Por Gregório de Matos (1696)
O texto, de Gregório de Matos (século XVII, Brasil Colônia), compõe sua lírica satírica. Trata-se de uma série de poemas voltados à figura de Pedro Álvares da Neyva, um indivíduo que o autor satiriza por sua pretensa fidalguia, ascensão social baseada em artifícios, falsos títulos e casamentos por interesse. Gregório utiliza o deboche e a crítica social mordaz para expor a hipocrisia de figuras que compravam nobreza, retratando o ambiente decadente e de ambição da sociedade baiana seiscentista.
Casado e rico se embarcou para
Portugal a comprar nobreza.
Manuel Pereira Rabelo, licenciado
E se o fumo da Bahia
a Pedro fidalgo fez,
fidalgo é da cheminez
dos Padres da companhia
SENTOU ESTE PRAÇA PARA SUBIR A CAPITÃO, NO TEMPO, EM QUE ERAM TRIENAIS: E SENDO NOMEADO PARA HUMA EXPEDIÇÃO MARITIMA, PROMETTEO DE ALVIÇARAS HUM CHAPEO, E OITO PATACAS, A QUEM O LIVRASSE.
1
Deixais, Pedro, o ser chatim,
por quererdes ser soldado,
e quando sois nomeado
dizeis, que não, e que sim:
não fora melhor, rocim,
conservar-vos charelete?
quem a soldado vos mete?
ide, não sejais magano,
a despir d'El-Rei o pano,
e metei-vos gurumete.
2
De alvíssaras um chapéu
com oito patacas dais
não vedes, que se ficais,
heis de ser da mofa o réu?
não conheceis isto, incréu?
mas que pode conhecer
um presumido sem ter
mais honras, que a cabeleira,
onde se estriba a poeira
de seu vaníssimo ser.
LOUCURAS QUE FAZIA ÊSTE SUGEYTO COM HUM CAVALLO RUÇO, QUE LHE COMPROU O THIO: E MORTE DO MESMO CAVALLO.
1
Pedralves não há alcançá-lo,
porque se não cabe dele,
se um cavalo tem a ele,
ou se ele tem um cavalo:
mandou o tio comprá-lo,
por ver o seu Benjamim
na charola do Rolim;
mas tendo o rocim comprado,
então ficou cavalgado
o tio mais o rocim.
2
E porque era o tal sendeiro
um pouco acavaleirado,
se lhe pôs casa de estado,
dous pajens, e um escudeiro:
item papel, e tinteiro,
confessor, e capelão,
donde veio ocasião,
de todo o povo malvado
dizer, que o ruço rodado
morrera mui bom cristão.
3
Pedralves tão grande asnia
jura, e firma, que não disse,
porém se era parvoíce,
diria, mais que diria:
que outros lhe ouviu a Bahia
tão gordas, tão bem dispostas,
que já à guitarra andam postas,
donde chegam a julgá-lo
mais besta, que o seu cavalo,
por trazê-lo sempre às costas.
4
Por não tomar algum vício
ia ele, mais o rocim
ao campo roer capim,
fingindo, que ao exercício:
por vê-lo em tão alto ofício
ia com grande alvoroço
a marotagem num troço,
dizendo a puro intervalo,
será homem de cavalo,
quem foi de cavalo moço.
5
Uma tarde, em que corria,
ei-lo pelas ancas vai;
que muito, se também cai
qualquer Santo no seu dia:
foi tão grande a correria
do rocim pelo escampado,
que de um monte alcantilado
rodou, por jogar de lombo,
com que o ruço que era pombo,
de então foi ruço rodado.
6
Acudiu Pedro à burrada,
e chegando ao arruído,
vendo o cavalo caído,
ficou solta desmaiada:
mas a gente ali chegada
lhe disse: ó Senhor Baulio,
trunfe com valor, e brio,
que se este perdido está,
outro cavalo achará
na baralha do seu tio.
7
Ele então descendo a vala,
e dando avante dous passos
tomou o cavalo em braços,
e fez-lhe esta branda fala:
meu ruço, minha cavala,
meu carinho, e meu amor
pois fico em tão grande dor
órfão tão desamparado,
e morreis de mal curado,
ordenai-me um curador.
8
Testai consigo perene,
que um testamento cerrado
por vós, e por mim ditado
por força há de ser solene:
não queirais, que vos condene
algum Platônico astuto,
de que ao pagar do tributo
(podendo com todo alinho
falecer como um anjinho)
acabastes como um bruto.
9
O rocim, que era entendido
pouco menos, que seu amo,
em ouvindo este reclamo
surgiu, dando um ai sentido:
deu um, deu outro gemido,
e depois de escoucinhar
disse, inda estou de vagar,
por mais que a morte não queira,
que é acabar a carreira,
não de carreira acabar.
10
Isto disse o rocinante,
e logo para o curar
tratam de o desencovar
um, e outro circunstante:
com cordas, e cabrestante,
e enxadas para cavá-lo;
não podendo dar-lhe abalo,
todo o trabalho se perde,
porque era cavalo verde,
sendo ruço o tal cavalo.
11
Mas um Coadjutor bisonho
disse, tal dono, tal gado,
que o cavalo é tão pesado,
como o dono é enfadonho:
Pedralves como um medronho
ficou, e já de afrontado
desconfiou como honrado
do Coadjutor malhadeiro,
vendo estar o seu sendeiro
de cura desconfiado.
12
Eis que com força, e arte
a empuxões de cabrestante
foi sacado o rocinante
da barroca a outra parte:
Pedralves num baluarte
se pôs, e a gente deteve,
dizendo em prática breve,
vem-me alguém puxar a mim?
pois é, que este meu rocim
nem Deus quero, que mo leve.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Opúsculo de Pedro Alz. Da Neyva. In:. Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 1992.