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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

A cristã-nova

Por Machado de Assis (1875)

Formosa, oh! quão formosa a terra minha!

Dizei: além desses compridos serros,

Além daquele mar, à orla de outros,

Outras como esta vivem?”

VII

Fresca e pura

Era-lhe a voz, voz d’alma que sabia

Entrar no coração paterno. A fronte

Inclina o velho sobre o rosto amado

De Ângela. — Na cabeça ósculo santo

Imprime à filha; e suspirando, os olhos

Melancolicamente ao ar levanta,

Desce-os e assim murmura:

“Vaso é digno de ti, lírio dos vales,

Terra solene e bela. A natureza

Aqui pomposa, compassiva e grande,

No regaço recebe a alma que chora

E o coração que túmido suspira.

Contudo, a sombra pesarosa e errante

Do povo que acabou pranteia ainda

Ao longo das areias,

Onde o mar bate, ou no cerrado bosque

Inda povoado das relíquias suas,

Que o nome de Tupã confessar podem

No próprio templo augusto. Última e forte

Consolação é esta do vencido

Que viu tudo perder-se no passado,

E único salva do naufrágio imenso

O seu Deus. Pátria não. Uma há na terra

Que eu nunca vi... Hoje é ruína tudo,

E viuvez e morte. Um tempo, entanto,

Bela e forte ela foi; mas longe, longe

Os dias vão de fortaleza e glória

Escoados de todo como as águas

Que não volvem jamais. Óleo que a unge,

Finas telas que a vestem, atavios

De ouro e prata que o colo e os braços lhe ornam,

E a flor de trigo e mel de que se nutre,

Sonhos, são sonhos do profeta. É morta

Jerusalém! Oh! quem lhe dera os dias

Da passada grandeza, quando a planta

Da senhora das gentes sobre o peito

Pousava dos vencidos, quando o nome

Do que há salvo Israel, Moisés...”

“— Não! Cristo,

Filho de Deus! Só ele há salvo os homens!”

Isto dizendo, a delicada virgem

As mãos postas ergueu. Uma palavra

Não disse mais; no coração, entanto,

Murmurava uma prece silenciosa,

Ardente e viva, como a fé que a anima

Ou como a luz da alâmpada

A que não faltou óleo.

VIII

Taciturno

Esteve longo tempo o ancião. Aquela

Alma infeliz nem toda era de Cristo

Nem toda de Moisés; ouvia atento

A palavra da Lei, como nos dias

Do eleito povo; mas a doce nota

Do Evangelho não raro lhe batia

No alvoroçado peito

Soleníssima e pura... Descambava

No entanto a lua. A noite era mais linda,

E mais augusta a solidão. Na alcova

Entre a pálida moça. Da parede

Um Cristo pende; ela os joelhos dobra

Os dedos cruza e reza — não serena,

Nem alegre também, como costuma,

Mas a tremer-lhe nos formosos olhos

Uma lágrima.

IX

A lâmpada acendida

Sobre a mesa do velho, as largas folhas

Alumia de um livro. O máximo era

Dos livros todos. A escolhida lauda

Era a do canto dos cativos que iam

Pela ribas do Eufrates, relembrando

As desgraças da pátria. A sós, com eles,

Suspira o velho aquele salmo antigo:

Junto os rios da terra amaldiçoada

De Babilônia, um dia nos sentamos,

Com saudades de Sião amada.

As harpas nos salgueiros penduramos,

E ao relembrarmos os extintos dias

As lágrimas dos olhos desatamos.

Os que nos davam cruas agonias

De cativeiro, ali nos perguntavam

Pelas nossas antigas harmonias.

E dizíamos nós aos que falavam:

Como em terra de exílio amargo e duro

Cantar os hinos que ao Senhor louvavam?...

Jerusalém, se inda num sol futuro,

Eu desviar de ti meu pensamento

E teu nome entregar a olvido escuro,

A minha destra a frio esquecimento

Votada seja; apegue-se à garganta

Esta língua infiel, se um só momento

Me não lembrar de ti, se a grande e santa

Jerusalém não for minha alegria

Melhor no meio de miséria tanta.

Oh! lembra-lhes, Senhor, aquele dia

Da abatida Sião, lembra-lhos aos duros

Filhos de Edom, e à voz que ali dizia:*

Arruinai-a, arruinai-a; os muros

Arrasemo-los todos; só lhe baste

Um montão de destroços mal-seguros.

Filha de Babilônia, que pecaste,

Abençoado o que se houver contigo

Com a mesma opressão que nos mostraste!

Abençoado o bárbaro inimigo

Que os tenros filhos teus às mãos tomando,

Os for, por teu justíssimo castigo,

Contra um duro penedo esmigalhando!



PARTE II

I

Era naquela doce e amável hora

Em que vem branqueando a alva celeste,

Quando parece que remoça a vida

(continua...)

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