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#Sermões#Retórica

Sermão da Glória de Maria, Mãe de Deus

Por Padre Antônio Vieira (1644)

49. Até aqui o Filho recebeu do Padre, necessariamente, e sem eleição sua. E que é o que recebeu por vontade livre, e por verdadeira e própria eleição? O que logo se segue e acrescentou o mesmo S. Paulo: Sed semetipsum exinanivit formam servi accipiens, in similitudinem hominum factus, et habitu inventus ut homo: propter quod et Deus exaltavit illum, et donavit illi momem quod est super omne nomem.11 Recebeu o Filho do Padre, por verdadeira e própria eleição, o ofício e dignidade de Redentor do gênero humano, fazendo-se juntamente homem, e com esta nova e inefável dignidade recebeu um nome sobre todo nome, que é o nome de Jesus, mais sublime e mais venerável pelo que é e pelo que significa, que o mesmo nome de Deus: Ut in nomine Jesu, omne, genu flectatur.12 Recebeu a potestade judiciária, que o Padre demitiu de si, competindo ao Filho privativamente o juízo universal e particular de vivos e mortos: Pater non judicat quem quam, sed omne, judicium dedit Filio.13 Recebeu o primeiro trono entre as três pessoas da Santíssima Trindade, assentando-se à mão direita do mesmo Padre: Dixit Dominus Domino meo: Sede a dextris meis.14 Tudo isto, e o que disto se segue, com imensa exaltação e glória recebeu o Filho de Deus de seu Eterno Padre, por vontade livre e própria eleição.

50. Mas se toda esta nova exaltação, e toda esta nova glória, não era devida à pessoa do Filho por força ou direito da geração eterna, em que somente era igual ao Padre na natureza e atributos divinos, e a eleição livre de dar ou tomar a mesma exaltação e glória estava e dependia da vontade do mesmo Padre, por que a não tomou para si? Assim como encarnou a pessoa do Filho, assim pudera encarnar a pessoa do Padre. E no tal caso, a nova dignidade de redentor; o nome sobre todo o nome, a maior veneração e adoração de homens e anjos, e todas as outras prerrogativas e glórias, que pelo mistério da Encarnação e Redenção sobrevieram e acresceram ao Filho, não haviam de ser do Filho, senão do mesmo Padre. Pois se a eleição voluntária e livre de tudo isso estava na mão do Padre, e podia tomar para si toda essa exaltação e glória, por que a quis antes para a pessoa do Filho? Por nenhuma outra razão, senão porque era Filho, e ele Pai: Ego autem constitutus sum rex ab eo super Sion montem sanctum ejus. Dominus dixit ad me: Filius meus es tu.15 Assim como o Eterno Padre, para encarecer o amor que tinha aos homens, não se nos deu a si, senão a seu Filho: Sic Deus ditexit mundum, ut Filium suum unigenitum daret:16 assim, para manifestar o amor que tinha ao mesmo Filho, não tomou para si essas novas glórias, senão que todas as quis para ele, e lhas deu a ele, entendendo que quando fossem de seu Filho, então eram mais suas, e que mais e melhor as gozava nele que em si mesmo.

51. E que Filho é este, Virgem gloriosíssima, senão o mesmo Filho vosso, Filho unigênito do Eterno Padre, e Filho unigênito de Maria. E se o Eterno Padre, em tudo o que pode ter eleição própria, escolheu os excessos de sua glória para seu Filho, essa mesma glória que ele goza em si, e vós nele, em que infinitamente vos vedes excedida, quem pode duvidar, se tem inteiro juízo, que seria também vossa a mesma eleição? Toda a Igreja triunfante no céu, e toda a militante na terra, reconhece e confessa que entre todas as puras criaturas, ou sobre todas elas, nenhuma há mais parecida a Deus Padre que aquela singularíssima Senhora que ele criou e predestinou ab aeterno para Mãe de seu unigênito Filho, porque era justo que o Pai e a Mãe, de quem ele recebeu as duas naturezas de que inefavelmente é composto, fossem, quanto era possível, em tudo semelhantes. E se o amor do pai, por ser amor de Pai, e pai sem mãe, escolheu para seu Filho, e não para si, as glórias que cabiam na sua eleição, não há dúvida que o amor da Mãe, e mãe sem pai, escolheria para o mesmo Filho também, e não para si, toda a glória infinita que ele goza. E esta é a eleição que teria por melhor: Maria optimam partem elegit.

(continua...)

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