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#Contos#Literatura Brasileira

Sem olhos

Por Machado de Assis (1876)

A luz do quarto era pouca, e esta circunstância, ligada ao espetáculo da doença e às feições do pobre velho alienado, não menos que às recordações que já me prendiam a ele, tornara a situação por extremo penosa. Sentei-me ao pé da cama e tomei-lhe o pulso; batia apressado; a testa estava quente. Ele deixou que eu fizesse todos esses exames sem dizer nada. Tinha os olhos no teto e parecia alheio de todo à minha pessoa e à situação. Pouco depois chegou o médico, soube da resistência do enfermo em continuar a tomar o remédio, examinou-o, fez um gesto de desânimo, e ao sair disse-me que o homem estava perdido.

A perspectiva não era para mim agradável. Não podia razoavelmente desampará-lo e tinha talvez de assistir à sua morte naquela noite. Chamei o criado e escrevi um bilhete a dois colegas de S. Paulo, residentes na Corte, pedindo-lhes que viessem passar a noite comigo. O criado saiu e eu sentei-me outra vez ao pé da cama.

No fim de alguns minutos, vi que Damasceno se agitava. Perguntei-lhe o que tinha.

— Nada, respondeu ele, mudo de posição. Que horas são?

— Nove e um quarto.

— E o senhor pretende passar a noite comigo?

— Naturalmente.

O rosto do enfermo iluminou-se.

— Boa alma! exclamou ele.

Depois procurou a minha mão e teve-a presa entre as suas algum tempo, olhando para mim com uma expressão de agradecimento, que lhe parecia tornar bela a fisionomia seca e dura.

— Que lhe fiz eu para merecer tanta dedicação? perguntou ele ao cabo de alguns minutos de silêncio.

— Não falemos disso.

Damasceno calou-se.

— Que idade tem?

— Vinte e dois anos.

— Feliz! feliz!

Calou-se outra vez e pareceu concentrar-se de novo. Pensei que iria dormir, mas ele voltou-se para mim dizendo:

— Quero pagar-lhe os seus benefícios.

— Pagará depois.

— Não; há de ser já.

Ergueu o corpo, apoiando o cotovelo na cama, pegou-me na mão e cravou em mim os olhos, acesos de uma luz repentina e única.

— Mancebo, disse ele, com a voz cava; não olhe nunca para a mulher do seu próximo.

— Sossegue, disse eu.

— Sobretudo não a obrigue a que ela olhe para o senhor. Comprará por esse preço a paz de sua vida toda.

A gravidade com que ele proferiu estas palavras excluía toda a idéia de loucura. A própria fisionomia parecia revelar o regresso da consciência. Olhei para ele algum tempo sem responder, nem ousar pedir-lhe explicação. Damasceno fitou o ar com expressão melancólica, abanou a cabeça três vezes e suspirou. Depois a cabeça caiu sobre o ombro, e ele ficou algum tempo quieto. Ouvindo o sino das dez horas, abriu os olhos e voltou-se para mim.

— Por quê se não vai deitar?

— Não tenho sono.

— Perder uma noite por causa de um desconhecido!

— Não se preocupe comigo; descanse, que é melhor.

Damasceno meteu a mão debaixo do travesseiro, como procurando alguma coisa. Era uma chave. Deu-ma.

— Abra-me a gavetinha da cômoda, a do lado da rua.

— E depois?

— Tire de lá uma caixinha.

A caixinha era de couro e teria um palmo de comprimento. Quando lha levei, ele pô-la sobre a cama e olhou mudo para ela. Depois, tocou em uma pequena mola; a caixa abriu-se, e ele tirou de dentro um pequeno maço de papéis.

— Se eu morrer, disse ele, queime isto.

— Feche tudo, é melhor.

— Não é preciso. O que aí está é um segredo, mas eu não quero morrer sem lho revelar. Não lhe disse há pouco que não consentisse nunca em olhar ou ser olhado pela mulher de seu próximo? Pois bem; saberá o resto.

A curiosidade pendurou-se-me dos olhos e, apesar da pouca luz da alcova, é possível que ele reparasse nisto, porque vi-o sorrir com uma expressão maliciosa e discreta.

— São papéis de família, continuou Damasceno; coisas que só a mim interessam. Há aqui, porém, uma coisa que o senhor pode ver desde já. Dizendo isto, destacou do maço de papéis uma miniatura e deu-ma pedindo que a visse. Aproximei-me da luz e vi uma formosa cabeça de mulher, e os mais expressivos olhos que jamais contemplei na minha vida. Ao restituir a miniatura reparei que ele a desviou apressadamente dos olhos metendo-a logo, com a mão trêmula, entre os papéis.

— Viu-a?

— Vi.

— Não me diga nada do que lhe parece. Imagino qual será a sua impressão. Calcule qual seria a minha há quinze anos, diante do original. Ela tinha vinte anos; e eu vinte e cinco…

Damasceno interrompeu-se; arrependia-se talvez; e eu não ousava, em tal situação, mostrar-me indiscreto e curioso. Ele entretanto atava o maço de papéis e a miniatura com um cadarço velho, e entregou-me tudo.

— Guarde. Jura que queimará isso?

— Juro.

Guardei no bolso o maço enquanto ele, reclinando o corpo, ficou tranqüilo. Durante cinco minutos nada disse; começou a murmurar palavras sem sentido, com esgares próprios de louco. Esta circunstância chamou-me à realidade. Não seriam os papéis e o retrato coisas sem valor, a que ele em seu desvario atribuía tamanha importância? Damasceno falou de novo.

— Guardou?

— Guardei.

— Deixe ver.

— Está aqui, disse-lhe eu, mostrando o embrulho.

— Está bem.

E depois de uma pausa:

— Eu era moço, ela moça; ambos inocentes e puros. Sabe o que nos matou? Um olhar.

— Um olhar?

(continua...)

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