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#Comédias#Literatura Brasileira

Não consultes médico

Por Machado de Assis (1876)

Machado de Assis (1839–1908), mestre do Realismo, publicou a comédia “Não consultes médico” originalmente em Jornal das Famílias, no Rio de Janeiro, em 1876. A peça satiriza as “moléstias morais” e as curas sentimentais, mostrando como o amor frustrado se resolve não por receitas médicas, mas pela experiência partilhada e pelo reencontro afetivo.

Pessoas:

D. LEOCÁDIA D. ADELAIDE

D. CARLOTA CAVALCANTE

MAGALHÃES

Um gabinete na casa de Magalhães, na Tijuca.

Cena I

Magalhães, d. Adelaide

Magalhães lê um livro, d. Adelaide folheia um livro de gravuras.

MAGALHÃES — Esta gente não terá vindo?

D ADELAIDE — Parece que não. Já saíram há um bom pedaço; felizmente o dia está fresco. Titia estava tão contente ao almoço! E ontem? Você viu que risadas que ela dava, ao jantar, ouvindo o dr. Cavalcante? E o Cavalcante sério. Meu Deus, que homem triste! que cara de defunto!

MAGALHÃES — Coitado do Cavalcante! Mas que quererá ela comigo? Falou-me em um obséquio.

D. ADELAIDE — Sei o que é.

MAGALHÃES — Que é?

D. ADELAIDE — Por ora é segredo. Titia quer que levemos Carlota conosco.

MAGALHÃES — Para a Grécia?

D. ADELAIDE — Sim, para a Grécia.

MAGALHÃES — Talvez ela pense que a Grécia é em Paris. Eu aceitei a legação de Atenas porque não me dava bem em Guatemala, e não há outra vaga na América. Nem é só por isso; você tem vontade de ir acabar a lua-de-mel na Europa... Mas então Carlota vai ficar conosco?

D. ADELAIDE — É só algum tempo. Carlota gostava muito de um tal Rodrigues, capitão de engenharia, que casou com uma viúva espanhola. Sofreu muito, e ainda agora anda meia triste; titia diz que há de curá-la.

MAGALHÃES, rindo — É a mania dela.

D. ADELAIDE, rindo — Só cura moléstias morais.

MAGALHÃES — A verdade é que nos curou; mas, por muito que lhe paguemos em gratidão, fala nos sempre da nossa antiga moléstia. “Como vão os meus doentinhos? Não é verdade que estão curados?”

D. ADELAIDE — Pois falemos-lhe nós da cura, para lhe dar gosto. Agora quer curar a filha.

MAGALHÃES — Do mesmo modo?

D. ADELAIDE — Por ora não. Quer mandá-la à Grécia para que ela esqueça o capitão de engenharia.

MAGALHÃES — Mas, em qualquer parte se esquece um capitão de engenharia.

D. ADELAIDE — Titia pensa que a vista das ruínas e dos costumes diferentes cura mais depressa. Carlota está com dezoito para dezenove anos; titia não a quer casar antes dos

vinte. Desconfio que já traz um noivo em mente, um moço que não é feio, mas tem o olhar espantado.

MAGALHÃES — É um desarranjo para nós; mas, enfim, pode ser que lhe achemos lá na Grécia algum descendente de Alcebíades1 que a preserve do olhar espantado.

D. ADELAIDE — Ouço passos. Há de ser titia...

MAGALHÃES — Justamente! Continuemos a estudar a Grécia. (Sentam-se outra vez, Magalhães lendo, d. Adelaide folheando o livro de vistas.)

Cena II

Os mesmos e d. Leocádia

D. LEOCÁDIA ( pára à porta, desce pé ante pé, e mete a cabeça entre os dois.) — Como vão os meus doentezinhos? Não é verdade que estão curados?

MAGALHÃES, à parte — É isto todos os dias.

D. LEOCÁDIA — Agora estudam a Grécia; fazem muito bem. O país do casamento é que vocês não precisaram estudar.

D. ADELAIDE — A senhora foi a nossa geografia, foi quem nos deu as primeiras lições.

D. LEOCÁDIA — Não diga lições, diga remédios. Eu sou doutora, eu sou médica. Este (indicando Magalhães), quando voltou da Guatemala, tinha um ar esquisito; perguntei-lhe se queria ser deputado, disse-me que não; observei-lhe o nariz, e vi que era um triste nariz solitário...

MAGALHÃES — Já me disse isso cem vezes.

D. LEOCÁDIA (voltando-se para ele e continuando) — Esta (designando Adelaide) andava hipocondríaca. O médico da casa receitava pílulas, cápsulas, uma porção de tolices que ela não tomava, porque eu não deixava; o médico devia ser eu.

D. ADELAIDE — Foi uma felicidade. O que é que se ganha em engolir pílulas?

D. LEOCÁDIA — Apanham-se moléstias.

D. ADELAIDE — Uma tarde, fitando eu os olhos do Magalhães...

D. LEOCÁDIA — Perdão, o nariz.

D. ADELAIDE — Vá lá. A senhora disse-me que ele tinha o nariz bonito, mas muito solitário. Não entendi; dois dias depois, perguntou-me se queria casar, eu não sei que disse, e acabei casando.

D. LEOCÁDIA — Não é verdade que estão curados?

MAGALHÃES — Perfeitamente.

D. LEOCÁDIA — A propósito, como irá o dr. Cavalcante? Que esquisitão! Disse me ontem que a coisa mais alegre do mundo era um cemitério. Perguntei-lhe se gostava aqui da Tijuca, respondeu-me que sim, e que o Rio de Janeiro era uma grande cidade. “É a segunda vez que a vejo; eu sou do Norte. É uma grande cidade, José Bonifácio era um grande homem, a Rua do Ouvidor um poema, o chafariz da Carioca um belo chafariz, o Corcovado, o gigante de pedra, Gonçalves Dias, os Timbiras, o Maranhão...” Embrulhava tudo a tal ponto que me fez rir. Ele é doido?

MAGALHÃES — Não.

1 Político e militar grego do século V a. C., discípulo de Sócrates, foi famoso pela beleza e pela ambição.

(continua...)

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