Por Euclides da Cunha (1907)
Euclides da Cunha (1866–1909) foi engenheiro, jornalista e escritor brasileiro, marcado pela análise crítica do país. Em Contrastes e Confrontos, reúne textos que discutem tensões sociais, políticas e culturais do Brasil republicano, com olhar científico e literário. A obra foi publicada originalmente em 1907, no Rio de Janeiro, consolidando sua reflexão sobre o país.
Este belo titulo clássico cabe ao Brasil. E o que nos revela um sociólogo qualquer da Contemporary Review, um dos muitos que hoje arremetem, aforradamente, com o indefinido das questões sociais. E inglês; e o argumento essencial ressalta-lhe na resvaladura desta cinca: somos um povo sem juízo e a vitalidade germânica, em breve, nos absorverá. Registe-se-lhe a frase, onde a massuda sisudez britânica aflora o riso da alacridade ibérica: the brasilians themselves, as Dom Quixote said of Sancho Pansa, are people ol "muy poca sal en la mollera».
É interessante. Para o filósofo, pintoresco no amenizar de jogralidades cogitações tão maciças, temperando o seu Hegel com Cervantes, somos decididamente um povo pródigo, doudivanas, que anda na história a esperdiçar uma herança. Impõe-se-nos a curadoria de um protetorado ou de uma conquista mansa, o carinhoso puxão de orelhas paterno com que se reaviam os pupilos inexperientes. E um caso em que o direito internacional, cujo elastério vai aumentando à medida que se dilatam as parábolas das balas, pode humanizar-se, transmudando-se no código civil proeminente das nações.
De feito, vai, ao parecer, dando demasiado nas vistas esta nossa vida fácil e perdulária, esta nossa vida à gandaia, ociosa e comodista, sobre a enorme fazenda de uns quatrocentos milhões de alqueires de terras, onde sestiamos, fartos, entre os primores de uma flora que tem tudo, desde o mais reles cereal ao líber e ao látex, para os lavores da indústria — e que nos da tudo de graça com a sua exuberância incomparável, permitindo-nos contemplar, (contemplar apenas como coisas meramente decorativas de um vasto parque de recreio), as nossas virgens bacias carboníferas, as nossas montanhas de ferro, as nossas cordilheiras de quartzito, os nossos litorais dourados pelas areias monazíticas, e o estupendo dilúvio canalizado dos nossos rios, e os cerros lastrados de ouro das grupiaras, e os pendores numerosos, onde se desatam perpetuamente as longas fitas alvinitentes da hulha branca à espera das roldanas que elas moverão um dia... Coisas que mal vemos, pisando distraídos sobre o macadame sem preço dos cascalhos diamantinos e errando nos paraísos vazios dos gerais sem fim ...
Enquanto isto acontece, a vida de outras gentes, intensíssima e a crescer, a crescer dia a dia, mais e mais se agita, constrita à força na clausura das fronteiras. De sorte que a nossa esplêndida mediocridade se lhes torna em perpétuo desafio, repruindo-lhes a riqueza torturada e a pletora de forças que, na ordem econômica, caracteriza o moderno imperialismo.
A Alemanha é o melhor exemplo. E o caso típico de um povo sob a ameaça permanente de seu mesmo progresso. Passando, com uma rapidez sem par na história, do regime agrícola em que se aplicavam, há meio século, três quartos da sua gente, para o máximo regime industrial, onde se aplicavam hoje dois terços da sua atividade - ficou duplamente adstrita a todas as exigências do expansionismo obrigatório. Para viver e para agir. De um lado, calcula-se que o seu solo, intensamente explorado, no máximo, bastará a alimentar trinta milhões de homens, e ela tem quase o dobro. De outro, cerca de metade das matérias-primas, que lhe alimentam as indústrias, vem do exterior. Está numa alternativa. Ou isolar-se num papel secundário e obscuro, procurando, na emigração pacifica, um desafogo à sua sobrecarga humana — ou expandir-se, sistematicamente conquistadora, arriscando — se às maiores lutas.
Preferiu o último caso. Não tinha por onde sair.
A atitude entonada, o recacho atrevido, as hipérboles políticas e todo o gongorismo guerreiro desse Guilherme II, de fartos bigodes repuxados e duros olhos verdes resumando cintilar de espadas, e os seus arrancos oratórios, as suas inconveniências e os seus exageros, e até as suas temeridades, todas essas coisas anômalas que, há dez anos, sobressalteiam a Europa — têm o beneplácito dos mais frios pensadores da Germânia.
Há quem descubra naquela figura tumultuária algo de medieval. É, de fato, um revenant.
Mas, por isso mesmo, é o melhor tipo representativo desta situação especialíssima da Alemanha a idealizar, com os mesmos enlevos dos trovadores de suas velhas baladas, a sua missão na terra.
Apenas a odisséia não tem rimas; tem cifras; reponta de argumentos inflexivelmente práticos; e os seus melhores cantores, uns velhinhos mansíssimos, saem do remanso das academias. Resolvem um problema: e não indagam se ele requer, ou dispensa, o processo de eliminação de algumas batalhas.
(continua...)
CUNHA, Euclides da. Contrastes e confrontos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1907.