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#Ensaios#Literatura Brasileira

Plano de uma Cruzada

Por Euclides da Cunha (1907)

Euclides da Cunha (1866–1909) foi engenheiro, jornalista e escritor brasileiro, marcado pela análise crítica do país. Em Contrastes e Confrontos, reúne textos que discutem tensões sociais, políticas e culturais do Brasil republicano, com olhar científico e literário. A obra foi publicada originalmente em 1907, no Rio de Janeiro, consolidando sua reflexão sobre o país.

CAPÍTULO I

As secas do extremo norte delatam, impressionadoramente, a nossa imprevidência, embora sejam o único fato de toda a nossa vida nacional ao qual se possa aplicar o princípio da previsão. Habituamo-nos àquelas catástrofes periódicas. Desde a lancinante odisséia de Pero Coelho, no alvorar do século XVII, até ao presente, elas vêm formando, à margem da nossa história, um tristíssimo apêndice de indescritíveis desastres. A princípio, mercê do próprio despovoamento do território, ninguém as percebeu. Notou-as, apreensivo, o primeiro sertanista que se afoitou, naquelas bandas, com o desconhecido: os flagelos revelados mal rebrilham e repontam, fogacíssimos, rompentes da linguagem perra e nebulosa dos roteiros... Depois, à medida que se povoava a terra, cresceu-lhes a influência, e desvendaramse-lhes os aspectos, deploráveis todos.

Em 1692, em 1793 e em 1903 - para apontarmos apenas as datas seculares entre as quais se inserem, inflexivelmente, como termos de uma série, outras, sucedendo-se numa razão quase invariável - o seu limbo de fogo abrangendo toda a expansão peninsular que o cabo de S. Roque extrema abriu, intermitentemente, largos hiatos nas atividades. Outrora, completavam-lhe os efeitos as depredações do tapuia - tribos errantes precipitando-se, estonteadas, para o litoral, e para o sul, refluídas pelos sóis bravios; hoje, as incursões dos jagunços destemerosos — almas varonis, que a desventura maligna, derrancando-as nas aventuras brutais dos quadrilheiros; e sobre umas e outras, em todas as quadras, o epílogo forçado das epidemias devastadoras rematando as espantosas tragédias que mal se denunciam no apagado de imperfeitas notícias ou inexpressivas memórias.

Há uma estética para as grandes desgraças coletivas. A peste negra na Europa aviventou um renascimento artístico que veio do verso triunfal de Petrarca à fantasia tenebrosa de Albert Dürer e ao pincel funéreo de Rembrandt. A dança de S. Guido, que sacudiu convulsivamente as populações ribeirinhas do Reno, criou a idealização maravilhosa da dança Macabra. A morte imortalizou os artistas definidos pelo gênio misterioso de Holbein, e perdida a aparência lutuosa, o seu espectro hilariante, arrebatado na tarântula infernal, percorreu entre os aplausos de um triunfo doloroso todos os domínios da arte, das páginas de Manzoni, às rosáceas rendilhadas das catedrais, às iluminuras dos livros de Horas dos crentes e ao caprichoso cinzelado dos copos das espadas gloriosas...

Mas entre nós estes transes tão profundamente dramáticos não deixam traços duradouros. Aparecem, devastam e torturam; extinguem-se e ficam deslembrados.

Entretanto, senão pelos seus feitos desastrosos, pela sua insistência, pela impertinência insanável com que se ajustam aos nossos destinos, eles são o mais imperioso desafio às forças do nosso espírito e do nosso sentimento.

Mas criaram sob o ponto de vista artístico raras páginas incolores de um ou outro livro, e alguns alexandrinos resplandecentes de Junqueiro; na ordem administrativa, medidas que apenas paliam os estragos; e no campo das investigações cientificas o conflito estéril da algumas teorias desfalecidas.

E que o fenômeno climático, tão prejudicial a um quinto do Brasil, só nos impressiona quando aparece; é uma eterna e monótona novidade; estudamo-lo sempre nas aperturas e nos sobressaltos dos períodos certos em que ele se desencadeia.

Então a alma nacional, de chofre comovida, ostenta o seu velho sentimentalismo incorrigível desentranhando-se em subscrição e em sonetos, em manifestos liricamente gongóricos e em telegramas alarmantes; os poderes públicos compram sacos de farinha e organizam comissões, e os cientistas apressados - os nossos adoráveis sábios à la minute — ansiando por salvarem também um pouco a pobre terra, imaginam hipóteses.

Ora, a feição proteiforme destas últimas é expressiva. Dos fatos geométricos mais simples (a forma especial do continente norte-oriental), às circunstâncias orográficas da orientação das serras, à fatalidade astronômica da rotação das manchas solares, às considerações mais sérias relativas à constituição litológica dos terrenos - em todos estes pontos, que formam, afinal, toda a psiografia do extremo norte, tem doidejado as indagações com o efeito único de revelarem o traço característico do nosso espírito afeiçoado a um generalizar espetaculoso com o sacrifício da especialização tenaz, mais modesta, mais obscura e mais útil.



(continua...)

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