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#Ensaios#Literatura Brasileira

A Missão da Rússia

Por Euclides da Cunha (1907)

Euclides da Cunha (1866–1909) foi engenheiro, jornalista e escritor brasileiro, marcado pela análise crítica do país. Em Contrastes e Confrontos, reúne textos que discutem tensões sociais, políticas e culturais do Brasil republicano, com olhar científico e literário. A obra foi publicada originalmente em 1907, no Rio de Janeiro, consolidando sua reflexão sobre o país.

A Rússia é bárbara.

Entre a sociabilidade cortes, o sentimento da justiça e a expansiva espiritualidade latina, ou saxônia, penetrou, vigorosamente, o impulsivo e a rude selvatiqueza do tártaro, para se criar o tipo histórico do eslavo — isto é, um intermediário, um povo de vida transbordante e forte e incoerente, refletindo aqueles dois estádios, sob todas as suas formas, da mais tangível à mais abstrata, desde uma arquitetura original, em que passa do bizantismo pesado para o gótico ligeiro e deste para a harmonia retilínea das fachadas gregas - ao temperamento emocional e franco, a um tempo infantil e robusto, paciente ensofregado, em que se misturam uma incomparável ternura e uma assombradora crueldade.

Polida demais para o caráter asiático, inculta demais para o caráter europeu — funde-os. Não é a Europa, e não é a Ásia: é a Eurásia desmedida, desatando-se, do Báltico ao Pacifico, sobre um terço da superfície da terra e desenrolando no complanado das estepes o maior palco da história.

A Rússia veio ocupá-la retardatária.

Nasceu quando os demais povos renasciam. Tártara até o século XV, apareceu — engatinhando para o futuro balbuciante na sua língua sonora e incompreendida - quando a Europa em peso, num repentino refluxo para o passado, ia transfigurar-se entre os esplendores da Renascença e iniciava os tempos modernos, deixando-a, a iniciar, tateando e tarda, a sua longa Idade Média, talvez não terminada.

Mas aí está a sua força e a garantia de seus destinos. Ninguém pode prever quanto se avantajará um povo que, sem perder a energia essencial e a coragem física das raças que o constituem, aparelhe a sua personalidade robusta, impetuosa e primitiva, de bárbaro, com os recursos da vida contemporânea.

E nenhum outro, certo, no atual momento histórico, talvez gravíssimo - porque devem esperar-se todas as surpresas deste renascer do Oriente, que o Japão comanda — é mais apto a garantir a marcha, o ritmo e a diretriz da própria civilização européia.

Há quem negue isto. No último número, de junho, da North American Review, Carl Blind, nome que se ajusta bem a um deslumbrado diante do grande plágio do Japão — negando ao império moscovita o papel de campeão da raça ariana contra o perigo amarelo, esteia-se numa sabidíssima novidade: o russo é duplamente mongólico: é-o pela circunstância inicial de o constituírem as tribus khazares e turanas, e pelo fato acidental da conquista tártara, no século XIII, dos netos de Gengis Khan.

Atraído pela simplicidade deste argumento, conclui que não pode ser uma barreira ao pan-mongolismo um povo tão essencialmente asiático.

Mas se esquece de que o russo é, antes de tudo, o tipo de uma raça histórica. Turano pelo sangue, transmudou-se, em quinhentos anos de adaptação forçada, sob o permanente influxo do Ocidente.

A sua melhor figura representativa é a daquele original e inquieto Pedro, o Grande, perlustrando a Europa toda num perquirir incansável, que o arrebatava das escolas para os estaleiros, dos estaleiros para as oficinas, das oficinas para os salões, entre os filósofos, entre os mestres e artífices, entre os cortesãos e os reis, observando, indagando e praticando, imperador, aprendiz e discípulo, bárbaro perdidamente enamorado da civilização, propelido por uma ânsia inextinguível de saber e iniciar-se em todos os segredos da existência nova, que anelava transplantar ao seu povo ingênuo, grandioso e robusto...

Sabe-se quanto foi longa a tarefa.

Durante todo este tempo, não rebrilha o mais apagado nome eslavo. Houve as tormentas sociais do século XV com a renascença literária e a renascença religiosa; houve o deslumbramento do período clássico, e a renovação filosófica subseqüente, e o cataclismo revolucionário; por fim, de par com o desafogo franco das ciências, o alvorecer encantador do romantismo.

A mesma Turquia teve no renascimento a sua idade de ouro, na corte do magnífico Solimão, onde imperava absolutamente o místico Baki, "o sultão da poesia lírica".

A Rússia, não. Na sua iniciação demorada, impondo-lhe o abandono da originalidade de pensar e sentir pela imitação e pela cópia obrigatórias, quedou pouco além das rudes rapsódias heróicas dos kalmukos.



(continua...)

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