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#Comédias#Literatura Brasileira

Remissão de Pecados

Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)

Remissão de Pecados é uma peça teatral em cinco atos de Joaquim Manuel de Macedo que explora paixões intensas, culpas e reconciliações por meio de diálogos e cenas dramáticas. A trama acompanha Adriano, um homem que perde a fortuna no jogo e se vê dividido entre obsessões e responsabilidades, enquanto o perdão e a redenção moldam a resolução dos conflitos entre as personagens.

REMISSÃO DE PECADOS

Joaquim Manuel de Macedo

TEATRO S. LUIS

Anda atualmente em cena neste teatro uma comédia em 5 atos do sr. dr. Joaquim Manuel de Macedo, a Remissão de pecados. Apesar da designação de comédia, segundo a idéia que geralmente se liga à palavra, não é esta uma composição ligeira principalmente destinada a recrear e divertir, ocupando-se ao mesmo tempo mais ou menos com a reforma dos costumes. A ação é toda dramática, envolvendo paixões fortes e situações violentas.

Remissão de Pecados escreveu o autor no alto da sua comédia, e com efeito encontramos aqui diversos pecados e pecadores remitidos ou perdoados uns pelos outros. Adriano consome no jogo a fortuna que lhe trouxera sua mulher, e quase esquece esta, que é um anjo de virtude e candura, pela louca paixão que lhe inspira uma criatura indigna. Destes dois feíssimos pecados e seus estragos é ele não sabemos se remitido ou remido pelas exortações e dinheiro de Clarimundo. Esta mesma remissão dá ocasião a que Clarimundo, oculto pai de Adriano, reconheça o filho e case com Úrsula, de quem o houvera, oferecendo-nos o quadro de mais dois pecadores perdoados. Apenas se poderia dizer que a remissão de tão grandes pecados é um tanto facilmente obtida.

Escrita no estilo brilhante e muitas vezes sarcástico do sr. dr. Macedo, a comédia abunda em bons ditos. Tem vários lances que impressionam fortemente, e delineadas por mão experimentada, as cenas sucedem-se naturalmente, mantendo vivo o interesse do espectador.

O primeiro ato passa-se numa casa de jogo, cujos tenebrosos mistérios são desvendados em toda a sua hediondez. É um belo quadro de costumes, em que se patenteiam muitas chagas sociais, entre as quais principiamos a perceber o fio da ação do drama, Fábio, no intuito de seduzir Helena, esposa de Adriano, já precipitara este na voragem do jogo, e agora forma um pacto infame com o dono da espelunca, Bráulio, que deve fazer com que Dionísia, uma rapariga perdida, que ele faz passar por sua sobrinha, induza Adriano, já apaixonado por ela, a raptá-la, a fim de que o escândalo dado pelo marido aplane o caminho ao sedutor da esposa.

O segundo ato passa-se no salão do Teatro Lírico, cena excelentemente pintada, e que não pode dar senão a melhor idéia do novo pintor do teatro, o sr. Rocha. A vista foi muito aplaudida, e com razão; a perspectiva é de uma ilusão perfeita, e se em alguma coisa peca é por excesso, sendo talvez demasiado o fundo. Aqui Clarimundo, que fora o tutor de Helena, começa a perceber, apesar dos protestos desta, que no casal nem tudo é felicidade. A pobre esposa, resignada e calada, sofre muito, e a vista de Dionísia vem aumentar-lhe o martírio.

Passamos para a casa de Adriano, onde temos uma bela cena entre ele e Helena, que não se queixa de ver esbanjados todos os seus haveres, mas só lamenta ter perdido o amor do esposo. Clarimundo obriga Adriano a prometer-lhe que se regenerará, refazendo pelo trabalho a sua fortuna, e restaurando a felicidade doméstica pelo esquecimento de Dionísia. Não se fiando, porém, muito nas promessas do pecador, ele exige de Cincinato, caráter estouvado, mas franco e leal, que faça desaparecer a rapariga levando-a consigo para qualquer parte.

Para execução deste plano voltamos no 4º ato à casa de jogo, onde o venal Bráulio e a não menos venal Dionísia aceitam sem dificuldade a proposta de Cincinato, que oferece maior quantia do que Fábio prometera. No momento da fuga ainda Cincinato consegue fazer-se substituir por um amigo condescendente, livrando-se assim de um trambolho, e pregando uma peça a Bráulio, que perde o direito ao prêmio, visto quem devera pagar-lho dar-se por traído.

O fim, porém, está alcançado, e removida a serpente, Adriano no 5º ato volta aos braços da esposa. Clarimundo paga-lhe as dívidas, reconhece-o por filho, casa com Úrsula, como dissemos, e desce o pano, deixando todos felizes e contentes.

Expondo assim rápida e sucintamente o entrecho, é claro que não podíamos reproduzir todas as belezas do drama, derramadas pelo diálogo e pelo encadeamento das cenas. O mesmo desenlace assim exposto poderia talvez não parecer inteiramente satisfatório, mas para bem julgar um drama é mister vê-lo representar, quando é para isso que foi escrito. A representação pode dar-lhe um brilho e um encanto, de que somente com a própria vista se faz idéia. A indiferença do público é o maior inimigo com que lutam as letras; um drama firmado por um nome conhecido deveria despertar em todos a curiosidade de vê-lo ao menos uma vez; ficando então ao gosto de cada um voltar ou não, conforme a composição lhe houvesse agradado.

Cuidadosamente ensaiada e posta em cena com esmero e capricho, a Remissão de pecados foi representada de modo que não pode merecer senão elogios, traduzidos por nós em palavras como o foram pelo público em palmas à cena.

(continua...)

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