira idadeFarta de algumas passageiras glórias?Torvo é o ar do sepulcro; ali não viçamEssas cansadas rosas da existênciaQue às vezes tantas lágrimas nos custam,E tantas mais antes do ocaso expiram.Flor do Evangelho, núncia de alvos dias,Esperança cristã, não te há murchadoO vento árido e seco; és tu viçosaQuando as da terra lânguidas inclinamO seio, e a vida lentamente exalam.Esta a consolação última e doceDa esposa indiana foi. Cativa ou morta,Antevia a celeste recompensaQue aos humildes reserva a mão do Eterno.Naquele rude coração das brenhasA semente evangélica brotara.VIIIDas duas condições deu-lhe o guerreiroA pior — fê-la escrava; e ei-la apareceDa sua aldeia aos olhos espantadosQual fora em dias de melhor ventura.Despida vem das roupas que lhe há postoSobre as polidas formas uso estranho,Não sabido jamais daqueles povosQue a natureza ingênua doutrinara.Vence na gentileza às mais da tribo,E tem de sobra um sentimento novo,Pudor de esposa e de cristã — realceQue ao índio acende a natural volúpia.Simulada alegria lhe descerraOs lábios; riso à flor, escasso e dúbio,Que mal lhe encobre as vergonhosas mágoas.À voz de seu senhor acorre humilde;Não a assusta o labor; nem dos perigosConhece os medos. Nas ruidosas festas,Quando ferve o cauim,4 e o ar atroaPocema de alegria ou de combate,Como que se lhe fecha a flor do rosto.Já lhe descai então no seio opressoA graciosa fronte; os olhos fecha,E ao céu voltando o pensamento puro,Menos por si, que pelos outros, pede.Nem só o ardor da fé lhe abrasa o peito;Lacera-lho também agra saudade;Chora a separação do amado esposo,Que, ou cedo a esquece, ou solitário geme.Se, alguma vez, fugindo a estranhos olhos,Não já cruéis, mas cobiçosos dela,Entra desatinada o bosque antigo,Co’o doce nome acorda ao longe os ecos,E a dor expande em lôbregos soluços,Farta de amor e pródiga de vida,Ouve-as a selva, e não lhe entende as mágoas.Outras vezes pisando a ruiva areiaDas praias, ou galgando a penediaCujos pés orla o mar de nívea espuma,As ondas murmurantes interroga:Conta ao vento da noite as dores suas;Mas... fiéis ao destino e à lei que as rege,As preguiçosas ondas vão caminho,Crespas do vento que sussurra e passa.IXQuando, ao sol da manhã, partem às vezes,Com seus arcos, os destros caçadores,E alguns da rija estaca desatandoOs nós de embira às rápidas igaras,À pesca vão pelas ribeiras próximas,Das esposas, das mães que os lares velam,Grata alegria os corações inunda,Menos o dela, que suspira e geme,E não aguarda doce esposo ou filho.Triste os vê na partida e no regresso,E nessa melancólica postura,Semelha a acácia langue e esmorecida,Que já de orvalho ou sol não pede os beijos.As outras... — Raro em lábios de felizesAlheias mágoas travam. Não se pejamDe seus olhos azuis e alegres penasOs saís sobre as árvores pousados,Se ao perto voa na campina verdeDe anuns lutuoso bando; nem os trilosDas andorinhas interrompe a notaQue a juriti suspira. — As outras folgamPelo arraial dispersas; vão-se à terraArrancar as raízes nutritivas,E fazem os preparos do banqueteA que hão de vir mais tarde os destemidosSenhores do arco, alegres vencedoresDe quanto vive na água e na floresta.Da cativa nenhuma inquire as mágoas.Contudo, algumas vezes, curiosasVirgens lhe dizem, apiedando o gesto:— “Pois que à taba voltaste, em que teus olhosPrimeiro viram luz, que mágoa fundaLhes destila tão longo e amargo pranto,Amargo mais do que esse que não buscaRecatado silêncio?” — E às doces vozesA cristã desterrada assim responde:— “Potira é como aquela flor que choraLágrimas