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#Comédias#Literatura Brasileira

Lição de Botânica

Por Machado de Assis (1906)

— Só o nome! Perianto! É nome grego, titia; um delicioso nome grego. (À parte.) Estou morta para saber do que se trata.

D. LEONOR

— Vocês fazem-me perder o juízo! Aqui andam bruxas, decerto. Perianto de um lado, bromélias de outro; uma língua de gentios, avessa à gente cristã. Que quer dizer tudo isso?

D. CECÍLIA

— Quer dizer que a ciência é uma grande coisa, e que não há remédio senão adorar a botânica.

D. LEONOR

— Que mais?

D. CECÍLIA

— Que mais? Quer dizer que a noite de hoje há de estar deliciosa, e podemos ir ao teatro lírico. Vamos, sim? Amanhã é o baile do conselheiro e sábado o casamento da Júlia Marcondes. Três dias de festas! Prometo divertir-me muito, muito, muito. Estou tão contente! Ria-se, titia; ria-se e dê-me um beijo!

D. LEONOR

— Não dou, não, senhora. Minha opinião é contra a botânica, e isto mesmo vou escrever ao barão.

D. HELENA

— Reflita primeiro; basta amanhã!

D. HELENA

— Há de ser hoje mesmo! Esta casa está ficando muito sueca; voltemos a ser brasileiras. Vou escrever ao urso. Acompanha-me, Cecília; hás de contar-me o que há! (Saem.)

Cena XIII

D. Helena, Barão

D. HELENA

— Cecília deitou tudo a perder... Não se pode fazer nada com crianças.... Tanto pior para ela... (Pausa.) Quem sabe se tanto melhor para mim? Pode ser. Aquele professor não é assaz velho, como convinha. Além disso, há nele um ar de diamante bruto, uma alma apenas coberta pela crosta científica, mas cheia de fogo e luz. Se eu viesse a arder ou cegar... (Levanta os ombros.) Que idéia! Não passa de um urso, como titia lhe chama, um urso com patas de rosas.

BARÃO, aproximando-se

— Perdão, minha senhora. Ao atravessar a chácara, ia pensando no nosso acordo, e, sinto dizê-lo, mudei de resolução.

D. HELENA

— Mudou?

BARÃO

— Mudei.

D. HELENA

— Pode saber-se o motivo?

BARÃO

— São três. O primeiro é o meu pouco saber... Ri-se?

D. HELENA

— De incredulidade. O segundo motivo...

BARÃO

— O segundo motivo é o meu gênio áspero e despótico.

D. HELENA

— Vejamos o terceiro.

BARÃO

— O terceiro é a sua idade. Vinte e um anos, não?

D. HELENA

— Vinte e dois.

BARÃO

— Solteira?

D. HELENA

— Viúva.

BARÃO

— Perpetuamente viúva?

D. HELENA

— Talvez.

BARÃO

— Nesse caso, quarto motivo: a sua viuvez perpétua.

D. HELENA

— Conclusão: todo o nosso acordo está desfeito.

BARÃO

— Não digo que esteja; só por mim não o posso romper. V. Exa. porém avaliará as razões que lhe dou, e decidirá se ele deve ser mantido.

D. HELENA

— Suponha que respondo afirmativamente.

BARÃO

— Paciência! Obedecerei!

D. HELENA

— De má vontade?

BARÃO

— Não; mas com grande desconsolação.

D. HELENA

— Pois, Sr. Barão, não desejo violentá-lo; está livre.

BARÃO

— Livre, e não menos desconsolado.

D. HELENA

— Tanto melhor!

BARÃO

— Como assim?

D. HELENA

— Nada mais simples: vejo que é caprichoso e incoerente. BARÃO — Incoerente, é verdade.

D. HELENA

— Irei de procurar outro mestre.

BARÃO

— Outro mestre! Não faça isso.

D. HELENA

— Por quê?

BARÃO

— Porque... (Pausa.) V. Exa. é inteligente o bastante para dispensar mestres.

D. HELENA

— Quem lho disse?

BARÃO

— Adivinha-se.

D. HELENA

— Bem; irei queimar os olhos nos livros.

BARÃO

— Oh! seria estragar as mais belas flores do mundo!

D. HELENA, sorrindo

— Mas então nem mestres nem livros?

BARÃO

— Livros, mas aplicação moderada. A ciência não se colhe de afogadilho; é preciso penetrá-la com segurança e cautela.

D. HELENA

— Obrigada. (Estendendo-lhe a mão.) E visto que me recusa as suas lições, adeus.

BARÃO

— Já!

D. HELENA

— Pensei que queria retirar-se.

BARÃO

— Queria e custa-me. Em todo caso, não desejava sair sem que V. Exa. me dissesse francamente o que pensa de mim. Bem ou mal?

D. HELENA

— Bem e mal.

BARÃO

— Pensa então...

D. HELENA

— Penso que é inteligente e bom, mas caprichoso e egoísta.

BARÃO

— Egoísta!

D. HELENA

(continua...)

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