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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Opúsculo de Pedro Alz. da Neyva

Por Gregório de Matos (1696)

16
Pedralves num acidente
fiado em seu privilégio
mandou pedir ao Colégio
um osso do Sol do Oriente:
mas sendo ao Reitor presente
a casta do agonizante,
dizei (disse) a esse bargante,
que o Santo a curar não presta
o mal, que ele tem de besta,
nem o do seu rocinante.

17
Com que o ruço a piorar,
as Relíquias a não vir,
Pedralves a se afligir,
e seu tio a se enfadar:
o dinheiro a se gastar,
e a casa a se aborrecer,
tanto veio a suceder,
que com pesar não pequeno
em chegando ao quatrozeno
o ruço veio a morrer.

18
Assistir-lhe na agonia
vieram, sem que uma manque,
todas as bestas do tanque
dos Padres da Companhia:
e uma, que cantar sabia,
uma lição lhe cantou,
e quando ao verso chegou,
onde diz: "andante me"
estirou o ruço um pé,
e dando um zurro acabou.

19
Ao tratar do enterramento
houve alguma dilação,
porque Pedralves então
chorava como um jumento:
mas aberto o testamento
perante um, e outro ouvinte,
se achou, que morrera aos vinte,
e testara aos vinte e três
de tal ano, e de tal mês,
e que dizia o seguinte.

20
Meu corpo vá amortalhado
no hábito de cacoetes,
que tem meu amo entre asnetes
de falar agongorado:
não o coma adro sagrado,
que um monturo bastará,
sendo que tão magro está
de Hipócrates, e Avicenas,
que vou receando apenas
para um bocado haverá.

21
Item ao Senhor Marquês,
a quem o céu há juntado
as ferezas de soldado
os carinhos de cortês:
pela mercê, que me fez,
de com tão justa razão
suspender de Capitão
meu Amo, que fica em calma,
lhe peço, pela sua alma,
que o suspenda de asneirão.

22
Meu Amo instituo enfim
por meu herdeiro forçado,
e lhe deixo de contado
a manjedoura, e capim:
item lhe deixo o selim,
que me pôs de sarna gafo,
e pois já morro, e abafo,
o mou bocado lhe deixo,
porque veja queixo a queixo,
o que vai de bafo a bafo.

ANNA MARIA ERA UMA DONZELLA NOBRE, E RICA, QUE VEIO DA INDIA SENDO SOLICITADA DOS MELHORES DA TERRA PARA DESPOSORIOS, EMPRENDEO FR. THOMAZ CASALLA COM O DITO, E O CONSEGUIO.

Sete anos a Nobreza da Bahia
Serviu a uma Pastora Indiana, e bela,
Porém serviu a Índia, e não a ela,
Que à India só por prêmio pertendia.

Mil dias na esperança de um só dia
Passava contentando-se com vê-la:
Mas Fr. Tomás usando de cautela,
Deu-lhe o vilão, quitou-lhe a fidalguia.

Vendo o Brasil, que por tão sujos modos
Se lhe usurpara a sue Dona Elvira,
Quase a golpes de um maço, e de uma goiva:

Logo se arrependeram de amar todos,
E qualquer mais amara, se não fora
Para tão limpo amor tão suja Noiva.

AO MESMO ASSUNTO.

MOTE

Lá vem Maria, mais Ana,
e Pedro no meio delas;
ó Pedro, quem te roubara
a rica Noiva, que levas!

1
Apareceu na Bahia
Pedro, que tudo enfeitiça,
Moço da cavalariça
enxertado em fidalguia:
teve fortuna, e valia
tão alta, e tão soberana,
que o tio Milão se alhana,
e por serem tão manaças
lhe cantarão pelas praças
Lá vem Maria, mais Ana

2
Cantou-se-lhe em profecia,
porque correndo alguns anos
veio casar por enganos
com Madama Ana Maria:
por força de cantoria
se meteu Perico entre elas,
ou foi força das estrelas,
pois hoje ao mesmo compás
garganteia Fr. Tomás
"E Pedro no meio delas".

3
Um casamento ao revés
Fr. Tomás somente o faz,
e eu raivo de Fr. Tomás,
que tal casamento fez:
quando considero os três
Noivo besta, e Noiva rara,
e o Frade, que os maniatara,
metido entre os foliões,
canto invejando os dobrões,
Ó Pedro, quem te roubara!

4
Porém depondo arrogância
da paixão, e do interesse,
só Pedro a Noiva merece,
que a más Moros mas ganância:
não tenhas, Pedro, jactância,
nem tal dote à sorte devas,
pois tanto no bafo entrevas,
que se dá em to prefumar,
em pobre há de vir a dar
A rica Noiva, que levas.

CASADO, E RICO SE EMBARCOU PARA PORTUGAL A COMPRAR NOBREZA; E O POETA LHE FAZ AS DESPEDIDAS PROFETIZANDO, O QUE REALMENTE SUCCEDEO.

Adeus, Amigo Pedralves,
que vos partistes daqui
para geral desconsolo
deste Estado do Brasil.

Partistes-vos, e oxalá,
que então vos vira partir,
que sempre um quarto tomara
a libra por dous ceitis,

Pusera o quarto em salmoura,
e no fumeiro o pernil,
o pé não: porque me dizem,
que vos fede o escarpim.

Guardara o quarto de sorte,
que se vos pudera unir
na surreição dos ausentes,
quando tornásseis aqui.

Mas vós não fostes partido,
mente, quem tal cousa diz,
antes fostes muito inteiro,
e sem se vos dar de mim!

Saüdades não levastes,
deixaste-las isso sim,
porque de todo este povo
éreis o folgar, e o rir.

Desenfado dos rapazes
das Moças o perrexil,
o burro da vossa casa,
e da cidade o rocim.

Lá ides por esses mares,
que são vidraças de anil,
semeando de asnidades
toda a margem de Zafir.

O Piloto, e à companha,
apostarei, que já diz,
que vai muito arrependido
de irdes no seu camarim.

O homem se vê, e deseja,
e desesperado enfim,
aceita, que a Nau se perca
por vos ver fora de si.

Deseja ver-vos lutando
sobre o elemento sutil,
onde um tubarão vos parta,
vos morda um Darimdarim.

(continua...)

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