Por Machado de Assis (1875)
Fora em horas de paz e de silêncio
Levado ao leito extremo e eterno. Vive
Ao menos tu...”
XVI
Um familiar lhe corta
O adeus último: “Vamos: é já tempo!”
Resignado o infeliz, ao seio aperta
A filha, e todo o coração num beijo
Lhe transmitiu, e a caminhar começa.
Ângela os lindos braços sobre os ombros
Trava do austero pai; flores disséreis
De parasita, que enroscou seus ramos
Pelo cansado tronco, estéril, seco
De árvore antiga: “Nunca! Hão de primeiro
A alma arrancar-me! Ou se heis pecado, e a morte
Pena há de ser da cometida culpa,
Convosco descerei à campa fria,
Juntos a mergulhar na eternidade.
Israel tem vertido
Uma mar de sangue. Embora! à tona dele
Verdeja a nossa fé20, a fé que anima
O eleito povo, flor suave e bela
Que o medo não desfolha, nem já seca
Ao vento mau da cólera dos homens!”
XVII
Trêmula a voz do peito lhe saía.
Das mãos lhe trava um dos algozes. Ela
Entrega-se risonha,
Como se o cálix da amargura extrema
Pelos meles da vida lhe trocassem
Celeste e eterna. O coração do moço
Latejava de espanto e susto. Os olhos
Pousa na filha o desvairado velho.
Que ouviu? — Atenta nela; o lindo rosto
O céu não busca jubiloso e livre,
Antes, como travado de agra pena,
Pende-lhe agora ao chão. Dizia acaso
Entre si mesma uma oração, e o nome
De Jesus repetia, mas tão baixo,
Que o coração do pai mal pôde ouvir-lho.
Mas ouviu-lho; e tão forte amor, tamanho
Sacrifício da vida a alma lhe rasga
E deslumbra. Escoou-se um breve tempo
De silêncio; ele e ela, os triste noivos,
Como se a eterna noite os recebera,
Gelados eram; levantar não ousam
Um para o outro os arrasados olhos
De mal contidas e teimosas lágrimas.
XVIII
Nuno enfim, lentamente e a custo arranca
Do coração estas palavras: “Fora
Misericórdia ao menos confessá-lo
Quando ao fogo do bárbaro inimigo
Me era fácil deixar o derradeiro
Sopro da vida. Prêmio é este acaso
De tamanho lidar? Que mal te hei feito,
Porque me dês tão bárbara e medonha
Morte, como esta, em que o cadáver guarda
Inteiro o pensamento, inteiro o aspecto
Da vida que fugiu?” Ângela os olhos
Magoados ergue; arfa-lhe o peito aflito,
Como o dorso da vaga que intumesce
A asa da tempestade. “Adeus!” suspira
E a fronte abriga no paterno seio.
XIX
O rebelde ancião, domado entanto,
Afracar-se-lhe sente dentro d’alma
O sentimento velho que bebera
Com o leite dos seus; e sem que o lábio
Transmita a ouvidos de homem
O duvidar do coração, murmura
Dentro de si: “Tão poderosa é essa
Ingênua fé, que inda negando o nome
Do seu Deus, confiada aceita a morte,
E guarda puro o sentimento interno
Com que o véu rasgará da eternidade?
Ó Nazareno, ó filho do mistério,
Se é tua lei a única da vida
Escreve-ma no peito; e dá que eu veja
Morrer comigo a filha de meus olhos
E unidos irmos, pela porta imensa
Do teu perdão, à eternidade tua!”
XX
Mergulhara de todo o sol no ocaso,
E a noite, clara, deliciosa e bela,
A cidade cobriu — não sossegada,
Como costuma — porém leda e viva,
Cheia de luz, de cantos e rumores,
Vitoriosa enfim. Eles, calados,
Foram por entre a multidão alegre,
A penetrar o cárcere sombrio.
Donde ao mar passarão, que os leve às praias
Da ancião Europa. Carregado o rosto,
Ia o pai; ela, não. Serena e meiga,
Entra afoita o caminho da amargura,
A custo sofreando internas mágoas
Da amarga vida, breve flor como ela,
Que inda mais breve a mente lhe afigura.
Anjo, descera da região celeste
A pairar sobre o abismo; anjo, subia
De novo à esfera luminosa e eterna,
Pátria sua. Levar-lhe-á Deus em conta
O muito amor e o padecer extremo,
Quando romper a túnica da vida
E o silêncio imortal fechar seus lábios.
ASSIS, Machado de. A cristã-nova. In: ASSIS, Machado de. Americanas. Rio de Janeiro: Garnier, 1875.