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#Ensaios#Literatura Brasileira

O Marechal de Ferro

Por Euclides da Cunha (1907)

Euclides da Cunha (1866–1909) foi engenheiro, jornalista e escritor brasileiro, marcado pela análise crítica do país. Em Contrastes e Confrontos, reúne textos que discutem tensões sociais, políticas e culturais do Brasil republicano, com olhar científico e literário. A obra foi publicada originalmente em 1907, no Rio de Janeiro, consolidando sua reflexão sobre o país.

No meio em que surgiu, o marechal Floriano Peixoto sobressaía pelo contraste. Era um impassível, um desconfiado e um cético, entre entusiastas ardentes e efêmeros, no inconsistente de uma época volvida a todos os ideais, e na credulidade quase infantil com que consideramos os homens e as coisas. Este antagonismo deu-lhe o destaque de uma glória excepcionalíssima. Mais tarde o historiador não poderá explicá-la.

O herói, que foi um enigma para os seus contemporâneos pela circunstância claríssima de ser um excêntrico entre eles, será para a posteridade um problema insolúvel pela inópia completa de atos que justifiquem tão elevado renome. E um dos raros casos de grande homem que não subiu, pelo condensar no âmbito estreito da vida pessoal as energias dispersas de um povo. Na nossa translação acelerada para o novo regime ele não foi uma resultante de forças, foi uma componente nova e inesperada que torceu por algum tempo os nossos destinos.

Assim considerado, é expressivo. Traduz de modo admirável, ao invés da sua robustez, a nossa fraqueza.

O seu valor absoluto e individual reflete na história a anomalia algébrica das quantidades negativas: cresceu, prodigiosamente, à medida que prodigiosamente diminuiu a energia nacional. Subiu, sem se elevar - porque se lhe operara em torno uma depressão profunda. Destacou-se à frente de um país, sem avançar — porque era o Brasil quem recuava, abandonando o traçado superior das suas tradições...

Diante da sua figura insolúvel e dúbia, os revolucionários apreensivos traçavam na tarde de 14 de novembro o ponto de interrogação das dúvidas mais cruéis, e ao meio-dia de 15 de novembro os pontos de admiração dos máximos entusiasmos. Não se conhece transformação, ao mesmo passo, tão repentina e tão explicável.

Sobretudo explicável. O seu prestígio nascera paradoxalmente antes da revolução. Sabia-se, ou conjecturava-se, que sobre o regime condenado velava, imperceptível, aquela astúcia silenciosa, formidável e cauta, contraminando talvez dentro do próprio exército o traço subterrâneo da revolta; ou acompanhando-o talvez, linha por linha, ponto por ponto, num paralelismo assombroso, e no prodígio de conspirar contra a conspiração, ajustando soturnamente o rigorismo da lei ao lado clã rebeldia incauta, de modo que, ao estalar, tivesse de improviso, em cima, irrompendo da sombra, a mão possante que a jugularia.

Esta dúvida, ou dolorosíssima suspeita — sabem-no todos os revolucionários, embora muitos a negassem depois — era a mais inibitória incerteza entre tantas outras que nos manietavam.

Revela-o um incidente inapreciável como muitos outros, porque o 15 de novembro foi uma glorificação exagerada de minúcias:

Na véspera daquele dia, às 10 horas da noite, toda a segunda brigada, em plena revolta, estava em forma e pronta para a marcha. Mas antes de a realizar sucedeu o fato ilógico e inverossímil de seguir um capitão mandado pelos chefes revolucionários, a participar o acontecimento ao próprio ajudante general de exército, ao marechal Floriano. Por um impulso idêntico ao do criminoso que segue, num automatismo doentio, a confessar o crime ao juiz que o apavora, a conspiração denunciava-se. Atirava aquela cartada arriscadíssima; iludia o temor do adversário procurando-o; trocava a expectativa do perigo pelo perigo franco.

Mas nada conseguiu. Diante do oficial rebelde que viera de S. Cristóvão a procurá-lo, encontrando-o na única sala que se destacava iluminada no vasto quartel do campo de Santana imerso na mais profunda treva — o marechal Floriano apareceu ainda mais indecifrável. Determinou com a palavra indiferente de quem dá a mais desvaliosa ordem a uma ordenança, que se desarmasse a brigada sediciosa. Mas não fez a recriminação mais breve, ou traiu o mais fugitivo espanto; e não prendeu o parlamentário indisciplinado que ao sair adivinhou adensados no escuro, dentro, no vasto pátio interno, todos os batalhões de infantaria, com as espingardas em descanso, e de baionetas caladas onde se joeirava salteadamente, em súbitos reflexos, o brilho das estrelas...

A consulta à esfinge complicara o enigma. Como interpretar-se aquela ordem apenas balbuciada pela primeira autoridade militar rodeada da parte mais numerosa da guarnição que os regimentos levantados iriam encontrar vigilante e firme nas formaturas rigorosas?...

A revolta desencadeou-se nesta indecisão angustiosa, e foi quase um arremesso fatalista para a derrota.



(continua...)

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