Por Gregório de Matos (1696)
16
Pedralves num acidente
fiado em seu privilégio
mandou pedir ao Colégio
um osso do Sol do Oriente:
mas sendo ao Reitor presente
a casta do agonizante,
dizei (disse) a esse bargante,
que o Santo a curar não presta
o mal, que ele tem de besta,
nem o do seu rocinante.
17
Com que o ruço a piorar,
as Relíquias a não vir,
Pedralves a se afligir,
e seu tio a se enfadar:
o dinheiro a se gastar,
e a casa a se aborrecer,
tanto veio a suceder,
que com pesar não pequeno
em chegando ao quatrozeno
o ruço veio a morrer.
18
Assistir-lhe na agonia
vieram, sem que uma manque,
todas as bestas do tanque
dos Padres da Companhia:
e uma, que cantar sabia,
uma lição lhe cantou,
e quando ao verso chegou,
onde diz: "andante me"
estirou o ruço um pé,
e dando um zurro acabou.
19
Ao tratar do enterramento
houve alguma dilação,
porque Pedralves então
chorava como um jumento:
mas aberto o testamento
perante um, e outro ouvinte,
se achou, que morrera aos vinte,
e testara aos vinte e três
de tal ano, e de tal mês,
e que dizia o seguinte.
20
Meu corpo vá amortalhado
no hábito de cacoetes,
que tem meu amo entre asnetes
de falar agongorado:
não o coma adro sagrado,
que um monturo bastará,
sendo que tão magro está
de Hipócrates, e Avicenas,
que vou receando apenas
para um bocado haverá.
21
Item ao Senhor Marquês,
a quem o céu há juntado
as ferezas de soldado
os carinhos de cortês:
pela mercê, que me fez,
de com tão justa razão
suspender de Capitão
meu Amo, que fica em calma,
lhe peço, pela sua alma,
que o suspenda de asneirão.
22
Meu Amo instituo enfim
por meu herdeiro forçado,
e lhe deixo de contado
a manjedoura, e capim:
item lhe deixo o selim,
que me pôs de sarna gafo,
e pois já morro, e abafo,
o mou bocado lhe deixo,
porque veja queixo a queixo,
o que vai de bafo a bafo.
ANNA MARIA ERA UMA DONZELLA NOBRE, E RICA, QUE VEIO DA INDIA SENDO SOLICITADA DOS MELHORES DA TERRA PARA DESPOSORIOS, EMPRENDEO FR. THOMAZ CASALLA COM O DITO, E O CONSEGUIO.
Sete anos a Nobreza da Bahia
Serviu a uma Pastora Indiana, e bela,
Porém serviu a Índia, e não a ela,
Que à India só por prêmio pertendia.
Mil dias na esperança de um só dia
Passava contentando-se com vê-la:
Mas Fr. Tomás usando de cautela,
Deu-lhe o vilão, quitou-lhe a fidalguia.
Vendo o Brasil, que por tão sujos modos
Se lhe usurpara a sue Dona Elvira,
Quase a golpes de um maço, e de uma goiva:
Logo se arrependeram de amar todos,
E qualquer mais amara, se não fora
Para tão limpo amor tão suja Noiva.
AO MESMO ASSUNTO.
MOTE
Lá vem Maria, mais Ana,
e Pedro no meio delas;
ó Pedro, quem te roubara
a rica Noiva, que levas!
1
Apareceu na Bahia
Pedro, que tudo enfeitiça,
Moço da cavalariça
enxertado em fidalguia:
teve fortuna, e valia
tão alta, e tão soberana,
que o tio Milão se alhana,
e por serem tão manaças
lhe cantarão pelas praças
Lá vem Maria, mais Ana
2
Cantou-se-lhe em profecia,
porque correndo alguns anos
veio casar por enganos
com Madama Ana Maria:
por força de cantoria
se meteu Perico entre elas,
ou foi força das estrelas,
pois hoje ao mesmo compás
garganteia Fr. Tomás
"E Pedro no meio delas".
3
Um casamento ao revés
Fr. Tomás somente o faz,
e eu raivo de Fr. Tomás,
que tal casamento fez:
quando considero os três
Noivo besta, e Noiva rara,
e o Frade, que os maniatara,
metido entre os foliões,
canto invejando os dobrões,
Ó Pedro, quem te roubara!
4
Porém depondo arrogância
da paixão, e do interesse,
só Pedro a Noiva merece,
que a más Moros mas ganância:
não tenhas, Pedro, jactância,
nem tal dote à sorte devas,
pois tanto no bafo entrevas,
que se dá em to prefumar,
em pobre há de vir a dar
A rica Noiva, que levas.
CASADO, E RICO SE EMBARCOU PARA PORTUGAL A COMPRAR NOBREZA; E O POETA LHE FAZ AS DESPEDIDAS PROFETIZANDO, O QUE REALMENTE SUCCEDEO.
Adeus, Amigo Pedralves,
que vos partistes daqui
para geral desconsolo
deste Estado do Brasil.
Partistes-vos, e oxalá,
que então vos vira partir,
que sempre um quarto tomara
a libra por dous ceitis,
Pusera o quarto em salmoura,
e no fumeiro o pernil,
o pé não: porque me dizem,
que vos fede o escarpim.
Guardara o quarto de sorte,
que se vos pudera unir
na surreição dos ausentes,
quando tornásseis aqui.
Mas vós não fostes partido,
mente, quem tal cousa diz,
antes fostes muito inteiro,
e sem se vos dar de mim!
Saüdades não levastes,
deixaste-las isso sim,
porque de todo este povo
éreis o folgar, e o rir.
Desenfado dos rapazes
das Moças o perrexil,
o burro da vossa casa,
e da cidade o rocim.
Lá ides por esses mares,
que são vidraças de anil,
semeando de asnidades
toda a margem de Zafir.
O Piloto, e à companha,
apostarei, que já diz,
que vai muito arrependido
de irdes no seu camarim.
O homem se vê, e deseja,
e desesperado enfim,
aceita, que a Nau se perca
por vos ver fora de si.
Deseja ver-vos lutando
sobre o elemento sutil,
onde um tubarão vos parta,
vos morda um Darimdarim.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. Opúsculo de Pedro Alz. Da Neyva. In:. Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 1992.