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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Potira

Por Machado de Assis (1875)

Ante o fulgor das armas inimigas

Não descora o tamoio. Assaz lhe pulsa

Valor nativo e raro em peito livre.

Armas, deu-lhas Tupã novas e eternas

Nestas matas vastíssimas. De sangue

Estranhos rios hão de, ao mar correndo,

Tristes novas levar à pátria deles,

Primeiro que o tamoio a frente incline

Aos inimigos peitos. Outra força,

Outra e maior nos move a guerra crua;

São eles, são os padres. Esses mostram

Cheia de riso a boca e o mel nas vozes,

Sereno o rosto e as brancas mãos inermes;

Ordens não trazem de cacique estranho,

Tudo nos levam, tudo. Uma por uma

As filhas de Tupã correm trás eles,

Com elas os guerreiros, e com todos

A nossa antiga fé. Vem perto o dia

Em que, na imensidão destes desertos,

Há de ao frio luar das longas noites

O pajé suspirar sozinho e triste

Sem povo nem Tupã!”

VI

Silenciosas

Lágrimas lhe espremeu dos olhos negros

Esta lembrança de futuros males.

“— Escuta!” diz Potira. O índio estende

imperioso as mãos e assim prossegue:

“— Também com eles foste, e foi contigo

Da minha vida a flor! Teu pai mandara,

E com ele mandou Tupã que eu fosse

Teu esposo; vedou-mo a voz dos padres,

Que me perdeu, levando-te consigo.

Não morri; vivi só para esta afronta;

Vivi para esta insólita tristeza

De maldizer teu nome e as graças tuas,

Chorar-te a vida e desejar-te a morte.

Ai! nos rudes combates em que a tribo

Rega de sangue o chão da virgem terra

Ou tinge a flor do mar, nunca a meu lado

Teu nobre vulto esteve. A aldeia toda,

Mais que o teu coração, ficou deserta.

Duas vezes, mimosas rebentaram

Do lacrimoso cajueiro as flores,

Desde o dia funesto em que deixaste

A cabana paterna. O extremo lume

Expirou de teu pai nos olhos tristes;

Piedosa chama consumiu seus restos

E a aldeia toda o lastimou com prantos.

Não de todo se foi da nossa vida;

Parte ficou para sentir teus males.

Antes que o último sol à melindrosa

Flor do maracujá cerrasse as folhas

Um sonho tive. Merencório vulto,

Triste como uma fronte de vencido,

Cor da lua os cabelos venerandos,

O vulto de teu pai”: ‘Guerreiro’ (disse),

‘corre à vizinha habitação dos brancos,

Vai, arranca Potira à lei funesta

Dos pálidos pajés; Tupã to ordena;

Nos braços traze a fugitiva corça;

Vincula o teu destino ao dela; é tua*.’

“— Impossível! Que vale um vago sonho?

Sou esposa e cristã. Ímpio, respeita

O amor que Deus protege e santifica:

Mata-me; a minha vida te pertence:

Ou, se te pesa derramar o sangue

Daquela a quem amaste, e por quem foste

Lançar entre os cristãos a dor e o susto,

Faze-me escrava; servirei contente

Enquanto a vida alumiar meus olhos.

Toma, entrego-te o sangue e a liberdade;

Ordena ou fere. Tua esposa, nunca!”

Calou-se, e reclinada sobre a rede,

Potira murmurava ignota prece,

Olhos fitos no próximo arvoredo,

VII

Ó Cristo, em que alma penetrou teu nome

Que lhe não desse o bálsamo da vida?

Pelo vento dos séculos levado,

Vidente e cego, o máximo dos seres,

Que fora do homem nesta escassa terra,

Se ao mistério da vida lhe não desses,

Ó Cristo, a eterna chave da esperança?

Filosofia estóica, árdua virtude,

Criação de homem, tudo passa e expira.

Tu só, filha de Deus, palavra amiga,

Tu, suavíssima voz da eternidade,

Tu perduras, tu vales, tu confortas.

Nesta sonho iriado de outros sonhos,

Vários como as feições da natureza,

Neste confusa agitação da vida,

Que alma transpõe a derradeira idade

Farta de algumas passageiras glórias?

Torvo é o ar do sepulcro; ali não viçam

Essas cansadas rosas da existência

Que às vezes tantas lágrimas nos custam,

E tantas mais antes do ocaso expiram.

Flor do Evangelho, núncia de alvos dias,

Esperança cristã, não te há murchado

O vento árido e seco; és tu viçosa

Quando as da terra lânguidas inclinam

O seio, e a vida lentamente exalam.

Esta a consolação última e doce

Da esposa indiana foi. Cativa ou morta,

Antevia a celeste recompensa

Que aos humildes reserva a mão do Eterno.

Naquele rude coração das brenhas

A semente evangélica brotara.

VIII

Das duas condições deu-lhe o guerreiro

A pior — fê-la escrava; e ei-la aparece

Da sua aldeia aos olhos espantados

Qual fora em dias de melhor ventura.

Despida vem das roupas que lhe há posto

Sobre as polidas formas uso estranho,

Não sabido jamais daqueles povos

Que a natureza ingênua doutrinara.

Vence na gentileza às mais da tribo,

E tem de sobra um sentimento novo,

Pudor de esposa e de cristã — realce

Que ao índio acende a natural volúpia.

Simulada alegria lhe descerra

Os lábios; riso à flor, escasso e dúbio,

Que mal lhe encobre as vergonhosas mágoas.

À voz de seu senhor acorre humilde;

Não a assusta o labor; nem dos perigos

Conhece os medos. Nas ruidosas festas,

Quando ferve o cauim,4 e o ar atroa

Pocema de alegria ou de combate,

Como que se lhe fecha a flor do rosto.

Já lhe descai então no seio opresso

A graciosa fronte; os olhos fecha,

E ao céu voltando o pensamento puro,

Menos por si, que pelos outros, pede.

Nem só o ardor da fé lhe abrasa o peito;

Lacera-lho também agra saudade;

Chora a separação do amado esposo,

Que, ou cedo a esquece, ou solitário geme.

Se, alguma vez, fugindo a estranhos olhos,

Não já cruéis, mas cobiçosos dela,

Entra desatinada o bosque antigo,

Co’o doce nome acorda ao longe os ecos,

(continua...)

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