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#Sermões#Retórica

Sermão da Rainha Santa Isabel

Por Padre Antônio Vieira (1674)

O “Sermão da Rainha Santa Isabel”, de Padre Antônio Vieira, foi pregado em 1674, na Igreja de Santo Antônio dos Portugueses, em Roma, durante as celebrações em homenagem à santa portuguesa. Dirigido aos fiéis, o sermão busca exaltar a fé e as virtudes de Isabel. Vieira apresenta a rainha como exemplo de santidade, caridade e força, destacando sua dupla condição: grande rainha por ser santa e grande santa por ser rainha.

Simile est regnum caelorum homini negotiatori quaerentibus bonas margaritas; inventa autem una pretiosa, abiit, et vendidit omnia quae habuit, et emit eam.

§I

Rainha e santa, os dois pólos do discurso. As três qualidades do negociante da parábola: cabedal, diligência e ventura, encontradas em Santa Isabel. A mulher forte de que fala Salomão é uma mulher negociante. No Livro dos Provérbios, a descrição da Rainha de Portugal e Aragão.

1. A uma rainha duas vezes coroada, coroada na terra e coroada no céu, coroada com uma das coroas que dá a fortuna, e coroada com aquela coroa que é sobre todas as fortunas, se dedica a solenidade deste dia. O mundo a conhece com o nome de Isabel; a nossa pátria, que lhe não sabe outro nome, a venera com a antonomásia de Rainha Santa. Com este título que excede todos os títulos, a canonizou em vida o pregão de suas obras; a este pregão se seguiram as vozes de seus vassalos, a estas vozes a adoração, os altares, os aplausos do mundo, rainha e santa. Este será o argumento, e estes os dois pólos do meu discurso.

2. No texto do Evangelho que propus, temos a parábola de um negociante, em que concorreram todas aquelas três qualidades, ou boas partes, que poucas vezes se concordam: cabedal, diligência e ventura. Cabedal: Omnia quae habuit; diligência: Quaerenti bonas margaritas; ventura: Inventa una pretiosa. Rico, diligente, venturoso. E que negociante é este? É todo aquele, que com os bens da terra sabe negociar o reino do céu: Simile est regnum caelorum homini negotiatori.

3. Este mundo, senhores, composto de tanta variedade de estados, ofícios e exercícios públicos e particulares, políticos e econômicos, sagrados e profanos, nenhuma outra coisa é senão uma praça, ou feira universal, instituída e franqueada por Deus a todos os homens, para negociarmos nela o reino do céu. Assim o ensinou Cristo na parábola daquele rei que repartiu diferentes talentos, ou cabedais a seus criados, para que negociassem com eles até sua vinda: Negotiamini dum venio (Lc. 19,13). Para as negociações da terra, a muitos falta o cabedal; outros têm cabedal, mas falta-lhes a diligência; outros têm cabedal e diligência, mas falta-lhes a ventura. Na negociação do céu não é assim. A todos dá Deus o cabedal, a todos oferece a ventura, e a todos pede a diligência. O cabedal são os talentos da natureza, a ventura são os auxílios da graça, a diligência é a cooperação das obras. Quando o rei disse: Negotiamini dum venio, os criados a quem entregou a sua fazenda, para que negociassem com ela, eram três: todos três tiveram cabedal, dois tiveram diligência, um não teve ventura. E por que não teve ventura este último? Porque não teve diligência: enterrou o talento. Bem o conhecia o rei, pois fiou dele o menos. E que sucedeu aos outros dois? O que tinha cinco talentos negociou, e granjeou outros cinco. O que tinha dois talentos negociou, e granjeou outros dois. Ambos tiveram igual ventura, porque fizeram igual diligência, mas o que entrou com maior cabedal, saiu com maior ganância.

4. Ninguém entrou na praça deste mundo com maior cabedal que a nossa Rainha Santa: uma coroa, e outra coroa: a de Aragão e a de Portugal. O mercante do Evangelho tratava em pérolas; Santa Isabel em coroas. Grande cabedal! De uma grande rainha de Lacedemônia disse Plínio no livro De Summa Felicitate este elogio: Una faeminarum in omni aevo Lacedemonia reperitur quae regis filia, regis uxor, regis mater fuit.2 Isabel não só foi filha de rei, mulher de rei e mãe de rei, mas que filha! que mulher! que mãe! Filha de um rei em quem estavam unidos os brasões de todos os reis da Europa, Pedro Segundo de Aragão; mulher de um rei que foi árbitro dos reis em todos os pleitos que tiveram em seu tempo as coroas de Espanha, Dionísio de Portugal; mãe de um rei, Afonso Quarto, de quem descendem todos os monarcas e príncipes da Cristandade, não vivendo hoje nenhum, que o melhor sangue que tem nas veias não seja de Isabel. Grande fortuna de mulher, grande cabedal! Mas parece que não havia de ser mulher, porque o negociar é ofício de homem: Homini negotiatori. O reparo é do Evangelho, a solução será da epístola.

(continua...)

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