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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Potira

Por Machado de Assis (1875)

Pelo vento dos séculos levado,

Vidente e cego, o máximo dos seres,

Que fora do homem nesta escassa terra,

Se ao mistério da vida lhe não desses,

Ó Cristo, a eterna chave da esperança?

Filosofia estóica, árdua virtude,

Criação de homem, tudo passa e expira.

Tu só, filha de Deus, palavra amiga,

Tu, suavíssima voz da eternidade,

Tu perduras, tu vales, tu confortas.

Nesta sonho iriado de outros sonhos,

Vários como as feições da natureza,

Neste confusa agitação da vida,

Que alma transpõe a derradeira idade

Farta de algumas passageiras glórias?

Torvo é o ar do sepulcro; ali não viçam

Essas cansadas rosas da existência

Que às vezes tantas lágrimas nos custam,

E tantas mais antes do ocaso expiram.

Flor do Evangelho, núncia de alvos dias,

Esperança cristã, não te há murchado

O vento árido e seco; és tu viçosa

Quando as da terra lânguidas inclinam

O seio, e a vida lentamente exalam.

Esta a consolação última e doce

Da esposa indiana foi. Cativa ou morta,

Antevia a celeste recompensa

Que aos humildes reserva a mão do Eterno.

Naquele rude coração das brenhas

A semente evangélica brotara.

VIII

Das duas condições deu-lhe o guerreiro

A pior — fê-la escrava; e ei-la aparece

Da sua aldeia aos olhos espantados

Qual fora em dias de melhor ventura.

Despida vem das roupas que lhe há posto

Sobre as polidas formas uso estranho,

Não sabido jamais daqueles povos

Que a natureza ingênua doutrinara.

Vence na gentileza às mais da tribo,

E tem de sobra um sentimento novo,

Pudor de esposa e de cristã — realce

Que ao índio acende a natural volúpia.

Simulada alegria lhe descerra

Os lábios; riso à flor, escasso e dúbio,

Que mal lhe encobre as vergonhosas mágoas.

À voz de seu senhor acorre humilde;

Não a assusta o labor; nem dos perigos

Conhece os medos. Nas ruidosas festas,

Quando ferve o cauim,4 e o ar atroa

Pocema de alegria ou de combate,

Como que se lhe fecha a flor do rosto.

Já lhe descai então no seio opresso

A graciosa fronte; os olhos fecha,

E ao céu voltando o pensamento puro,

Menos por si, que pelos outros, pede.

Nem só o ardor da fé lhe abrasa o peito;

Lacera-lho também agra saudade;

Chora a separação do amado esposo,

Que, ou cedo a esquece, ou solitário geme.

Se, alguma vez, fugindo a estranhos olhos,

Não já cruéis, mas cobiçosos dela,

Entra desatinada o bosque antigo,

Co’o doce nome acorda ao longe os ecos,

E a dor expande em lôbregos soluços,

Farta de amor e pródiga de vida,

Ouve-as a selva, e não lhe entende as mágoas.

Outras vezes pisando a ruiva areia

Das praias, ou galgando a penedia

Cujos pés orla o mar de nívea espuma,

As ondas murmurantes interroga:

Conta ao vento da noite as dores suas;

Mas... fiéis ao destino e à lei que as rege,

As preguiçosas ondas vão caminho,

Crespas do vento que sussurra e passa.

IX

Quando, ao sol da manhã, partem às vezes,

Com seus arcos, os destros caçadores,

E alguns da rija estaca desatando

Os nós de embira às rápidas igaras,

À pesca vão pelas ribeiras próximas,

Das esposas, das mães que os lares velam,

Grata alegria os corações inunda,

Menos o dela, que suspira e geme,

E não aguarda doce esposo ou filho.

Triste os vê na partida e no regresso,

E nessa melancólica postura,

Semelha a acácia langue e esmorecida,

Que já de orvalho ou sol não pede os beijos.

As outras... — Raro em lábios de felizes

Alheias mágoas travam. Não se pejam

De seus olhos azuis e alegres penas

Os saís sobre as árvores pousados,

Se ao perto voa na campina verde

De anuns lutuoso bando; nem os trilos

Das andorinhas interrompe a nota

Que a juriti suspira. — As outras folgam

Pelo arraial dispersas; vão-se à terra

Arrancar as raízes nutritivas,

E fazem os preparos do banquete

A que hão de vir mais tarde os destemidos

Senhores do arco, alegres vencedores

De quanto vive na água e na floresta.

Da cativa nenhuma inquire as mágoas.

Contudo, algumas vezes, curiosas

Virgens lhe dizem, apiedando o gesto:

— “Pois que à taba voltaste, em que teus olhos

Primeiro viram luz, que mágoa funda

Lhes destila tão longo e amargo pranto,

Amargo mais do que esse que não busca

(continua...)

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