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#Comédias#Literatura Brasileira

O primo da Califórnia

Por Joaquim Manuel de Macedo (1858)

O Primo da Califórnia, de Joaquim Manuel de Macedo, é uma ópera em dois atos que combina humor e crítica social, retratando conflitos familiares e ambições despertadas pela promessa de riqueza. A chegada de um parente vindo do exterior provoca tensões e revelações entre as personagens, conduzindo o leitor por uma narrativa marcada pelo diálogo e pela ação cênica, evidenciando o caráter teatral da obra.

Ópera em dois atos

Foi à cena na abertura do Ginásio Dramático, em 12 de abril de 1855. Imitação do francês

Personagens

Adriano Jenipapo, jovem professor de música

Pantaleão, amigo taberneiro

Felisberto, alfaiate

Ernesto, amigo de Adriano

Celestina

Beatriz, criada de Adriano

Dois amigos de Adriano

A cena passa-se no Rio de Janeiro

ATO PRIMEIRO

O teatro representa uma sala modestamente ornada; uma mesa com gavetas; um piano, um violão, papéis de música, etc.; uma porta ao fundo abrindo para a rua.

CENA I

Beatriz (Em pé, engraxando um botim) – eis-me aqui pagando os meus pecados!... eu sou uma espécie de verbi-gratia das mudanças desta vida. No tempo do vice-rei chamavam-me a neném da rua das Flores; quando o rei chegou, já eu era conhecida pela formosa Beatriz: depois que me apareceu o primeiro cabelinho branco, tiveram o desaforo de tratar-me por tia Beatriz; felizmente ainda a sorte me deparou um soldado inválido que quis casar comigo; mas veio a febre amarela, que deu baixa eterna ao meu querido Pancrácio, e eu fiquei viúva, e viúva sem filha, e sem vintém! Não tive remédio senão recorrer aos Diários, e anunciar uma criada para homem solteiro ou viúvo: tive a esperança de me tornar meia-dona de casa; mas por fim de contas fiquei simples criada, e criada muito ordinária: isto é, criada de um músico!... Eis aqui portanto a bota de um músico engraxada pelas mãos da formosa Beatriz!... Oh! Eu só conheço três coisas tão desprezíveis como as botas de um músico: uma barretina de soldado, um capote de estudante, e uma casaca de meirinho! E eu sempre a engraxar estas botas, botas de um músico, de um músico que tem a pouca vergonha de me estar a dever cinco patacas de despesas miúdas!... (Canta) No tempo da venturaChamavam-me formosa;E agora nem airosaAlguém, que eu sou, me diz!...Engraxa, engraxa as botas, Engraxa, Beatriz!Meus olhos, minhas faces Cobriam de louvores;E agora... adeus amores, Já torcem-me o nariz! Engraxa, engraxa as botas,Engraxa, Beatriz!

CENA II

Beatriz e Celestina

Celestina – Bom dia, senhor Beatriz; o senhor Adriano não está em casa?...

Beatriz – sumiu-se logo depois do almoço: também é provável que não esperasse pela sua visita, porque a senhora tem passado dois dias sem aparecer.

Celestina – não me tem sido possível.

Beatriz – Sim... sim... entendo isto às mil maravilhas! E, quanto a mim, minha menina, julgo que faz muito bem em ir pondo o anzol a outro peixinho.

Celestina – O que quer dizer com isso, senhora Beatriz?...

Beatriz – Eu nem de leve pretendo ofendê-la; minhas intenções são muito boas; e olhe, menina, tal como aqui me vê, já tive meus trinta e seis anos de idade, e então cometi a fraqueza de deixar o meu coração prender0me na patrona de um cabo-deesquadra; oh! Quanta sedução que tinha!...

Celestina – O que, senhora Beatriz?... a patrona?...

Beatriz – Não, menina; o cabo-de-esquadra.

Celestina – E deixou-se enganar por ele?...

Beatriz – Também não, e a prova é que ele me desposou; mas passei uma vida de trabalho e pobreza, porque o triste Pancrácio apenas tinha de mais que os outros cabos-de-esquadra uma pequena pensão; mas também tinha de menos que os outros uma perna... era a direita; logo a direita!... a mais bonita de suas duas pernas!...

Celestina – mas eu não compreendo que relação...

Beatriz – Não compreende?... mas, minha menina, a moral da história está mesmo saindo pela ponta dos dedos! Em uma palavra, moça e bela, como a senhora é, não deve votar-se sem mais reflexão ao amor de um mancebo, que não tem aquilo com que se compram os melões; olhe, o senhor Adriano padece a moléstia mais feia e mais terrível deste mundo.. tem a tísica das algibeiras.

Celestina – Ah! Era isso?... pois é precisamente porque Adriano é pobre, que eu gosto, quero e hei de amá-lo sempre e cada vez mais. (Canta)

Minh’alma foi sempre rude,

Nunca aprendeu a contar;

Não serve pra guarda-livros;

O que sabe é só amar!

O meu Adriano é pobre,

Mas não indigno de mim;

Eu amo a sua pobreza;

“Gosto bem de ser assim!”

Beatriz – Sim... sim... idéias romanescas, poesias, e pensamentos generosos; mas o diabo me leve se a senhora for capaz de fazer ferver uma panela no fogo com um soneto, ou com uma idéia generosa.

Celestina – Mas bem que o senhor Adriano não esteja em muito boa posição: o que prova que ele seja tão pobre, como a senhor o diz?...

Beatriz – Quando se está devendo cinco patacas a sua criada, minha menina...

(continua...)

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