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#Sermões#Retórica

Sermão da Glória de Maria, Mãe de Deus

Por Padre Antônio Vieira (1644)

O “Sermão da Glória de Maria, Mãe de Deus”, de Padre Antônio Vieira, foi pregado em 1644, na Igreja de Nossa Senhora da Glória, em Lisboa, por ocasião da festa em honra à Virgem Maria. Com base no Evangelho, Vieira exalta a glória de Maria como Mãe de Deus e defende que sua maior alegria está na glória de seu Filho. O sermão busca louvar Maria e inspirar a devoção dos fiéis.

EM DIA DA SUA GLORIOSA ASSUNÇÃO, 

PREGADO NA IGREJA DE NOSSA 

SENHORA DA GLÓRIA, EM LISBOA, NO ANO DE 1644 

Maria optimam partem elegit.

§I

A Casa da Senhora da Glória, e a festa da glória da Senhora. A palavra optimam, sendo superlativa, põe as coisas no sumo lugar, do qual se não exclui o mesmo Deus, antes se inclui essencialmente.

31. Bem se concordam neste dia e neste lugar o título da casa com o da festa, e o da festa com o da casa: a Casa da Senhora da Glória, e a festa da glória da Senhora. O Evangelho, que deve ser o fundamento de tudo o que se há de dizer, também eu o quisera concordar com esta glória, mas o que dele e dela se tem dito até agora, não concorda com o meu desejo, nem com o meu pensamento. O Evangelho diz que escolheu Maria a melhor parte: Maria optimam partem elegit. E os santos e teólogos que mais se alargaram, aplicando esta escolha e esta parte à glória da Senhora, só dizem que verdadeiramente foi a melhor, porque a glória a que a Senhora hoje subiu e está gozando no céu, é melhor e maior glória que a de todos os bem-aventurados. Os bem-aventurados da glória, ou são homens, ou anjos; e não só em cada uma destas comparações, senão em ambas, dizem que é maior a glória de Maria, que a de todos os homens e a de todos os anjos, e não divididos, mas juntos. Grande glória! Grande, incomparável, imensa! O sol não só excede na luz a cada uma das estrelas e a cada um dos planetas, senão a todas e a todos incomparavelmente. Por isso a Senhora neste dia se chama escolhida como o sol: Quae est ista quae ascendit, electa ut sol.2 O mar não só excede na grandeza a cada uma das fontes e a cada um dos rios, senão a todas e a todos imensamente: por isso a Senhora se chama Maria, que quer dizer mar, e só por este nome – que não tem outra coisa no Evangelho – se lhe aplicam as palavras dele: Maria optimam partem elegit. Isto é, como dizia, tudo o que dizemos santos e teólogos; mas nem o Evangelho assim entendido, nem a glória da Senhora assim declarada, nem a comparação dela assim deduzida, concordam com o meu pensamento. O Evangelho dizendo: Optimam partem, parece-me que quer dizer muito mais; a glória de Maria, sendo de Maria, Mãe de Deus, parece-me que é muito maior, e a comparação com os outros bem-aventurados somente, parece-me muito estreita e quase indigna. O meu pensamento é – Deus me ajude nele – que a comparação de glória a glória não se deve fazer só entre a glória de Maria com a glória de todas as outras criaturas humanas e angélicas, senão com a glória do mesmo Criador delas, a quem Maria criou. O texto e a palavra optimam, a tudo se estende, porque, sendo superlativa, põe as coisas no sumo lugar, do qual se não exclui Deus, antes se inclui essencialmente. Neste tão remontado sentido pretendo provar e mostrar hoje, que comparada a glória de Maria com a glória do mesmo Deus, e fazendo da glória de Maria duas partes, a melhor parte é a de Maria: Maria optimam partem elegit. Até não me ouvirdes, não me condeneis. E espero que me não haveis de condenar, se a mesma Senhora da Glória me assistir com sua graça: Ave Maria.

§II

Como pode ser maior a glória de Maria que a de Deus, e como diz a Igreja que a Senhora foi a que escolheu e elegeu esta melhor parte, se ela é que foi a escolhida? Prova-o o autor com os filósofos, os Santos Podres, as Escrituras Divinas, e com o mesmo Deus.

32. Maria optimam partem elegit. Suspensos considero todos os que me ouvem, na expectação do assunto que propus: os curiosos com indiferença, os devotos com alvoroço, os críticos com a censura já prevenida, e todos com razão, É certo, e de fé, que, por grande e grandíssima que seja a glória de Maria, Senhora nossa, a glória de Deus é infinitamente maior; assim como ele-que só se compreende – é por natureza infinito. Pois se a glória de Maria, como glória de pura criatura, posto que criatura a mais excelente de todas, é glória finita, e infinitamente menor que a glória de Deus, como me atrevo eu a afirmar, e como se pode entender que, ainda em comparação da glória do mesmo Deus, se verifiquem as palavras do Evangelho na glória de Maria, e que goze Maria a melhor parte: Maria optimam partem elegit?

(continua...)

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