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#Ensaios#Literatura Brasileira

Uma Comédia Histórica

Por Euclides da Cunha (1907)

Euclides da Cunha (1866–1909) foi engenheiro, jornalista e escritor brasileiro, marcado pela análise crítica do país. Em Contrastes e Confrontos, reúne textos que discutem tensões sociais, políticas e culturais do Brasil republicano, com olhar científico e literário. A obra foi publicada originalmente em 1907, no Rio de Janeiro, consolidando sua reflexão sobre o país.

Na Europa diplomática do século XVIII o Portugal de D. João V era urna exceção desanimadora. Despeara-se no progresso geral e ia atingir a quadra revolucionária, mal disfarçando, com a exterioridade deslumbrante das minas do Brasil, os máximos desfalecimentos da originalidade e da vida.

Há um atestado expressivo desse fato: a feição literária do tempo, incolor e exótica, laivada de perífrases e trocadilhos, ou sulcada de metáforas extravagantes, reveladoras dos ressaibos corruptores das canzoni alambicadas de Mazini ou das agudezas e hipérboles assombrosas de Gongora.

Era um recuo deplorável. O italianismo e o espanholismo, que haviam sido um característico geral da literatura européia, em passado recente, desapareciam em toda a banda. Na Inglaterra, o excêntrico eufuísmo, que lembra um assalto de cansaço depois da formidável elaboração shakespeariana, alastrando-se da fantasia maravilhosa de Milton, as rimas infamíssimas de Wicherley — desaparecia ante a frase lapidaria de Burton; na França, o preciosismo acabava pelo próprio exagero, embora se abrisse no salão de Luiz XIV o grande molde dourado do classicismo, com o recato do pensar e o requintado polido das maneiras e do dizer; e na mesma Itália, de onde surgira o primado efêmero dos pensieri o lirismo vigoroso de Metastasio iniciava triunfalmente uma era nova. É que nestes países se formara a energia de uma renovação científica e filosófica que, com F. Bacon, Descartes e Galileu, alevantara sobre a rumaria da escolástica os elementos do espírito moderno. Em todos a arte de escrever era apenas um aspecto, o mais sedutor talvez, e nada mais, das inteligências que, em breve, encontrariam no maior operário da Enciclopédia - a um tempo romancista, dramaturgo, crítico, cientista e filósofo — em Diderot, o exemplo vivo do quanto importam ao mais ousado idealizar estético os mais aparentemente frios recursos positivos.

Em Portugal, não. A língua forte dos quinhentistas gaguejava nas silvas e acrósticos alambicados, nas maravilhas do falar e no requinte estéril de um culteranismo, onde a fragilidade das idéias facultava aos períodos vazios o caprichoso das formas mais bizarras. A terra de Bieira dava quase o espetáculo da desordem da palavra numa espécie de afasia literária.

O século XVIII teve o seu aspecto filosófico e o seu aspecto mundano. Teve Voltaire e teve Crebillon. Portugal copiava o último, ao mesmo tempo que D. João V imitava a frivolidade resplandecente do rei Sol dos minuetes e das etiquetas, olvidando o Luiz XIV dos tratados.

Daí o burlesco daquela tentativa de transferir para Lisboa um lampejo de Versalhes, numa grandeza achamboada e informe que era, como todas as paródias, um contraste. E o contraposto entre o medido das frases e das idéias, que na corte parisiense transmudavam o classicismo numa sistematização da vulgaridade, e o retumbante e amaneirado das glosas e madrigais dos versejadores portugueses. Comparem-se o Camões do Rocio e Boileau; ou então a pragmática dos saraus de Rambouillet aos festejos ruidosos de Lisboa onde se viam, sem escândalo à fradaria inumerável, rompentes nas procissões ou saracoteando nos salões, ao toar dos alaúdes e guitarras, a Poesia, a Gramática (a gramática!) e a Retórica com a sua ninhada de Tropos espalhafatosos, de Metáforas nervosas, de Gerúndios rotundos e de supinos desfibrados, materializados todos num grande excesso de objetivismo.

Esta literatura refletia uma época.

A terra forte que se sacrificara ao progresso geral, repontando à tona da Renascença para mergulhar numa outra Idade Média e reconstituir no novo mundo o mundo antigo que acabara — chegava, surpreendida e deslumbrada, à quadra maravilhosa. Quis encalçá-la e só lhe absorveu os estigmas remanescentes.

A própria galanteria, que encontrara no abade Prevost — e na maioria dos padres voltairianos, que embarcavam galantemente para Cítera — intérpretes inimitáveis, ali se derrancara nas requestas perigosas. O amor era brutal, liricamente brutal se o quiserem, armado de capa e espada, de botas e esporas, marchando para as entrevistas como para os fossados arriscados. Ao cair da noite, espessa e impenetrável, sem a fresta única de um lampião mortiço, as ruas de Lisboa tinham os pavores das azinhagas solitárias.

Eram o paraíso tenebroso dos chichibéus errantes, e mascarados num requinte de resguardos, porque as formas se lhes diluíam no escuro, apagadas e imperceptíveis, num deslizamento silencioso de lemures cautelosos. E o estrangeiro curioso que os acompanhasse, ou que os apartasse nos duelos subitamente travados ao acaso, no volver das esquinas, podia encontrar o faquista desclassificado, o pródigo doudivanas, o frade corrompido, o fidalgo marialva, ou o rei...



(continua...)

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