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#Sermões#Retórica

Sermão da Glória de Maria, Mãe de Deus

Por Padre Antônio Vieira (1644)

46. 0 mesmo filho de Maria, por ser filho seu, se chama também Filho de Davi, e na história do mesmo Davi nos dá a Escritura Sagrada o maior e mais universal testemunho que para prova desta verdade se pode desejar nem ainda inventar. Chegado Davi aos fins da vida, quis nomear sucessor do reino, e mandou ungir a seu filho Salomão por rei. Deu esta ordem a Banaias, capitão dos guardas da pessoa real, o qual lhe beijou a mão pela eleição, que não era pouco controversa, e o cumprimento com que falou ao rei. foi este: Quomodo fuit Dominus cum domino meo rege, sic sit cum Salomone, et sublimius faciat soliuim ejus a solio domini mei regis David (3 Rs. 1,37): Assim como Deus assistiu sempre e favoreceu a Vossa Majestade, assim assista e favoreça o reinado de Salomão, e sublime e exalte o seu trono muito mais que o trono de Vossa Majestade. Executou-se prontamente a ordem, ungiram a Salomão no Monte Gion com todas as cerimônias que então se usavam em semelhante celebridade. Entrou o novo rei por Jerusalém a cavalo, com trombetas e atabales diante, entre vivas e aclamações de todo o povo e exército; vieram todos os príncipes e ministros maiores das doze Tribos congratular-se com Davi, e as palavras com que lhe deram o parabém foram outra vez as mesmas: Amplificet Deus nomem Salomanis super nomem tuum, et ,magnificet thronum ejus super thronum tuum (3 Rs. 1,47): Seja maior o nome de Salomão, Senhar; que o vosso nome, e mais alto e glorioso o seu trono, do que foi o vosso. O que me admira sobretudo, neste caso, é que todos dissessem a mesma coisa. Estas são as ocasiões em que a discrição, o engenho e a cortesania dos que dão o parabém ao rei, se esmera em buscar cada um novos modos de congratulação, novos motivos de alegria, e ainda novos conceitos de lisonja, e mais os que fazem a fala em nome dos seus tribunais ou repúblicas. Como logo em tantas tribos, tantos ministros, tantos príncipes e senhores – que, como diz o texto, vieram todos – não houve quem falasse por outro estilo, nem dissesse outra coisa a Davi, senão que Deus fizesse a seu filho maior que ele, e sublimasse e exaltasse o trono de Salomão mais que o seu trono? Isto disseram todos, porque a um rei tão famoso e glorioso como Davi, nenhuma outra felicidade nem glória lhe restava para desejar, senão que tivesse um filho que em tudo se lhe avantajasse e o excedesse, e que o trono do mesmo filho fosse muito mais levantado e sublimado que o seu. A Davi, enquanto Davi, bastava-lhe por glória ter sido Davi; mas enquanto pai, não lhe bastava. Ainda lhe restava outra maior glória que desejar, e esta era ter um tal filho, que na majestade, na grandeza, na glória, e no mesmo trono, o vencesse e excedesse muito: Et magnificet thronum ejus super thronum tuum.

