Por Machado de Assis (1868)
Tendo rematado o romance da mulher que o levou ao Rio da Prata, o jovem fluminense, em cujo espírito sucediam-se os projetos com espantosa facilidade, lembrou-se de que deixara em meio um casamento, e voltou-se logo para essas primeiras idéias. Entretanto, como a antiga casa de Meneses era no centro da cidade, e ficava-lhe, portanto, mais perto, Marques resolveu ir lá.
Encontrou um moleque que lhe respondeu simplesmente:
— Nhonhô está em Petrópolis.
— Fazendo o quê?
— Não sei, não senhor.
Eram quatro horas da tarde. Marques foi jantar projetando ir à noite à casa de Azevedo. No hotel encontrou um amigo que, depois de abraçá-lo, despejou um alforje de notícias. Entre elas veio a do casamento de Meneses.
— Ah! casou-se o Meneses? disse Marques espantado. Com quem?
— Com uma filha do Azevedo.
— A Luísa?
— A Hortênsia.
— A Hortênsia!
— É verdade; há dois meses. Estão em Petrópolis.
Marques enfiou.
Realmente ele não amava a filha de Azevedo; e o direito que poderia ter à mão dela, tinha-o destruído com a viagem misteriosa ao Rio da Prata e a carta que dirigira a Meneses; tudo isto era assim; porém Marques era essencialmente vaidoso, e aquele casamento feito em sua ausência, quando ele pensava vir achar Hortênsia lavada em lágrimas e semi-viúva, feriu-lhe profundamente o amor-próprio.
Por felicidade do estômago dele só a vaidade estava ofendida, de modo que a natureza animal readquiriu logo a sua supremacia à vista de uma sopa de ervilhas e de uma maionese de peixe, fabricadas por mão de mestre.
Marques comeu como um homem que vem de bordo, onde não enjoou, e depois de comer tratou de ir fazer algumas visitas mais íntimas.
Deveria, porém, ir à casa de Azevedo? Como deveria falar ali? Que teria havido em sua ausência?
Estas e outras perguntas surgiam do espírito de Marques, que não sabia como decidir-se. Entretanto o moço refletiu que não lhe convinha mostrar-se sabedor de nada, a fim de adquirir o direito de censura, e que em todo caso era conveniente ir à casa de Azevedo. Chamou um tílburi e foi.
Mas aí a resposta que teve foi:
— O senhor não recebe ninguém.
Marques voltou sem saber até que ponto aquela resposta era ou deixava de ser um insulto para ele.
— Em todo caso, pensou, o melhor é não voltar lá; além de que eu venho de fora, tenho o direito à visita.
Mas os dias passaram-se sem que lhe aparecesse ninguém.
Marques magoava-se com isso; mas o que sobretudo lhe doía mais era ver que a mulher se lhe escapara das mãos, e tanto mais se enraivecia quanto que a coisa era toda por culpa dele.
— Mas que papel faz Meneses em tudo isto? dizia ele consigo. Sabendo do meu projetado casamento foi traição aceitá-la por esposa.
De pergunta em pergunta, de consideração em consideração, Marques chegou a conceber um plano de vingança contra Meneses, e com satisfação igual à de um general que tem meditado um ataque enérgico e seguro, o jovem dandy esperou tranqüilamente a volta do casal Meneses.
X
O casal voltou com efeito daí a alguns dias.
Hortênsia vinha bela como nunca; tinha na fronte o esplendor da esposa; a esposa tinha completado a donzela.
Meneses era um homem feliz. Amava e era amado. Estava no começo da vida, e ia fundar uma família. Sentia-se cheio de força e disposto a ser completamente feliz. Poucos dias depois de chegarem à corte, Marques apareceu repentinamente no escritório de Meneses.
O primeiro encontro compreende-se que devia ser um tanto estranho. Meneses, que estava na plena consciência dos seus atos, recebeu Marques com um sorriso. Este procurou afetar uma alegria desmedida.
— Cheguei, meu caro Meneses, há quinze dias; e tive ímpetos de ir a Petrópolis; mas não pude. É inútil dizer que ia a Petrópolis para dar-te os meus sinceros parabéns.
— Senta-te, disse Meneses.
— Estás casado, disse Marques sentando-se, e casado com a minha noiva. Se eu fosse outro zangar-me-ia; mas, graças a Deus, tenho algum juízo. Acho que fizeste muito bem. — Creio que sim, respondeu Meneses.
— Bem pesadas as coisas eu não amava a minha noiva como convinha que ela fosse amada. Não poderia fazê-la feliz, nem o seria eu próprio. Contigo é outra coisa.
— Então recebes assim alegremente...
— Pois então! Não há entre nós uma rivalidade; nenhuma competência nos separou. Foi apenas um episódio na minha vida que eu estimo ver que tivesse este desenlace. Em suma, tu vales mais do que eu; és mais digno dela...
— Fizeste boa viagem? atalhou Meneses.
— Magnífica.
E Marques entrou na exposição minuciosa da viagem, até que um abençoado procurador de causas veio interrompê-lo.
Meneses apertou a mão do amigo, oferecendo-lhe a casa.
— Lá irei, lá irei, mas peço que convenças a tua mulher de que não me há de receber acanhadamente. O que passou, passou: eu é que não valho nada.
— Adeus!
— Adeus!
XI
Não tardou muito que Marques fosse à casa de Meneses, onde Hortênsia lhe preparara uma recepção fria.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Não é mel para a boca do asno. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1868.