Por Euclides da Cunha (1907)
Euclides da Cunha (1866–1909) foi engenheiro, jornalista e escritor brasileiro, marcado pela análise crítica do país. Em Contrastes e Confrontos, reúne textos que discutem tensões sociais, políticas e culturais do Brasil republicano, com olhar científico e literário. A obra foi publicada originalmente em 1907, no Rio de Janeiro, consolidando sua reflexão sobre o país.
Um despacho para o War Office transmitiu as informações do coronel Younghusband, acerca da primeira vitória decisiva das tropas que constituem a expedição do Tibete - e aquele telegrama mal desviou a atenção geral, toda entregue à emocionante luta russo-japonesa.
Entretanto, ali estão as primeiras linhas de um drama menos teatral e ruidoso, mas, talvez, mais profundo e de mais imprevistas conseqüências práticas, como sempre, a Inglaterra aproveitou as aberturas atuais da Rússia e transpôs a muralha do Himalaia.
Que vai fazer? Adiante, deixada a orla formosíssima do vale de Cachemira, desata-se-lhe o planalto, asperamente revolto, que recorda uma dilatação lateral de enorme cordilheira. Os terrenos ondulam, riçados de gargantas, dobrando-se em vales numerosos e empinando-se em contrafortes crespos de fraguedos, formandose os pamirs desolados e ásperos, quase despidos, onde uma flora escassa, mal abrolhando entre pedras, reflete todo o excessivo de um clima impiedoso: de verão, calcinando no reverbero fulgurante das soalheiras; de inverno, amortalhando a natureza toda no sudário branco das geadas.
Ali não ha firmar-se a mais indecisa continuidade de um esforço. A vida deriva-se tolhida e incompleta, num permanente mal das montanhas.
Dada uma centena de passos, o forasteiro estaca, ofegante, no delíquio de um repentino assalto de fadiga, sentindo que não lhe basta aos pulmões afeiçoados aos ares nativos, toda a atmosfera rarefeita que o envolve. Fala, e mal percebe a própria voz. Grita, e o grito extingue-se logo, sem ecos, num abafamento de segredo. Depara os primeiros habitantes e assombra-se. Está diante de uns originalíssimos colossos-anões, que resumem na estatura meã todos os extremos da plástica: amplos torsos de atletas sobre pernas bambeantes e finas, de cretinos.
Compreende então, de pronto, as terríveis exigências de aclimação deformadora, capaz daquela caricatura horripilante de titãs.
O inglês, desempenado e rijo, tem naqueles lugares, na sua impecável harmonia orgânica, uma condição desfavorável e a fraqueza paradoxal da própria robustez, meio asfixiado num ambiente que lhe não basta. suplanta-o o indígena desfibrado, o chepang, ou o hayn, o monstrengo que vive à custa da redução da vida e da miséria orgânica, largamente satisfeita com uma hematose imperfeitissíma. Este, sim, lá se equilibra. Não lhe pula o sangue, a escapar-se no afogueado rubor das arteríolas refertas; não o estonteia a vertigem: e o seu pulmão, amplificado à custa da atrofia de todo o organismo, colhe bem, no espaço rarefeito, a exígua meia ração de ar de que precisa.
Chegam-lhe, além disso, a fartar, os aleatórios recursos do solo esterilizado e pobre. E quando não lhe bastassem, lá está, para ampará-lo e transmudar-lhe em benefícios as misérias, a sua religiosidade extraordinária, maior que todas as outras, no sistematizar a renunciação e os sacrifícios.
Realmente, o Tibete - este "teto do mundo", consoante a hipérbole oriental — tem, na sua maior cidade, Lassa, o Vaticano do budismo.
A filosofia, que é um prodígio de imaginação e de incoerência - toda baseada na idéia essencial do nada, ao mesmo passo que vê na natureza uma infinita série de decomposições e recomposições sem princípio e sem fim - não podia encontrar melhor cenário, nem mais apropriada gente.
O Tibete é uma vasta Tebaída misteriosa. Um terço de sua população é de lamas — monges miseráveis e repulsivos, vestidos de trapos de mortalhas, meio idiotas e errantes de mosteiro em mosteiro, de povoado em povoado, ou à toa, pelos descampados, a pregarem, alucinadamente, a extinção da personalidade, o dogma do desespero e o tédio universal da vida: enquanto os dois terços restantes se abatem aniquilados, inteligências mortas sob o fardo de deuses e de mundos e de kalpas seculares da mitologia formidável, que as estonteia e que as esmaga...
Toda essa gente ali se agita, num meio sonambulismo. O viajante encontra, por vezes, em todos os cantos de ruas, à entrada das casas, ou dos templos, incontáveis moinhos, tocados pelos escravos, ou pelos ventos, ou pela água — e tem a ilusão do trabalho. Mas a ilusão apenas. A breve trecho, nota que os cilindros gigantes não esmoem o trigo, ou separam a lã; sacodem, esterilmente, as orações e as fórmulas consagradas que contêm.
As energias escassíssimas das gentes vão-se naquele industrialismo místico da reza.
(continua...)
CUNHA, Euclides da. Contrastes e confrontos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1907.