Por Gregório de Matos (1696)
8
Tal cópia de jeribita
houve naquele folguedo,
que em nada se tem segredo,
antes tudo se vomita:
entre tantas Mariquita
a Juíza era de ver,
porque vendo ali verter
o vinho, que ela comprara,
de sorte se magoara,
que esteve para o beber.
9
Bertola devia estar
faminta, e desconjuntada,
pois vendo a pendência armada,
tratou de se caldear:
bebeu naquele jantar
sete pratos não pequenos
de caldo, e sete não menos
de carne, e é de reparar
que a pudera um só matar,
e escapar de dois setenos.
10
Maribonda, minha ingrata
tão pesada ali se viu,
que desmaiada caiu
sobre Luzia Sapata:
viu-se uma, e outra Mulata
em forma de Sodomia,
e como na casa havia
tal grita, e tal contusão
não se advertiu por então
o ferrão, que lhe metia.
11
Teresa a da cutilada
de sorte ali se portou,
que da bulha se apartou,
porque era puta sagrada:
da pendência retirada
esteve num canto posta,
mas com cara de Lagosta
trocava com muita graça
o vinho taça por taça,
a carne posta por posta.
12
Enfim, que as Pardas corridas
saíram com seus amantes,
sendo, que no dia d'antes
andavam elas saídas:
e sentindo-se afligidas
do já passado tinelo,
votaram com todo anelo
emenda à Virgem do Amparo,
que no seu dia preclaro
nunca mais bodas al cielo.
DESCREVE OUTRA FUNÇÃO IGUAL, QUE NO SEGUINTE ANNO ESTAS, E OUTRAS MULATAS DA MESMA CONDIÇÃO FIZERAM A. N. SENHORA DE GUADALUPE.
1
Tornaram-se a emborrachar
as Mulatas da contenda,
elas não tomam emenda,
pois eu não me hei de emendar:
o uso de celebrar
àquela Santa, e a esta,
com uma, e com outra festa
não é devoção inteira,
é papança, é borracheira
dar de cu, cair de testa.
2
Bebeu Pelica, um almude,
e não faltou, quem notasse,
que mil saúdes tragasse;
e ficasse sem saúde:
caiu como em ataúde,
sendo mortalha as anáguas,
e eu entrei num mar de mágoas
vendo a casaca, que era
finíssima primavera,
ficar chamalote d'águas.
3
Vomitou toda a casaca,
e as Mulatas desconvinham
que umas por vômito o tinham
outras o tinham por caca:
levou sobre isto matraca
entre riso, e murmurinho,
e a carinha com focinho
lhe armou de grande altivez,
mas resvelando-lhe os pés
nadou em mares de vinho.
4
Angelinha aquela posta
manjuba de palafréns,
jogando fortes vaivéns
ao vomito estava posta:
com máscara de lagosta
ora arrotava, ora impava;
tomando puxos estava
até que a hora chegou,
não pariu, mas vomitou,
porque tudo então trocava.
5
A Filha da Mangalaça
de cuxambre tão maldito
indo a parir; o Hermanito
viu que o parto era vinhaça:
chorou tão grande desgraça
a triste da Macotinha,
vendo, que a sua Madrinha
ao botar o tal monstrinho
parira como com vinho,
porém não como convinha.
6
Anastácia a dos corais,
que fornicando a gandaia
para botar uma saia
mete sete oficiais:
bebeu tanto mais que as mais
borrachas desta folia
que cada qual lhe dizia
que os oficiais chamava
quando uma saia botava,
chamasse, quando bebia.
7
Brazia, que a meu entender
por bonita, e por galharda
excedia a toda a Parda
em cara, como em beber:
depois de muito comer
bebia com tanto afinco,
que dando às demais um trinco,
constou, que de seis frasqueiras
mui cheias, e muito inteiras
só ela bebera as cinco.
8
Helena, o cu de borralho,
asmática, porém gorda,
se ensopou como uma torda
na sorda de vinho, e alho:
tiveram grande trabalho
as mais em a levantar,
sem poder-se averiguar,
se era odre, ou se penedo,
e estando neste segredo
ela o veio a vomitar.
9
A Agueda do Michelo,
que tampouco se recata,
nem merece ser Sapata,
que entre todas é chinelo:
assentada no tinelo
dava aos sorvos tal carreira,
que disse uma companheira,
que a tirassem com presteza,
por não haver em tal mesa
azeitona sapateira.
10
Tomou a Garça no ar
a Sapata incontinenti,
e indo arreganhar-lhe o dente,
não teve, que arreganhar:
porém por se desquitar
foi-se bailar o cãozinho,
e como sobre o moinho
levou tantas embigadas,
deu em sair às tornadas
a puro vômito o vinho.
11
Ninguém com Marta Soares
quer trocar odre por odre,
porque de podre, e mais podre
não há distinção de azares:
os copos de vinho a pares
e aos nones a água bebia,
que Deus para ela não cria
água de rios, nem fontes,
e havendo de andar por pontes,
pelas de vinho andaria.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Pança farta e pé dormente. In: Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.