de alvo leite, se do galhoMão cruel a cortou. Oh! não permitaO céu que ímpia fortuna vos separeDaquele que escolherdes. Dor é essaMaior que um pobre coração de esposa.Esperanças... Deixei-as nessas águasQue me trouxeram, cúmplices do crime,À taba de Tupã, não alumiadaDa palavra celeste. Algumas vezes,Raras, alveja em minha noite escuraNão sei que tíbia aurora, e penso: AcasoO sol que vem me guarda um raio amigo,Que há de acender nestes cansados olhosVentura que já foi. As asas colheGuanumbi, e o aguçado bico embebeNo tronco, onde repousa adormecidoAté que volte uma estação de flores..Ventura imita o guanumbi dos campos:Acordará co’as flores de outros dias.Doce ilusão que rápido se escoa,Como o pingo de orvalho mal fechadoNuma folha que o vento agita e entorna.”E as virgens dizem, apiedando o gesto:— “Potira é como aquela flor que choraLágrimas de alvo leite, se do galhoMão cruel a cortou!”XEra chegadoO fatal prazo, o desenlace triste.Tudo morre — a tristeza como o gozo;Rosas de amor ou lírios de saudade,Tarde ou cedo os esfolha a mão do tempo.Costeando as longas praias, ou transpondoExtensos vales e montanhas, corremMensageiros que às tabas mais vizinhasVão convidar à festa as gentes todas.Era a festa da morte. Índio guerreiro,Três luas há cativo, o instante aguardaEm que às mãos de inimigos vencedores,Caia expirante, e os vínculos rompendoDa vida, a alma remonte além dos Andes.Corre de boca em boca e de eco em ecoA alegre nova. Vem descendo os montes,Ou abicando às povoadas praiasGente da raça ilustre. A onda imensaPelo arraial se estende pressurosa.De quantas cores natureza fértilTinge as próprias feições, copiam elesEngraçadas, vistosas louçanias.Vários na idade são, vários no aspecto,Todos iguais e irmãos no herdado brio.Dado o amplexo de amigo, acompanhadoDe suspiros e pêsames sincerosPelas fadigas da viagem longa,Rompem ruidosas danças. Ao tamoioDeu o Ibaque os segredos da poesia;Cantos festivos, moduladas vozes,Enchem os ares, celebrando a festaDo sacrifício próximo. Ah! não cubraVéu de nojo ou tristeza o rosto aos filhosDestes polidos tempos! Rudes eramAqueles homens de ásperos costumes,Que ante o sangue de irmãos folgavam livres,E nós, soberbos filhos de outra idade,Que a voz falamos da razão severaE na luz nos banhamos do Calvário,Que somos nós mais que eles? Raça tristeDe Cains, raça eterna...XIOs cantos cessam.Calou-se o maracá. As roucas vozesDos férvidos guerreiros já reclamamO brutal sacrifício. Às mãos das servasA taça do cauim passara exausta.Inquieto aguarda o prisioneiro a morte.Da nação guaianás nos rudes camposNasceu. Nos campos da saudosa pátriaIndustriosa mão não sabe aindaAlevantar as tabas. Cova fundaDa terra, mãe comum6, no seio aberta,Os acolhe e protege. O chão lhes forraA pele do tapir; contínua chamaLhes supre a luz do sol. É uso antigoDo guaianás que chega a extrema idade,Ou de mortal doença acometido,Não expirar aos olhos de outros homens;Vivo o guardam no bojo da igaçaba,E à fria terra o dão, como se foraPasto melhor (melhor!) aos frios vermes.Do almo, doce licor que extrai das floresMãe do mel, iramaia, larga cópiaPelos robustos membros lhe coaramSeis anciãs da tribo. Rubras penasNa vasta fronte e nos nervosos braçosGarridamente o enfeitam. Longa e forteA muçurana os rins lhe cinge e aperta.Entra na praça o fúnebre cortejo.Olhar tranqüilo, inda que fero, espalhaO indomado cativo. Em pé, defronte,Grave, silencioso, ao sol mostrandoDe feias cores e vistosas plumasSingular harmonia, aguarda a vítimaO executor. Nas mãos lhe pende a enormeTagapema