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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Potira

Por Machado de Assis (1875)

E a dor expande em lôbregos soluços,

Farta de amor e pródiga de vida,

Ouve-as a selva, e não lhe entende as mágoas.

Outras vezes pisando a ruiva areia

Das praias, ou galgando a penedia

Cujos pés orla o mar de nívea espuma,

As ondas murmurantes interroga:

Conta ao vento da noite as dores suas;

Mas... fiéis ao destino e à lei que as rege,

As preguiçosas ondas vão caminho,

Crespas do vento que sussurra e passa.

IX

Quando, ao sol da manhã, partem às vezes,

Com seus arcos, os destros caçadores,

E alguns da rija estaca desatando

Os nós de embira às rápidas igaras,

À pesca vão pelas ribeiras próximas,

Das esposas, das mães que os lares velam,

Grata alegria os corações inunda,

Menos o dela, que suspira e geme,

E não aguarda doce esposo ou filho.

Triste os vê na partida e no regresso,

E nessa melancólica postura,

Semelha a acácia langue e esmorecida,

Que já de orvalho ou sol não pede os beijos.

As outras... — Raro em lábios de felizes

Alheias mágoas travam. Não se pejam

De seus olhos azuis e alegres penas

Os saís sobre as árvores pousados,

Se ao perto voa na campina verde

De anuns lutuoso bando; nem os trilos

Das andorinhas interrompe a nota

Que a juriti suspira. — As outras folgam

Pelo arraial dispersas; vão-se à terra

Arrancar as raízes nutritivas,

E fazem os preparos do banquete

A que hão de vir mais tarde os destemidos

Senhores do arco, alegres vencedores

De quanto vive na água e na floresta.

Da cativa nenhuma inquire as mágoas.

Contudo, algumas vezes, curiosas

Virgens lhe dizem, apiedando o gesto:

— “Pois que à taba voltaste, em que teus olhos

Primeiro viram luz, que mágoa funda

Lhes destila tão longo e amargo pranto,

Amargo mais do que esse que não busca

Recatado silêncio?” — E às doces vozes

A cristã desterrada assim responde:

— “Potira é como aquela flor que chora

Lágrimas de alvo leite, se do galho

Mão cruel a cortou. Oh! não permita

O céu que ímpia fortuna vos separe

Daquele que escolherdes. Dor é essa

Maior que um pobre coração de esposa.

Esperanças... Deixei-as nessas águas

Que me trouxeram, cúmplices do crime,

À taba de Tupã, não alumiada

Da palavra celeste. Algumas vezes,

Raras, alveja em minha noite escura

Não sei que tíbia aurora, e penso: Acaso

O sol que vem me guarda um raio amigo,

Que há de acender nestes cansados olhos

Ventura que já foi. As asas colhe

Guanumbi, e o aguçado bico embebe

No tronco, onde repousa adormecido

Até que volte uma estação de flores..

Ventura imita o guanumbi dos campos:

Acordará co’as flores de outros dias.

Doce ilusão que rápido se escoa,

Como o pingo de orvalho mal fechado

Numa folha que o vento agita e entorna.”

E as virgens dizem, apiedando o gesto:

— “Potira é como aquela flor que chora

Lágrimas de alvo leite, se do galho

Mão cruel a cortou!”

X

Era chegado

O fatal prazo, o desenlace triste.

Tudo morre — a tristeza como o gozo;

Rosas de amor ou lírios de saudade,

Tarde ou cedo os esfolha a mão do tempo.

Costeando as longas praias, ou transpondo

Extensos vales e montanhas, correm

Mensageiros que às tabas mais vizinhas

Vão convidar à festa as gentes todas.

Era a festa da morte. Índio guerreiro,

Três luas há cativo, o instante aguarda

Em que às mãos de inimigos vencedores,

Caia expirante, e os vínculos rompendo

Da vida, a alma remonte além dos Andes.

Corre de boca em boca e de eco em eco

A alegre nova. Vem descendo os montes,

Ou abicando às povoadas praias

Gente da raça ilustre. A onda imensa

Pelo arraial se estende pressurosa.

De quantas cores natureza fértil

Tinge as próprias feições, copiam eles

Engraçadas, vistosas louçanias.

Vários na idade são, vários no aspecto,

Todos iguais e irmãos no herdado brio.

Dado o amplexo de amigo, acompanhado

De suspiros e pêsames sinceros

Pelas fadigas da viagem longa,

Rompem ruidosas danças. Ao tamoio

Deu o Ibaque os segredos da poesia;

Cantos festivos, moduladas vozes,

Enchem os ares, celebrando a festa

Do sacrifício próximo. Ah! não cubra

Véu de nojo ou tristeza o rosto aos filhos

Destes polidos tempos! Rudes eram

Aqueles homens de ásperos costumes,

Que ante o sangue de irmãos folgavam livres,

E nós, soberbos filhos de outra idade,

Que a voz falamos da razão severa

E na luz nos banhamos do Calvário,

Que somos nós mais que eles? Raça triste

De Cains, raça eterna...

XI

Os cantos cessam.

Calou-se o maracá. As roucas vozes

Dos férvidos guerreiros já reclamam

O brutal sacrifício. Às mãos das servas

A taça do cauim passara exausta.

Inquieto aguarda o prisioneiro a morte.

Da nação guaianás nos rudes campos

Nasceu. Nos campos da saudosa pátria

Industriosa mão não sabe ainda

Alevantar as tabas. Cova funda

Da terra, mãe comum6, no seio aberta,

Os acolhe e protege. O chão lhes forra

A pele do tapir; contínua chama

Lhes supre a luz do sol. É uso antigo

Do guaianás que chega a extrema idade,

Ou de mortal doença acometido,

Não expirar aos olhos de outros homens;

Vivo o guardam no bojo da igaçaba,

E à fria terra o dão, como se fora

Pasto melhor (melhor!) aos frios vermes.

Do almo, doce licor que extrai das flores

Mãe do mel, iramaia, larga cópia

Pelos robustos membros lhe coaram

Seis anciãs da tribo. Rubras penas

Na vasta fronte e nos nervosos braços

Garridamente o enfeitam. Longa e forte

(continua...)

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