Por Euclides da Cunha (1907)
Euclides da Cunha (1866–1909) foi engenheiro, jornalista e escritor brasileiro, marcado pela análise crítica do país. Em Contrastes e Confrontos, reúne textos que discutem tensões sociais, políticas e culturais do Brasil republicano, com olhar científico e literário. A obra foi publicada originalmente em 1907, no Rio de Janeiro, consolidando sua reflexão sobre o país.
Bismarck, sempre tão penetrante nos conceitos que disparava — disparava é o termo próprio àquela sua ironia férrea, que matava como as balas — definiu, certa vez, a política do segundo império, fantasista e frívola, e tão estonteada na Europa, ou na América, na Itália, ou no México, entre deslumbrantes frivolidades, em que se dissipava o heroísmo tradicional da França:
— "Era uma política de gorjetas."
Depois, esculpiu com quatro pranchadas de pena o homem que a inspirava: "Napoleão III, com o seu egoísmo de corretor, incidiu no vício dos antigos diplomatas italianos, que confundiam a diplomacia e a perfídia. Tinha uma política ao mesmo passo bem ponderada e quimérica, complicada e ingênua. pensando trabalhar para a França, abalou-lhe a liberdade e trouxe durante 20 anos a Europa em contínuo alarma, mercê de suas indefinidas ambições. Faltavam a sua inteligência precisão e eficiência, a par de uma extraordinária fé na sua estrela3 levando-o às mais ousadas tentativas com os planos mais quiméricos."
Ora, Bismarck fazia então, sem o imaginar, o retrato da Alemanha de agora e do Kaiser.
Bem pouco há que alterar naquelas linhas lapidárias.
A terra clássica do bom senso equilibrado, da frieza de propósitos e da perseverança tranqüila, há dez anos que sobressalteia a Europa, graças à imaginação ardente, às fantasias e à vaidade feminil, laivada de arreganhos militares de seu imperador imensamente francês, e francês antigo, romântico, imprevidente e aventureiro.
E um caso notável — o aspecto transcendental, talvez, dessa revanche tão longamente acariciada pela França e que aparece espontânea, trocadas inteiramente as fisionomias das duas vizinhas irreconciliáveis.
Realmente, a Alemanha, que acordou tarde para a expansão colonizadora — longo tempo iludida pela visão errada de Bismarck, preferindo ao melhor trato de território longínquo o arcabouço do último granadeiro pomerânio — a Alemanha agita-se hoje num estonteamento.
A dilatação territorial impõe-se-lhe como uma condição de vida, não já no sentido superior de um primado de idéias, senão também no sentido estritamente biológico da própria alimentação. O seu industrialismo robusto matou-lhe a produção agrícola, de sorte que a sua vida intensíssima, a mais intensa da Europa, em grande parte desviada à agitação fecunda das fábricas, é de todo aleatória. Não lha garante, mesmo imperfeitamente, a terra, cada vez mais escassa, à medida que lhe vai crescendo o povoamento constrito entre as fronteiras inteiriças. Dai o seu arremesso dos estaleiros de Kiel para o desimpedido dos mares, visando amplificar a pátria, insuficiente, com o solo artificial e móvel dos conveses de uma frota mercante, que é a segunda do mundo, exigindo, paralelamente, as garantias de uma marinha de guerra formidável.
Mas neste concorrer à partilha da terra, com todos os inconvenientes de quem chega tarde e encontra os melhores bocados noutras mãos, a política germânica tem sido, de fato, copiando-se a frase do lendário chanceler de ferro, uma política de gorjetas. Nem lhe disfarça este caráter decaído a maneira arrojada que a reveste. Em todos os seus atos — nos arrogantes ultimata contra a frágil Venezuela, nos assaltos ferocíssimos de Waldersée, em Pequim, ou nas tortuosidades e perfídias diplomáticas que rodeiam a longa história da estrada para Bagdá, ou, ainda, no ganancioso alongar de olhos para os nossos Estados do Sul, a sua ânsia alucinada do ganho, pela pilhagem dos últimos restos da fortuna dos países fracos, pode assumir todas as formas, até mesmo o aspecto heróico: mas destaca-se com aquele traço inferior e irredutível.
Falta-lhe um Witte, falta-lhe um Chamberlain, falta-lhe um Roosevelt, e — note-se esta ironia singular da história — falta-lhe um Delcassé, ou um Combes...
Tem Guilherme II, um grande homem inédito.
Realmente, o Kaiser é uma promessa cada vez maior e mais irrealizável. Bismarck esboçou-se sem o saber, de ricochete, pela fisionomia de Napoleão III, mas fez-lhe a caricatura apenas a largos traços, vivos; e os melhores psicólogos, ao escandirem os seus atributos característicos, não descobrem de onde lhe advém tão antigermânicas qualidades. Perquirem-lhe a linhagem toda, e não lobrigam, nos confins indecisos do século XIII, o príncipe obscuro, misto de minnesinger e de soldado, errante, de castelo em castelo, pela Baviera em fora, todo vestido de ferro, feito um caçador de glórias e de perigos, a cantar o amor e a coragem, que veio, por um milagre de atavismo, surgir tão de pancada e estonteadamente em nossos dias .
É um revenant; e este evadido do passado ao mesmo passo que se isola na Alemanha, vai isolando a Alemanha do convívio das nações.
(continua...)
CUNHA, Euclides da. Contrastes e confrontos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1907.