Por Machado de Assis (1875)
— Estou falando muito sério. O remédio não é novo nem desprezível. Todas as semanas lá vão muitos enfermos, e dão-se bem alguns deles. É um específico inventado desde muitos séculos e que provavelmente só acabará no último dia do mundo. Pela minha parte nada mais tenho que fazer.
Quando a viuvinha menos esperava, Avelar levantou-se e saiu. Falava sério ou gracejava? Dois dias se passaram sem que o médico voltasse. A doente estava triste; a tia aflita; houve idéia de mandar chamar outro médico. Recusou-a a doente. — Então só um médico acertou com a tua moléstia?
— Talvez.
No fim de três dias recebeu a viúva Lemos uma carta do médico.
Abriu-a.
Dizia assim:
É absolutamente impossível esconder por mais tempo o que sinto por V. Excia. Amo-a. Sua moléstia precisa de uma última receita, verdadeiro remédio para quem ama — sim, porque V. Excia. também me ama. Que razão obrigaria a negá-lo?
Se a sua resposta for afirmativa haverá mais dois entes felizes neste mundo. Se negativa...
Adeus!
A carta foi lida com explosão de entusiasmo; o médico foi chamado a toda a pressa, para receber e dar saúde. Casaram-se os dois daí a quarenta dias.
Tal é a história da Última receita.
Baixar texto completo (.txt)Caroline Alves em 12/11/2025