Por Padre Antônio Vieira (1655)
O “Sermão da Sexagésima”, de Padre Antônio Vieira, foi proferido em 1655, na Capela Real de Lisboa, durante a Quaresma. Nesse contexto, Vieira critica a falta de eficácia dos pregadores e busca orientar a Igreja sobre como tornar a pregação mais convincente. O sermão discute, principalmente, as causas do fracasso da palavra de Deus e defende uma pregação clara, objetiva e fundamentada no Evangelho.
Este sermão pregou o Autor no ano de 1655, vindo da Missão do Maranhão, onde achou as dificuldades que nele se apontam, as quais vencidas, com novas ordens reais voltou logo para a mesma Missão.
Semen est Verbum Dei1
§I
O pregador evangélico será pago não só pelo que semeia como pelas distâncias que percorre, e não volta nem mesmo diante das dificuldades que a natureza lhe apresenta: as pedras, os espinhos, as aves, o homem. Cristo ordenou que se pregasse a todas as criaturas porque há homens-brutos, homens-pedras, e homenshomens. O que aconteceu com a semente do Evangelho aconteceu com os missionários do Maranhão. Não age mal o pregador que volta à busca de melhores instrumentos. Este sermão servirá de prólogo aos outros sermões quaresmais.
E se quisesse Deus que este tão ilustre e tão numeroso ouditório saísse hoje tão desenganado da pregação, como vem enganado com o pregador! Ouçamos o Evangelho, e ouçamo-lo todo, que todo é do caso que me levou e trouxe de tão longe.
Ecce exiit qui seminat, seminare: Diz Cristo que saiu o pregador evangélico a semear a palavra divina. Bem parece este texto dos livros de Deus. Não só faz menção do semear, mas faz também caso de sair: Exiit, porque no dia da messe, hão-nos de medir a semeadura e hão-nos de contar os passos. O mundo, aos que lavrais com ele, nem vos satisfaz o que despendeis, nem vos paga o que andais. Deus não é assim. Para quem lavra com Deus, até o sair é semear, porque também das passadas colhe fruto. Entre os semeadores do Evangelho, há uns que saem a semear, há outros que semeiam sem sair. Os que saem a semear, são os que vão pregar à Índia, à China, ao Japão; os que semeiam sem sair são os que se contentam com pregar na pátria. Todos terão sua razão, mas tudo tem sua conta. Aos que têm a seara em casa, pagar-lhes-ão a semeadura; aos que vão buscar a seara tão longe, hão-lhes de medir a semeadura, e hão-lhes de contar os passos. Ah! dia do juízo! Ah! pregadores! Os de cá, achar-vos-eis com mais paço, os de lá, com mais passos: Exiit seminare.
Mas daqui mesmo vejo que notais, e me notais, que diz Cristo que o semeador do Evangelho saiu, porém não diz que tornou, porque os pregadores do Evangelho, os homens que professam pregar e propagar a fé, é bem que saiam, mas não é bem que tornem. Aqueles animais de Ezequiel, que tiravam pelo carro triunfal da glória de Deus, e significavam os pregadores do Evangelho, que propriedades tinham? Nec revertebantur cum ambularent: uma vez que iam, não tornavam (Ez. 1,12). As rédeas por que se governavam, era o ímpeto do espírito, como diz o mesmo texto; mas esse espírito tinha impulsos para os levar, não tinha regresso para os trazer, porque sair para tornar, melhor é não sair. Assim argúis com muita razão, e eu também assim o digo. Mas pergunto: e se esse semeador Evangélico, quando saiu, achasse o campo tomado, se se armassem contra ele os espinhos, se se levantassem contra ele as pedras, e se lhe fechassem os caminhos, que havia de fazer? Todos estes contrários que digo, e todas estas contradições experimentou o semeador do nosso Evangelho. Começou ele a semear, diz Cristo, mas com pouca ventura. Uma parte do trigo caiu entre espinhos, e afogaram-no os espinhos: Aliud cecidit inter spinas, et sim ul exortae spinae suffocaverunt iílud. Outra parte caiu sobre as pedras, e secou-se nas pedras por falta de umidade: Aliud cecidit super petram, et natum aruil, quia non habebat humorem. Outra parte caiu no caminho, e pisaram-no os homens, e comeram-no as aves: Aliud cecidit secus viam, ei concuícatum esi, ei volucres coeli comederuni illud. Ora, vede como todas as criaturas do mundo se armaram contra esta sementeira. Todas as criaturas, quantas há no mundo, se reduzem a quatro gêneros: criaturas racionais, como os homens; criaturas sensitivas, como os animais; criaturas vegetativas, como as plantas; criaturas insensíveis, como as pedras, e não há mais. Faltou alguma destas que se não armasse contra o semeador? Nenhuma. A natureza insensível o perseguiu nas pedras; a vegetativa, nos espinhos; a sensitiva, nas aves; a racional, nos homens. E notai a desgraça do trigo, que onde só podia esperar razão, ali achou maior agravo. As pedras secaram-no, os espinhos afogaram-no, as aves comeram-no, e os homens? Pisaram-no: Concuícatum est ab hominibus, diz a glosa. Quando Cristo mandou pregar os apóstolos pelo mundo, disse-lhes desta maneira: Euntes in mundum universum, praedicate omni creaturae: Ide, e pregai a toda a criatura (Mc. 16,15). Como assim, Senhor? Os animais não são criaturas? As árvores não são criaturas? As pedras não são criaturas? Pois hão os apóstolos de pregar às pedras? Hão de pregar aos troncos? Hão de pregar aos animais? Sim, diz S. Gregório, depois de Santo Agostinho; porque, como os apóstolos iam pregar a todas as nações do mundo, muitas delas bárbaras e incultas, haviam de achar os homens degenerados em todas as espécies de criaturas; haviam de achar homens-homens, haviam de achar homens-brutos, haviam de achar homens-troncos, haviam de achar homens-pedras. E quando os pregadores evangélicos vão pregar a toda a criatura, que se armem contra eles todas as criaturas? Grande desgraça!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf. Acesso em: 10 ago. 2026.