Por Padre Antônio Vieira (1674)
O “Sermão do Santíssimo Sacramento”, de Padre Antônio Vieira, foi pregado em 1662, na Igreja de Santa Engrácia, em Lisboa, e dirigido especialmente à nobreza portuguesa. Em um contexto de conflitos e desunião social, Vieira utiliza a Eucaristia para defender a importância da união entre os homens. O sermão relaciona a comunhão com Cristo à necessidade de concórdia e união na sociedade portuguesa.
EXPOSTO NA IGREJA DE S. LOURENÇO
IN DAMASO,
NOS DIAS DO CARNAVAL.
EM ROMA. ANO DE 1674. TRADUZIDO DO ITALIANO.
Tentat vos Dominus Deus vester, ut palam fiat utrum diligatis eum, an non.
§I
Nos outros tempos eram três os tentadores dos homens: agora não só tenta a carne, o diabo e o mundo, mas Deus também nos tenta, a fim de provar e descobrir quais são seus amigos.
Maior espetáculo, ó Tibre, vês estes dias tu nas margens soberbamente habitadas de tuas ribeiras, daquele que viu antigamente o Jordão nas soledades do seu deserto, quando o demônio tentou a Cristo. Ali se viu Deus tentado, aqui se vê Deus tentador: Tentat vos Dominus Deus vester. Maior espetáculo, ó Roma, vês estes dias tu nas tuas praças, palácios e templos, daquele que viste antigamente no teu bárbaro anfiteatro, quando os novos professores do Cristianismo eram deitados às feras. Ali com tormentos e mortes se provava a fé; aqui entre jogos e passatempos se prova o amor: Ut palam fiat utrun diligatis eum an non
Terríveis dias são estes, e terrível concurso de tempo, senhores meus. Nos outros tempos, e por toda a roda do ano, os tentadores dos homens são três: nestes dias são quatro, e o quarto, maior e mais poderoso que todos. Nos outros tempos tenta o mundo, tenta o diabo, tenta a carne: nestes dias não só tenta a carne, o diabo, o mundo, e mais fortemente que nunca, mas Deus também nos tenta: Tentat vos Dominus Deus vester. Porque cuidais que sai Deus de seus sacrários? Por que cuidais que se põe Deus em público nestes dias, senão para tentar também ele publicamente no tempo das tentações públicas? Os três tentadores universais sempre tentam como inimigos, mas não sempre como inimigos descobertos; porém nestes dias, quando os homens com tão estranhos disfarces se cobrem a cara, o mundo, o diabo, a carne tentam à cara descoberta. Por isso, no mesmo tempo se descobre Deus para tentar ele também descobertamente. Mas a que fim? Não a fim de ajudar, tentando, a nossos inimigos, mas a fim de provar, e descobrir, tentando, quais são os seus amigos: Ut palam fiat utrum diligatis eum, an non. Esta é a propriedade natural das palavras que propus, e esta será a matéria não menos própria do meu discurso: Deus tentador, Roma tentada, os que amam ou não amam a Deus publicamente conhecidos. Os pontos são três, mas eu por brevidade os reduzirei a um só. E comecemos.
§II
Deus tentador no carnaval. O maná, figura da Eucaristia, remédio e tentação. Os hebreus se enfastiaram do maná não pelo gosto, mas pela vista, tentação idêntica à que nos submete Deus na Eucaristia.
Tentat vos Dominus Deus vester. Deus nos tenta? Deus tentador? Estupenda e temerosa palavra, e, ao parecer, indigna e indecente! Mas não é ainda esta a minha maior admiração. Deus tentador, e tentador no Sacramento? Aqui está a dificuldade, aqui o assombro. O Santíssimo Sacramento do altar não é o peito forte com que Deus nos arma contra todas as tentações? Aquela hóstia consagrada não é o escudo dobrado, humano e divino juntamente, com que se defende a Igreja? E que nos atrevamos a dizer; sem escândalo da piedade, que o toma Deus por instrumento de nos tentar: Tentat vos Dominus Deus vester! Nestes dias, sim.
Tumultuou o povo no deserto contra Moisés, e foi o tumulto de carnaval. Utinam mortui essemus in Aegypto, quando sedebamus super ollas carnium.2 Egito, memórias da gentilidade, gosto e apetite depravado, intemperanças de gula, enfim carne. E que fez Deus então para apagar a rebelião e moderar a desordem deste apetite bruto? Dixitautem Dominus ad Moysen: Ego pluam vobis panes de caelo:3 Moisés, não é bem que o meu povo se lembre do Egito e daquilo que tinha e o deleitava quando vivia entre gentios: eu lhe darei pão do céu. De maneira que a primeira origem do maná e a primeira instituição do sacramento em figura, foi para apartar e descarnar os homens dos apetites e costumes que chamais carnavalescos, e para desarraigar do seu povo as memórias e relíquias da gentilidade, quais são as que ainda se conservam entre os cristãos nestes dias. Bem. E teve mais algum outro fim Deus em dar o maná ao povo? Sim: o que eu digo. Não só lhe deu o maná para o tirar daquele vício, senão também para o tentar. Ouvi o que ajuntou Deus às palavras referidas: Ego pluam vobis panes de caelo; egrediatur populus, et colligat, ut tentem eum, utrum ambulet in lege mea, an non (Êx. 16, 4): Eu darei o maná ao povo; ele sairá a recolher, e eu com isto o tentarei, se obedece à minha lei ou não. – Este foi o segundo fim por que deu Deus o maná. O primeiro, para remédio, o segundo, para tentação; o primeiro, para apartar a povo dos costumes profanos do Egito, o segundo, para tentar e provar o mesmo povo se obedecia e amava a Deus ou não: Ut tentem eum, utrum ambulet in lege mea, an non, que é em próprios termos o fim e sentido das nossas palavras: Tentat vos Dominus Deus vester, ut palam ilat utrun diligatis eum, an non.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 15 ago. 2026.