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#Comédias#Literatura Brasileira

O Noviço

Por Martins Pena (1845)

O Noviço apresenta uma comédia centrada em intrigas familiares e interesses financeiros. A trama gira em torno de um jovem pressionado a seguir a vida religiosa para que parentes se beneficiem de sua herança. Com situações cômicas e diálogos ágeis, o texto satiriza a hipocrisia, o oportunismo e os costumes da sociedade brasileira do século XIX, usando o humor como crítica social.

Comédia em 3 atos

Personagens

Ambrósio

Florência - sua mulher

Emília - sua filha

Juca - 9 anos, dito

Carlos - noviço da Ordem de S. Bento

Rosa - provinciana, primeira mulher de Ambrósio

Padre - Mestre Dos Noviços

Jorge

José - criado

meirinho, que fala

ditos, que não falam

Soldados de Permanentes, etc. ,etc.

(A cena passa-se no Rio de Janeiro)

ATO PRIMEIRO

Sala ricamente adornada: mesa, consolos, mangas de vidro, jarras com flores, cortinas, etc., etc. No fundo, porta de saída, uma janela, etc., etc.

CENA I

Ambrósio, só de calça preta e chambre — No mundo a fortuna é para quem sabe adquiri-la. Pintam-na cega... Que simplicidade! Cego é aquele que não tem inteligência para vê-la e a alcançar. Todo homem pode ser rico, se atinar com o verdadeiro caminho da fortuna. Vontade forte, perseverança e pertinácia são poderosos auxiliares. Qual o homem que, resolvido a empregar todos os meios, não consegue enriquecer-se? Em mim se vê o exemplo. Há oito anos, eu era pobre e miserável, e hoje sou rico, e mais ainda serei. O como não importa; no bom resultado está o mérito... Mas um dia pode tudo mudar. Oh, que temo eu? Se em algum tempo tiver que responder pelos meus atos, o ouro justificar-me-á e serei limpo de culpa. As leis criminais fizeram-se para os pobres

CENA II

Entra Florência vestida de preto, como quem vai à festa.

Florência - Entrando — Ainda despido, Sr. Ambrósio?

Ambrósio — É cedo (Vendo o relógio) São nove horas e o ofício de Ramos principia às dez e meia.

Florência — É preciso ir mais cedo para tomarmos lugar.

Ambrósio — Para tudo há tempo. Ora, dize-me, minha bela Florência...

Florência — O que, meu Ambrosinho?

Ambrósio — O que pensa tua filha do nosso projeto?

Florência — O que pensa não sei eu, nem disso se me dá; quero eu - e basta. E é seu dever obedecer.

Ambrósio — Assim é; estimo que tenhas caráter enérgico.

Florência — Energia tenho eu.

Ambrósio — E atrativos, feiticeira.

Florência— Ai, amorzinho! (à parte: ) Que marido!

Ambrósio — Escuta-me, Florência, e dá-me atenção. Crê que ponho todo o meu pensamento em fazer-te feliz...

Florência — Toda eu sou atenção

Ambrósio — Dous filhos te ficaram do teu primeiro matrimônio. Teu marido foi um digno homem de muito juízo; deixou-te herdeira de avultado cabedal. Grande mérito é esse...

Florência — Pobre homem!

Ambrósio — Quando eu te vi pela primeira vez não sabia que era viúva rica. ( à parte: ) Se o sabia! (Alto: ) Amei-te por simpatia.

Florência — Sei disso, vidinha.

Ambrósio — E não foi o interesse que obrigou-me a casar contigo.

Florência — Foi o amor que nos uniu.

Ambrósio — Foi, foi, mas agora que me acho casado contigo, é de meu dever zelar essa fortuna que sempre desprezei.

Florência, à parte — Que marido!

Ambrósio, à parte — Que tola! (Alto:) Até o presente tens gozada desta fortuna em plena liberdade e a teu bel-prazer; mas daqui em diante, talvez assim não seja.

Florência — E por quê?

Ambrósio — Tua filha está moça e em estado de casar-se. Casar-se-á, e terás um genro que exigirá a legítima de sua mulher, e desse dia, principiarão as amofinações para ti, e intermináveis demandas . Bem sabes que ainda não fizestes inventário.

Florência — Não tenho tido tempo, e custa-me tanto aturar procuradores!

Ambrósio — Teu filho também vai a crescer todos os dias e será preciso por fim dar-lhe a sua legítima... Novas demandas

Florência — Não, não quero demandas.

Ambrósio — É o que eu também digo; mas como prevení-las?

Florência — Faze o que entenderes, meu amorzinho.

Ambrósio — Eu já te disse há mais de três meses o que era preciso fazermos para atalhar esse mal. Amas a tua filha, o que é muito natural, mas amas ainda mais a ti mesma...

Florência — O que também é muito natural...

Ambrósio — Que dúvida! E eu julgo que podes conciliar esses dous pontos, fazendo Emília professar em um convento. Sim, que seja freira. Não terás nesse caso de dar legítima alguma, apenas um insignificante dote — e farás ação meritória.

Florência — Coitadinha! Sempre tenho pena dela; o convento é tão triste!

(continua...)

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