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#Sermões#Retórica

Sermão da Primeira Dominga da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1655)

O “Sermão da Primeira Dominga da Quaresma”, de Padre Antônio Vieira, foi pregado na Capela Real, em Lisboa, em 1655, durante a Quaresma e diante da corte portuguesa. A partir da tentação de Cristo no deserto, Vieira reflete sobre as tentações ligadas ao poder, à riqueza e às vaidades do mundo. Com seu discurso, busca orientar os ouvintes a resistirem ao pecado e a valorizarem os princípios cristãos.

Ostendit ei omnia regna mundi, et gloriam eorum, et dixit ei: Haec omnia tibi dabo, si cadens adoraveris me.

§I

Como o demônio dos remédios faz tentações, nós, das tentações, façamos remédio, sendo liberais com o demônio, fazendo das pedras pão, e dos precipícios caminhos. Tomando por fundamento a terceira tentação do demônio, o autor ensina-nos a vencer qualquer tentação usando das mesmas tentações.

55. Se o demônio é tão astuto que até dos nossos remédios faz tentações, por que não sereinos nós tão prudentes, que até das suas tentações façamos remédios? Esta é a conclusão que tiro hoje de toda a história do Evangelho. Quarenta dias havia, e quarenta noites, que jejuava Cristo em um deserto. Sucedeu ao jejum naturalmente a fome, e sobre a fome veio logo a tentação: Si Filius Dei es, dic ut lapides isti panes fiant (Mt. 4,3): Se és Filho de Deus – diz o demônio – manda a estas pedras que se convertam em pães. Vede se inferi bem que dos nossos remédios faz o demônio tentação: com as pedras se defendia das suas tentações S. Jerônimo; os desertos e soledades são as fortalezas dos anacoretas; o jejum de quarenta dias foi uma penitência prodigiosa; procurar de comer aos que hão fome é obra de misericórdia; converter pedras em pão, com uma palavra, é onipotência; ser Filho de Deus, é divindade. Quem cuidara que de tais ingredientes como estes se havia de compor uma tentação? De pedras, de deserto, de jejum, de obra de misericórdia, de onipotência, de divindade? De pedras: lapides isti; de deserto: ductus est Jesus in desertum; de jejum: cum jejunasset; de obra de misericórdia: panes fiant; de onipotência: dic; de divindade: Si Filius Dei es. Se o demônio tenta com as pedras, que fará com condições menos duras? Se tenta com o deserto, que será com o povoado e com a corte? Se tenta com o jejum, que será com o regalo? Se tenta com a obra de misericórdia, que será com a injustiça? Se tenta com a onipotência, que será com a fraqueza? E se até com a divindade tenta, com a humanidade e com a desumanidade, que será?

56. Vencido o demônio nesta primeira tentação, diz o texto que levou a Cristo à Cidade Santa de Jerusalém, e, pondo-o sobre o mais alto do Templo, lhe disse desta maneira: Mitte te deorsum. Scriptum est enim, quia angelis suis Deus maadavit de te, ut custodiant te in omnibus viis tuis: Deita-te daqui abaixo, porque prometido está na Sagrada Escritura que mandará Deus aos seus anjos te, guardem em todos teus caminhos.2 – Vede outra vez como tornam os remédios a ser tentações, e nesta segunda tentação, ainda com circunstâncias mais notáveis. E quais foram? A Cidade Santa, o Templo de Jerusalém, as Sagradas Escrituras, os Mandamentos de Deus, os Anjos da Guarda, e também o descer para baixo. Podia haver coisas menos ocasionadas para tentações? Pois disto fez o demônio uma tentação. Da Cidade Santa: Assumpsit eum in sanctam civitatem; do templo de Jerusalém: Et statuit eum super pinaculum Templi; da Sagrada Escritura: Scriptum est enim; dos mandamentos de Deus: Deus mandavit de te; dos Anjos da Guarda:Angelis suis ut custodiant te; do descer para baixo: Mitte te deorsum. Se o demônio tenta com a Cidade Santa, que será com a cidade escandalosa? Se tenta com o Templo de Deus, que será com as casas dos ídolos? Se tenta com as Sagradas Escrituras, que será com os livros profanos? Se tenta com os Mandamentos de Deus, que será com as leis do mundo? Se tenta com os Anjos da Guarda, que será com os anjos da perdição? Se tenta finalmente com o descer; que será com o subir?

57. Eis aqui como o demônio, dos remédios faz tentações. Mas como será possível que nós, das tentações, façamos remédios? O demônio, na primeira tentação, pediu a Cristo que fizesse das pedras pão, e na segunda, que fizesse dos precipícios caminhos. Que coisa são as tentações senão pedras e precipícios? Pedras em que tropeçamos, e precipícios donde caímos. Pois como é possível que das pedras em que tropeçamos se faça pão com que nos sustentemos, e dos precipícios donde caímos se façam caminhos por onde subamos? Isto havemos de ver hoje, e hei de ser tão liberal com o demônio, que lhe hei de conceder tudo o que Cristo lhe negou. Que queres demônio? Que te faça das pedras pão? Sou contente. Que queres mais? Que dos precipícios faça caminhos? Também farei isso hoje. O demônio do pão fez pedras, e dos caminhos fez precipícios, porque dos remédios fez tentações. Eu às avessas: das pedras hei de fazer pão, e dos precipícios caminho, porque das tentações hei de fazer remédios.

(continua...)

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