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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Potira

Por Machado de Assis (1875)

Silenciosa e triste em que se passa

Da curva rede à fria sepultura.

Meigas aves que vão de um clima a outro

Abrem placidamente as asas leves,

Não tu, guerreiro, que encaraste a morte,

Tu combate! Vencido e vencedores

Derradeiros escárnios se arremessam;

Gritos, injúrias, convulsões de raiva,

Vivo clamor acorda os longos ecos

Das penedias próximas. A clava

Do executor girou no ar três vezes

E de leve caiu na grossa espádua

Do arquejante cativo. Já na boca,

Que o desprezo e o furor num riso entreabrem,

Orla de espuma alveja. Avança, corre,

Estaca... Não lhe dá mais amplo espaço

A muçurana, cujas pontas tiram

Dois mancebos robustos. Nas cavernas

Do longo peito lhe murmura o ódio,

Surdo, como o rumor da terra inquieta,

Pejada de vulcões. Os lábios morde,

E, como derradeira injúria, à face

Do executor lhe cospe espuma e sangue.

Não vibra o arco mais veloz o tiro,

Nem mais segura no aterrado cervo

Feroz sucuriúba os nós enrosca,

Do que a pesada, enorme tagapema

A cabeça de um golpe lhe esmigalha.

Cai fulminada a vítima na terra,

E alegre o povo longamente aplaude.

XII

Na voz universal perdeu-se um grito

De piedade e terror: tão fundo entrara

Naquela alma roubada à noite escura

Raio de sol cristão! Potira foge,

Pelos bosques atônita se entranha

E pára à margem de um pequeno rio;

Pousa na relva os trêmulos joelhos

E nas mimosas mãos esconde o rosto.

Não de lágrimas era aquele sítio

Ou só de doces lágrimas choradas

De olhos que amor venceu: — macia relva,

Leito de sesta a amores fugitivos.

Da verde, rara abóbada de folhas

Tépida e doce a luz coava a frouxo

Do sol, que além das árvores tranqüilo,

Metade da jornada ia transpondo.

Longe era ainda a hora melancólica

Em que a jurema cerra a miúda folha,

E o lume azul o pirilampo acende.

De pé, a um velho tronco descoroado

Da copada ramagem, resto apenas,

Vestígio do tufão, a indiana moça

Languidamente encosta o esbelto corpo.

Neste ameno recesso tudo é triste,

Porque é alegre tudo. Não mui longe

Um desfolhado ipê conserva e guarda

Flores que lhe ficaram de outro estio,

Como esperança de folhagem nova,

Flores que a desventura lhe há negado,

A ela, alma esquecida nesta terra,

Que nada espera da estação vindoura.

Olha, e de inveja o coração lhe estala;

Pelo tronco das árvores se enroscam

Parasitas, esposas do arvoredo,

Mais fiéis não, mais venturosas que ela.

Morrer? Descanso fora as mágoas suas,

Mais que descanso, perdurável gozo,

Que a nossa eterna pátria aos infelizes

Deste desterro, guarda alvas capelas

De não-murchandas e cheirosas flores.

Tal lhe falava no íntimo do peito

Desespero cruel. Alguns instantes

Pela cansada mente lhe vagaram

De voluntária, abreviada morte

Lutuosas idéias. Mal compreende

Esses desmaios da criatura humana

Quem não sentiu no coração rasgado

Abatimento e enojo; ou, do mais que isto,

Esse contraste imenso e irreparável

Do amor interno e a solidão da vida.

Rápido espaço foi. Pronto lhe volve

Doce resignação, cristã virtude,

Que desafia e que assoberba os males.

As débeis mãos levanta. Já dos lábios

Solta nas asas de oração singela

Lástimas suas... Na folhagem seca

Ouve de cautos pés rumor sumido

Volve a cabeça...

XIII

Trêmulo, calado,

Anagê crava nela os olhos turvos

Dos vapores da festa. As mãos inermes

Lhe pendem; mas o peito — ó mísera! — esse,

Esse de mal contido amor transborda.

Longo instante passou. Ao fim: “Deixaste

A festa nossa (o bárbaro murmura);

Misteriosa vieste. Dos guerreiros

Nenhum te viu; mas eu senti teus passos,

E vim contigo ao ermo. Ave mesquinha,

Inútil foges; gavião te espreita7,

Minha te fez Tupã.” Em pé, sorrindo

Escutava Potira a voz severa

De Anagê. Breve espaço abria entre ambos

Alcatifado chão. A fatal hora

Chegara ao fim? Não o prescruta a moça;

Tudo aceita das mãos do seu destino,

Tudo, exceto... No próximo arvoredo

Ouve de uma ave o pio melancólico;

Era a voz de seu pai? a voz do esposo?

De ambos talvez. No ânimo da escrava

Restos havia dessa crença antiga

Antiga e sempre nova: o peito humano

Raro de obscuros elos se liberta.

XIV

(continua...)

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