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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

A cristã-nova

Por Machado de Assis (1875)

E toda se espreguiça a natureza.

Alva neblina que espalhara a noite

Frouxamente nos ares se dissolve,

Como de uns olhos tristes

Foge co’o tempo a já ligeira sombra

De consoladas mágoas. Vida é tudo,

E pompa e graça natural da terra,

Mas que não seja no ermo,

Onde seus olhos rútilos espraia

Livres a aurora, sem tocar vestígios

De obras caducas do homem, onde as águas

Do rio bebe a fugitiva corça,

Vivo aroma nos ares se difunde,

E aves, e aves de infinitas cores

Voando vão e revoando tornam,

Inda senhoras da amplidão que é sua,

Donde as há de fugir o homem um dia

Quando a agreste soidão entrar o passo

Criador que derruba. Já de todo

Nado era o sol; e à viva luz que inunda

Estes meus pátrios morros e estas praias,

Sorrindo a terra moça

Noiva parece que o virgíneo seio

Entrega ao beijo nupcial do amado.

E há de os fúnebres véus lançar a morte

Na verdura do campo? A natureza

A nota vibrará da extrema angústia

Neste festivo cântico de graças

Ao sol que nasce, ao Criador que o envia,

Como renovação de juventude?

II

Coava o sol pela miúda e fina

Gelosia da alcova em que se apresta

A recente cristã. Singelas roupas

Traja da ingênua cor que a natureza

Pintou nas plumas que primeiro brota

O seu pátrio guará. Vínculo frouxo

Mal lhe segura a luzidia trança,

Como ao desdém lançada

Sobre a espádua gentil. Jóia nenhuma,

Mais que seus olhos meigos, e essa doce

Modéstia natural, encanto, enlevo,

Casta flor que aborrece os mimos do horto,

E ama livre nascer no campo, à larga,

Rústica, mas formosa. Não lhe ensombram

As tristezas da véspera o semblante,

Nem da secreta lágrima na face

Ficou vestígio. — Descuidosa e alegre,

Ri-se, murmura uma cantiga, ou pensa,

E repete baixinho um nome... Oh! se ele

Espreitá-la pudesse ali risonha,

A sós consigo, entre o seu Cristo e as flores

Colhidas ao tombar da extinta noite,

E vicejantes inda!

III

De repente,

Aos ouvidos da moça enamorada

Chega um surdo rumor de soltas vozes,

Que ora crescendo vai, ora se apaga,

Estranho, desusado. Eram... São eles,

Os franceses, que vêm de longes praias

A cobiçar a pérola mimosa,

Niterói, na alva-azul concha nascida

De suas águas recatadas. Rege

O atrevido Duclerc a flor dos nobres,

Cuja tez branca requeimara o fogo

Que o vivo sol dos trópicos dardeja,

E as lufadas dos ventos do oceano.

Cobiçam-te eles, minha terra amada,

Como quando nas faixas sempre-verdes

Eras envolta; e rude, inda que belo,

O aspecto havias que poliu mais tarde

A clara mão do tempo. Inda repetem

Os ecos do recôncavo os suspiros

Dos que vieram a buscar a morte,

E a receberam dos varões possantes

Companheiros de Estácio. A todos eles,

Prole de Luso ou geração da Gália,

Cativara-os a naiade escondida,

E o sol os viu travados nessa longa

E sangrenta porfia, cujo prêmio

Era teu verde, cândido regaço.

Triunfara o trabuco lusitano

Naquele extinto século. Vencido,

O pavilhão francês volvera à pátria,

Pela água arrastando o longo crepe

De suas tristes, mortas esperanças,

Que vento novo o desfraldou nos ares?

IV

Ângela ouvira as vozes da cidade,

As vozes do furor. Já receosa,

Trêmula, foge à alcova e se encaminha

À câmara paterna. Ia transpondo

A franqueada porta... e pára. O peito

Rompe-lho quase o coração — tamanho

É o palpitar, um palpitar de gosto,

De surpresa e de susto. Aqueles olhos,

Aquela graça máscula do gesto,

Graça e olhos são dele, o amado noivo,

Que entre os mais homens elegeu sua alma

Para o vínculo eterno... Sim, que a morte

Pode arrancar ao seio humano o alento

Último e derradeiro; os que deveras

Unidos foram, volverão unidos

A mergulhar na eternidade. Estava

Junto do velho pai o gentil moço,

Ele todo agitado, o ancião sombrio,

Calados ambos. A atitude de ambos,

O misterioso, gélido silêncio,

Mais que tudo, a presença nunca usada

Daquele homem ali, que mal a espreita

De longe e a furto, nos instantes breves

Em que lhe é dado vê-la, tudo à moça

O ânimo abala e o coração enfia.

V

Mas o tropel de fora avulta e cresce

E os três acorda. A virgem, lentamente,

(continua...)

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