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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

A cristã-nova

Por Machado de Assis (1875)

Com que inda nos umbrais da vida que orna

Tanta esperança, tanto sonho de ouro,

Resolutos a morte encaram, prestes

A retalhar nas dobras

Da vestidura fúnebre da pátria

O piedoso lençol que os leve à campa,

Ou com ela cingir o eterno louro.

XI

Ó mocidade, ó baluarte vivo

Da cara pátria! Já perdida é ela,

Quando em teu peito entusiasmo santo

E puro amor se extingue, e àquele nobre,

Generoso despejo e ardor antigo

Sucede o frio calcular, e o torpe

Egoísmo, e quanto há aí no humano peito,

Que a natureza não criou nem ama,

Que é fruto nosso e podre... Muitos caem

Mortos ali. Que importa? Vão seguindo

Avante os bravos, que a invasão caminha

Implacável e dura, como a morte,

A pelejar e a destruir. Tingidas

Ruas de estranho sangue

E sangue nosso, lacerados membros,

Corpos de que há fugido a alma cansada,

E o denso fumo e os fúnebres lamentos,

Quem nessa confusão, miséria e glória

Conhecerá da juvenil cidade

O aspecto, a vida? Aqui da infância os dias

Nuno vivera, à vicejante sombra

Do seu pátrio arvoredo, ao som das vagas

Que inda batendo vão na amada areia;

Risos, jogos da verde meninice,

Esta praia lhe lembra, aquela pedra,

A mangueira do campo, a tosca cerca

De espinheiro e de flores enlaçadas,

A ave que voa, a brisa que suspira,

Que suspira como ele há suspirado,

Quando rompendo o coração do peito

Ia-lhe empós dessa visão divina,

Realidade agora... E há de perdê-las

Pátria e noiva? Esta idéia lhe esvoaça

Torva e surda no cérebro do moço,

E ao contraído espírito redobra

Ímpeto e forças. Rompe

Por entre a multidão dos seus, e investe

Contra o duro inimigo; e as balas voam,

E com elas a morte, que não sabe

Dos escolhidos seus a terra e o sangue,

E indistintos os toma; ele, no meio

Daquele horrível turbilhão, parece

Que a faísca do gênio o leva e anima,

Que a fortuna o votara à glória.

XII

Soam

Enfim os gritos de triunfo; e o peito

Do povo que lutou respira à larga,

Como ao que, após árdua subida, chega

Ao cimo da montanha, e ao longe os olhos

Estende pelo azul dos céus, e a vida

Bebe nesse ar mais puro. Farto sangue

A vitória custara; mas, se em meio

De tanta glória há lágrimas, soluços,

Gemidos de viuvez, quem os escuta,

Quem as vê essas lágrimas choradas

Na multidão da praça que troveja

E folga e ri? O sacro bronze que usa

Os fiéis convidar à prece, e a morte

Do homem pranteia lúgubre e solene,

Ora festivo canta

O comum regozijo; e pela aberta

Porta dos templos entra a frouxo o povo

A agradecer com lágrimas e vozes

O triunfo — piedoso instinto da alma,

Que a Deus levanta o pensamento e as graças.

XIII

Tu, mancebo feliz, tu bravo e amado,

Voa nas asas rútilas e leves

Da fortuna e do amor. Como ao indiano,

Que, ao regressar das porfiadas lutas,

Por estas mesmas regiões entrava,

A encontrá-lo saía a meiga esposa,

— A recente cristã, entre assustada

E jubilosa coroará teus feitos

Co’a melhor das capelas que hão pousado

Em fronte de varão — um doce e longo

Olhar que inteiro encerra a alma que chora

De gosto e vida! Voa o moço à estância

Do ancião; e ao pôr na suspirada porta

Olhos que traz famintos de encontrá-la,

Frio terror lhe empece os membros. Frouxo

Ia o sol transmontando; lenta a vaga

Melancolicamente ali gemia,

E todo o ar parecia arfar de morte.

Qual se pálida a vira, já cerrados

Os desmaiados olhos,

Frios os doces lábios

Cansados de pedir aos céus por ele,

Nuno estacara; e pelo rosto em fio

O suor lhe caiu da extrema angústia;

Longo tempo vacila;

Vence-se enfim, e entra a mansão da esposa.

XIV

Quatro vultos na câmara paterna

Eram. O pai sentado,

Calado e triste. Reclinada a fronte

No espaldar da cadeira, a filha os olhos

E o rosto esconde, mas tremor contínuo

De um abafado soluçar o esbelto

Corpo lhe agita. Nuno aos dois se chega;

Ia a falar, quando a formosa virgem,

Os lacrimosos olhos levantando,

Um grito solta do íntimo do peito

E se lhe prostra aos pés: “Oh! vivo, és vivo!

Inda bem... Mas o céu, que por nós vela,

Aqui te envia... Salva-o tu, se podes,

Salva meu pobre pai!” Estremecendo

(continua...)

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