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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

“16 de setembro. – Terrível sonho tive eu à noite passada. Dormindo, vi uma mulher, que se envergonhava de me olhar... era minha mãe!... eu a estive vendo, como se a houvesse algum dia conhecido... chorei ajoelhado a seus pés, e ela praguejou contra mim, porque eu sou a prova do seu erro. Amaldiçoou-me, porque eu sou para ela (talvez!) um remorso, que incessante a dilacera. Preciso repetir mil vezes, a mim mesmo, que isso foi um sonho. Porque achar minha mãe é a única esperança, que neste mundo tenho, e ser amado por ela, uma ambição desesperada. Eu adoro a minha mãe sem tê-la nunca visto; daria minha vida por uma bênção dela. Meu Deus! dai-me minha mãe!”

“17 de setembro. – Há somente dois sentimentos capazes de encher toda a alma de um mancebo: são eles – amor e ambição –. Careço de bases para desenvolver qualquer dos dois. Para mim, portanto, não há felicidade possível. É horrível a vida do homem que tem um coração cheio de amor e carece de quem lhe aceite esse sentimento de fogo; que possui um pensamento repleto de nobre ambição, e não tem asas para voar ao ponto que mira. Disseram-me um dia que eu tinha talento e gênio; pois sim; suponhamos que se não enganaram. Tenho talento e gênio, mas não posso deixar a obscuridade; porque se eu sair em claro dia, o primeiro que me encontrar, perguntar-me-á – quem és tu? – e eu não terei uma palavra para responder-lhe. Tenho talento e gênio; porém se amar uma mulher, ela há de rir-se de minha audácia, de minha loucura, há de zombar do pobre que a ama; e se for também louca para chegar a amar-me, terá de descer muito para ir até o fundo do abismo onde a sociedade tem posto em exílio o homem pobre. Oh! é preciso pois passar pela vida sem gozar nenhum desses grandes afetos... sem ter pais, que me abençoem; sem ter esposa, com quem me identifique; sem ter filhos, em quem me sinta renascer. Oh!... só! sempre só.”

“18 de setembro. – Não foi uma visão, meu Deus?... será possível que fosse realidade?... o que se está passando ainda agora, o que eu tenho na cabeça, o que eu sinto no coração não se exprime... não se descreve... não, é impossível; mas fica eternamente impresso na alma.”

“19 de setembro. – Oh!... era... é realidade!”

“20 de setembro. – Minha mãe, perdão! três dias passados, sem que eu vos desse mais que momentâneos pensamentos; foram três dias de embriaguez ou de sono; mas enfim eis-me despertado. Sim... dormi, porque cheguei a esquecer-me de minha posição e de minha desgraça; em castigo, porém, aqui estou eu agora mais desgraçado que nunca. O que eu sofro... as lúgubres idéias que me fervem no cérebro, não serão aqui exaladas. Não! eu tenho vergonha do que sofro; se aqui as escrevesse, e depois alguém a meus olhos lesse este papel, eu creio que morreria de pejo. E todavia eu precisava tanto de escrever!... quando se tem derramado em um papel aquilo que na alma se está sentindo, o coração de quem sofre como que fica livre de um peso enorme. Eia, pois!... escrevamos sempre... um nome só... não! um nome, não! Bastam duas letras – “Ce” –.”

Com essas duas letras tinha-se exatamente terminado a página, de que copiamos os anteriores pensamentos.

Cândido havia parado de escrever; e provavelmente, sem querer, adormecera com o rosto caído sobre o papel, e os lábios sobre aquelas duas letras – Ce.

É possível que o seu último pensamento da vigília fosse o dar um beijo nas duas letras, que lhe pareciam ser tão caras.

Prolongou-se o dormir do mancebo até quase o amanhecer; hora em que, como se o próprio coração o despertasse, ergueu-se ele rápido, e foi até a fresta que havia na janela do lado direito.

A noite ainda não se havia de todo dissipado.

– Ainda é cedo, disse.

Mas ficou no mesmo lugar, olhando pela fresta; e dir-se-ia que esperava ver dali cair sobre a terra o primeiro raio do sol.

Pela fenda da janela, a que Cândido se chegara, e onde permanecia, devassava-se quase todo jardim do “Céu cor-de-rosa”. Ao fundo deste via-se um pequeno e gracioso caramanchão coberto de trepadeiras de mil espécies.

As auras da madrugada entravam pela fenda da janela do sótão, impregnadas de mil embriagadores perfumes, como o bafo de cem anjos, que a um só tempo respirassem.

À luz incompleta e duvidosa do começar do dia, tinha sucedido essa outra, que acompanha o primeiro rubor do oriente, que é como um sorrir de saudação e de amor, que o sol oferece à terra.

(continua...)

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