enfeitada, arma certeira,Arma triunfal de morte e de extermínio.Medem-se rosto a rosto os dois contráriosC’um sorriso feroz. Confusas vozesEnchem súbito o espaço. Não lhe é dadoAo vencido guerreiro haver a morteSilenciosa e triste em que se passaDa curva rede à fria sepultura.Meigas aves que vão de um clima a outroAbrem placidamente as asas leves,Não tu, guerreiro, que encaraste a morte,Tu combate! Vencido e vencedoresDerradeiros escárnios se arremessam;Gritos, injúrias, convulsões de raiva,Vivo clamor acorda os longos ecosDas penedias próximas. A clavaDo executor girou no ar três vezesE de leve caiu na grossa espáduaDo arquejante cativo. Já na boca,Que o desprezo e o furor num riso entreabrem,Orla de espuma alveja. Avança, corre,Estaca... Não lhe dá mais amplo espaçoA muçurana, cujas pontas tiramDois mancebos robustos. Nas cavernasDo longo peito lhe murmura o ódio,Surdo, como o rumor da terra inquieta,Pejada de vulcões. Os lábios morde,E, como derradeira injúria, à faceDo executor lhe cospe espuma e sangue.Não vibra o arco mais veloz o tiro,Nem mais segura no aterrado cervoFeroz sucuriúba os nós enrosca,Do que a pesada, enorme tagapemaA cabeça de um golpe lhe esmigalha.Cai fulminada a vítima na terra,E alegre o povo longamente aplaude.XIINa voz universal perdeu-se um gritoDe piedade e terror: tão fundo entraraNaquela alma roubada à noite escuraRaio de sol cristão! Potira foge,Pelos bosques atônita se entranhaE pára à margem de um pequeno rio;Pousa na relva os trêmulos joelhosE nas mimosas mãos esconde o rosto.Não de lágrimas era aquele sítioOu só de doces lágrimas choradasDe olhos que amor venceu: — macia relva,Leito de sesta a amores fugitivos.Da verde, rara abóbada de folhasTépida e doce a luz coava a frouxoDo sol, que além das árvores tranqüilo,Metade da jornada ia transpondo.Longe era ainda a hora melancólicaEm que a jurema cerra a miúda folha,E o lume azul o pirilampo acende.De pé, a um velho tronco descoroadoDa copada ramagem, resto apenas,Vestígio do tufão, a indiana moçaLanguidamente encosta o esbelto corpo.Neste ameno recesso tudo é triste,Porque é alegre tudo. Não mui longeUm desfolhado ipê conserva e guardaFlores que lhe ficaram de outro estio,Como esperança de folhagem nova,Flores que a desventura lhe há negado,A ela, alma esquecida nesta terra,Que nada espera da estação vindoura.Olha, e de inveja o coração lhe estala;Pelo tronco das árvores se enroscamParasitas, esposas do arvoredo,Mais fiéis não, mais venturosas que ela.Morrer? Descanso fora as mágoas suas,Mais que descanso, perdurável gozo,Que a nossa eterna pátria aos infelizesDeste desterro, guarda alvas capelasDe não-murchandas e cheirosas flores.Tal lhe falava no íntimo do peitoDesespero cruel. Alguns instantesPela cansada mente lhe vagaramDe voluntária, abreviada morteLutuosas idéias. Mal compreendeEsses desmaios da criatura humanaQuem não sentiu no coração rasgadoAbatimento e enojo; ou, do mais que isto,Esse contraste imenso e irreparávelDo amor interno e a solidão da vida.Rápido espaço foi. Pronto lhe volveDoce resignação, cristã virtude,Que desafia e que assoberba os males.As débeis mãos levanta. Já dos lábiosSolta nas asas de oração singelaLástimas suas... Na folhagem secaOuve de cautos pés rumor sumidoVolve a cabeça...XIIITrêmulo, calado,Anagê crava nela os olhos turvosDos vapores da festa. As mãos inermesLhe pendem; mas o peito — ó mísera! — esse,Esse de mal contido amor transborda.Longo instante passou. Ao fim: “DeixasteA festa nossa (o bárbaro murmura);Misteriosa vieste. Dos guerreirosNenhum