47. Dois tronos há no céu mais sublimes que todos: o de Deus, e o de sua Mãe; o de Deus infinitamente mais alto que o de sua Mãe, e o de sua Mãe quase infinitamente mais alto que o de todas as criaturas. Mas a maior glória de Maria não consiste em que o seu trono exceda o de todas as hierarquias criadas, senão em ter um filho, cujo trono excede infinitamente o seu. E este é o parabém que no céu lhe estão dando hoje, e lhe darão por toda a eternidade todos os espíritos bem-aventurados, sem haver em todos os coros de homens e anjos quem diga nem possa dizer outra coisa, senão: Thronum ejus super thronum tuum. Vence Maria no céu a todas as virgens na glória que se deve à pureza; a todos os confessores, na que se deve à humildade; a todos os mártires, na que se deve à paciência; a todos os apóstolos, patriarcas e profetas, na que se deve à fé, à religião, ao zelo e culto da honra de Deus. Mas assim os confessores, como as virgens, assim os mártires, como os apóstolos, assim o patriarcas, como os profetas, deixadas todas essas prerrogativas em que gloriosamente se vêem vencidos, os louvores e euges eternos com que exaltam a gloriosíssima Mãe, é ser inferior o seu trono ao de seu Filho: Thronum ejus super thronum tuum. Vence Maria a todos os anjos e arcanjos, a todos os principados e potestades, a todos os querubins e serafins, na virtude, no poder, na ciência, no amor, na graça, na glória; mas todos esses espíritos angélicos, passando em silêncio os outros dons sobrenaturais, que tocam a cada uma das hierarquias, em que veneram e reconhecem a soberana superioridade com que a Senhora, como Rainha de todas, incomparavelmente as excede, todos, como tão discretos e entendidos, o que só dizem e sabem dizer; o que sobretudo admiram e apregoam, é: Thronum ejus super thronum tuum. Assim que homens e anjos, unidos no mesmo conceito e enlevados no mesmo pensamento, o que cantam, o que louvam, o que celebram prostrados diante do trono da segunda majestade da glória, e os vivas que lhe dão concordemente, é ser Mãe de um Filho, que excedendo ela a todos em tão sublime grau na mesma glória, ele a vence e excede infinitamente. E isto é o que, divididos em dois coros de inumeráveis vozes, e unidos em uma só voz, aplaudem, aclamam, festejam, e tudo o mais calam, conformando-se nesta eleição com a parte da mesma glória que a Senhora elegeu como a melhor: Optiman partem? elegir.

§VI

O exemplo do Eterno Pai com as novas glórias do Filho. O que recebeu o Verbo Eterno do Pai necessariamente, e o que recebeu por própria eleição. Atenções do Eterno Padre, submetendo a Maria a eleição da Maternidade divina.

48. E porque a preferência não fique só nos juízos e nos entendimentos criados, subamos aos arcanos do entendimento divino, e vejamos como o Eterno Pai, em tudo o que teve liberdade para eleger e escolher, também escolheu esta parte, e a teve por melhor.

Para inteligência deste ponto, havemos de supor que tudo quanto tem e goza o Filho de Deus, o recebeu de seu Padre, mas por diferente modo. O que pertence à natureza e atributos divinos recebeu o Verbo Eterno do Eterno Padre, não por eleição e vontade livre do mesmo Padre, senão natural e necessariamente. E a razão é porque a geração divina do Verbo procede por ato do entendimento, antecedente a todo ato de vontade, sem o qual não há eleição. É verdade que, ainda que a geração do Verbo não precede por vontade nem é voluntária, nem por isso é involuntária, ou contra vontade. E daqui se ficará entendendo a energia e propriedade daquelas dificultosas palavras de S. Paulo, onde diz que a igualdade que o Filho tem como Padre, na natureza e atributos divinos, não foi furto, nem o mesmo Verbo o reputou por tal: Non rapinam arbitratus est esse se aequalem Deo (Flp. 2,6). E por que declarou S. Paulo o modo da geração do Verbo pela semelhança ou metáfora do furto, dizendo que não foi furto, nem como furtado ou roubado o que recebeu do Padre? Divinamente por certo, e não se podia declarar melhor. O furto é aquilo que se toma, ou se retém e possui invito domino, contra vontade de seu dono. E a divindade que o Verbo recebeu do Padre, ainda que da parte do mesmo Padre não fosse voluntária, contudo não foi invita; não foi voluntária, sim, mas não foi contra vontade; e como o Padre não foi invito na geração do Verbo e na comunicação da sua divindade – posto que fosse necessária, e não livre-por isso a igualdade que o Verbo tem com ele é verdadeirarente sua, e não roubada: Non rapinam arbitratus est esse se aequalem Deo.

(continua...)

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