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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

A cristã-nova

Por Machado de Assis (1875)

Jerusalém! Oh! quem lhe dera os dias

Da passada grandeza, quando a planta

Da senhora das gentes sobre o peito

Pousava dos vencidos, quando o nome

Do que há salvo Israel, Moisés...”

“— Não! Cristo,

Filho de Deus! Só ele há salvo os homens!”

Isto dizendo, a delicada virgem

As mãos postas ergueu. Uma palavra

Não disse mais; no coração, entanto,

Murmurava uma prece silenciosa,

Ardente e viva, como a fé que a anima

Ou como a luz da alâmpada

A que não faltou óleo.

VIII

Taciturno

Esteve longo tempo o ancião. Aquela

Alma infeliz nem toda era de Cristo

Nem toda de Moisés; ouvia atento

A palavra da Lei, como nos dias

Do eleito povo; mas a doce nota

Do Evangelho não raro lhe batia

No alvoroçado peito

Soleníssima e pura... Descambava

No entanto a lua. A noite era mais linda,

E mais augusta a solidão. Na alcova

Entre a pálida moça. Da parede

Um Cristo pende; ela os joelhos dobra

Os dedos cruza e reza — não serena,

Nem alegre também, como costuma,

Mas a tremer-lhe nos formosos olhos

Uma lágrima.

IX

A lâmpada acendida

Sobre a mesa do velho, as largas folhas

Alumia de um livro. O máximo era

Dos livros todos. A escolhida lauda

Era a do canto dos cativos que iam

Pela ribas do Eufrates, relembrando

As desgraças da pátria. A sós, com eles,

Suspira o velho aquele salmo antigo:

Junto os rios da terra amaldiçoada

De Babilônia, um dia nos sentamos,

Com saudades de Sião amada.

As harpas nos salgueiros penduramos,

E ao relembrarmos os extintos dias

As lágrimas dos olhos desatamos.

Os que nos davam cruas agonias

De cativeiro, ali nos perguntavam

Pelas nossas antigas harmonias.

E dizíamos nós aos que falavam:

Como em terra de exílio amargo e duro

Cantar os hinos que ao Senhor louvavam?...

Jerusalém, se inda num sol futuro,

Eu desviar de ti meu pensamento

E teu nome entregar a olvido escuro,

A minha destra a frio esquecimento

Votada seja; apegue-se à garganta

Esta língua infiel, se um só momento

Me não lembrar de ti, se a grande e santa

Jerusalém não for minha alegria

Melhor no meio de miséria tanta.

Oh! lembra-lhes, Senhor, aquele dia

Da abatida Sião, lembra-lhos aos duros

Filhos de Edom, e à voz que ali dizia:*

Arruinai-a, arruinai-a; os muros

Arrasemo-los todos; só lhe baste

Um montão de destroços mal-seguros.

Filha de Babilônia, que pecaste,

Abençoado o que se houver contigo

Com a mesma opressão que nos mostraste!

Abençoado o bárbaro inimigo

Que os tenros filhos teus às mãos tomando,

Os for, por teu justíssimo castigo,

Contra um duro penedo esmigalhando!



PARTE II

I

Era naquela doce e amável hora

Em que vem branqueando a alva celeste,

Quando parece que remoça a vida

E toda se espreguiça a natureza.

Alva neblina que espalhara a noite

Frouxamente nos ares se dissolve,

Como de uns olhos tristes

Foge co’o tempo a já ligeira sombra

De consoladas mágoas. Vida é tudo,

E pompa e graça natural da terra,

Mas que não seja no ermo,

Onde seus olhos rútilos espraia

Livres a aurora, sem tocar vestígios

De obras caducas do homem, onde as águas

Do rio bebe a fugitiva corça,

Vivo aroma nos ares se difunde,

E aves, e aves de infinitas cores

Voando vão e revoando tornam,

Inda senhoras da amplidão que é sua,

Donde as há de fugir o homem um dia

Quando a agreste soidão entrar o passo

Criador que derruba. Já de todo

Nado era o sol; e à viva luz que inunda

Estes meus pátrios morros e estas praias,

Sorrindo a terra moça

Noiva parece que o virgíneo seio

Entrega ao beijo nupcial do amado.

E há de os fúnebres véus lançar a morte

Na verdura do campo? A natureza

A nota vibrará da extrema angústia

Neste festivo cântico de graças

Ao sol que nasce, ao Criador que o envia,

Como renovação de juventude?

II

Coava o sol pela miúda e fina

Gelosia da alcova em que se apresta

A recente cristã. Singelas roupas

Traja da ingênua cor que a natureza

Pintou nas plumas que primeiro brota

O seu pátrio guará. Vínculo frouxo

Mal lhe segura a luzidia trança,

Como ao desdém lançada

Sobre a espádua gentil. Jóia nenhuma,

Mais que seus olhos meigos, e essa doce

Modéstia natural, encanto, enlevo,

Casta flor que aborrece os mimos do horto,

E ama livre nascer no campo, à larga,

Rústica, mas formosa. Não lhe ensombram

As tristezas da véspera o semblante,

Nem da secreta lágrima na face

Ficou vestígio. — Descuidosa e alegre,

Ri-se, murmura uma cantiga, ou pensa,

E repete baixinho um nome... Oh! se ele

Espreitá-la pudesse ali risonha,

A sós consigo, entre o seu Cristo e as flores

Colhidas ao tombar da extinta noite,

E vicejantes inda!

III

De repente,

Aos ouvidos da moça enamorada

Chega um surdo rumor de soltas vozes,

Que ora crescendo vai, ora se apaga,

Estranho, desusado. Eram... São eles,

Os franceses, que vêm de longes praias

A cobiçar a pérola mimosa,

Niterói, na alva-azul concha nascida

De suas águas recatadas. Rege

O atrevido Duclerc a flor dos nobres,

Cuja tez branca requeimara o fogo

Que o vivo sol dos trópicos dardeja,

E as lufadas dos ventos do oceano.

Cobiçam-te eles, minha terra amada,

Como quando nas faixas sempre-verdes

Eras envolta; e rude, inda que belo,

O aspecto havias que poliu mais tarde

A clara mão do tempo. Inda repetem

Os ecos do recôncavo os suspiros

Dos que vieram a buscar a morte,

E a receberam dos varões possantes

(continua...)

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