te viu; mas eu senti teus passos,E vim contigo ao ermo. Ave mesquinha,Inútil foges; gavião te espreita7,Minha te fez Tupã.” Em pé, sorrindoEscutava Potira a voz severaDe Anagê. Breve espaço abria entre ambosAlcatifado chão. A fatal horaChegara ao fim? Não o prescruta a moça;Tudo aceita das mãos do seu destino,Tudo, exceto... No próximo arvoredoOuve de uma ave o pio melancólico;Era a voz de seu pai? a voz do esposo?De ambos talvez. No ânimo da escravaRestos havia dessa crença antigaAntiga e sempre nova: o peito humanoRaro de obscuros elos se liberta. XIV— “ Nasceste para ser senhora e dona:Anagê não te veda a liberdade;Quebra tu mesma os nós do cativeiro.Faze-te esposa. Vem coroar meus dias;Vem, tudo esqueço. A fronte do guerreiro,Adornada por ti, será mais nobre;Mais forte o braço em que pousar teu rosto.Sou menos belo que esse esposo ausente?Rudes feições compensa amor sobejo.Vem, ser-me-ás companheira nos combates,E, se inimiga frecha entrar meu seio,Morrerei a teus pés. Tens medo aos padres?Outro destino escolhe. Cauteloso,Tece o japu nos elevados ramosDas elevadas árvores o ninho,Onde o inimigo lhe não roube a prole.Ninho há na serra ao nosso amor propício;Viveremos ali. Troveje em baixoA inúbia convidando à guerra os povos;Leva de arcos transforme estas aldeiasEm campos de combate — ou já dispersasAs fugitivas tribos vão buscandoLonges sertões para chorar seus males,Viveremos ali. Talvez um diaQuando eu passar à misteriosa estânciaDas delícias eternas, me pergunteMeu velho pai: — ‘Teu arco de guerreiroEm que deserta praia o abandonaste?’*Salvar-me-á teu amor do eterno pejo.”XVDoce era a voz e triste. Rasos d’águaOs olhos. Foi desmaio de tristezaQue o gesto dissipou da esquiva moça.Volve ao Tamoio vingativa idéia.— “Minha” (diz ele) “ou morres!” EstremecePotira, como quando a brisa passaAo de leve na folha da palmeira,E logo fria ao bárbaro responde:— “Jaz esquecida em nossas velhas tabasO respeito da esposa? Acaso é dignaDo sangue do Tamoio esta ameaça?Que desvalia aos olhos teus me coube,Se a outro me ligaram natureza,Religião, destino? A liberdadeNas tuas mãos depus; com ela a vida.É tudo, quase tudo. Honra de esposa,Oh! essa deves respeitá-la! Vai-te!Ceva teu ódio nas sangrentas carnesDo prostrado cativo. Aqui chorando,Na soidão destes bosques mal fechados,Às maviosas brisas meus suspirosEntregarei; levá-los-ão nas asasLá onde geme solitário o esposo.Vai-te!” E as mimosas mãos colhendo ao rosto,Alçou a Deus o pensamento amante,Como a centelha viva que a fogueiraExtinta aos ares sobe. Imóvel, muda,Longo tempo ficou. Diante dela,Como ela imóvel, o tamoio estava.Amor, ódio, ciúme, orgulho, pena,Opostos sentimentos se combatemNo atribulado peito. GenerosoEra, mas não domado amor lhe davaInspiração de crimes. Não mais prontoCai sobre a triste corça fugitivaJaguar de longa fome esporeado,Do que ele as mãos lançou ao colo e à fronteDa mísera Potira. Ai! não, não digaA minha voz o lamentoso instanteEm que ela, ao seu algoz volvendo ansiosaTurvos olhos: “Perdôo-te!” murmura,Os lábios cerra e imaculada expira!XVIEstro maior teu nome obscuro cante,Moça cristã das solidões antigas,E eterno o cinja de virentes flores,Que as mereces. De não sabido bardoEstes gemidos são8. Lânguidas brisasNo taquaral à noite sussurrando,Ou enrugando o mole dorso às vagas,Não tem a voz com que domina os ecosDespenhada cachoeira. São, contudo,Mas que débeis e tristes, no concertoDa orquestra universal cabidas notas.Alveja a nebulosa entre as estrelas,E abre ao pé do rosal a flor da murta.